Betânia: casa de encontro, espaço educativo!

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“Jesus foi a Betânia…;
lá, ofereceram-lhe um jantar” (Jo 12,1-2)

Para inspirar sua missão como seguidor(a) de Jesus, sinta-se conduzida pelo Espírito a viver Betânia, a ser Betânia, a assumir Betânia. Sinta-se convidado(a) a entrar na casa em Betânia: casa de encontro, comunidade de amor e coração de humanidade. Deixe-se inspirar por este ambiente humanizador, para prolongá-lo em seu cotidiano familiar, social, comunitário…

O relato evangélico em Betânia confere um intenso clima pascal à oração: a ceia é prelúdio da morte de Jesus, visibilizado pela unção que Maria fez em honra ao Mestre. Mas também é anúncio da Ressurreição, mediante a presença do Lázaro ressuscitado, testemunho eloquente da vitória da vida sobre a morte. E foi neste ambiente de relações de amizade que Jesus encontrou a estabilidade e o ânimo para viver sua entrega radical.

Betânia é um lugar simbólico e instigante para a vida cristã; ela é o ícone de uma comunidade de seguidores(as); nela busca-se inspiração e motivação para viver a seguimento de Jesus na missão. Buscamos Betânias, somos gratos quando as encontramos, sentimos saudades quando elas nos faltam… É um espaço de nutrientes e de alimento em sentido amplo: afeto, calor, cuidados, atenção, presença, ternura e contato.

Betânia significa “casa dos pobres” (Beth-anawim): nela, em primeiro lugar, habitam as pobrezas pessoais e comunitárias, a pequenez e a fragilidade; mas, também, onde as pobrezas de nosso mundo, da humanidade, têm lugar e tocam nosso estilo de viver, de nos relacionar, de nos mobilizar em nosso seguimento de Jesus.

Betânia é lugar da acolhida, da hospitalidade, da escuta, da amizade e do serviço, onde todos são irmãos(ãs) sentados(as) à mesma mesa, junto ao Mestre, em quem se centra a hospitalidade e a atenção. Betânia é espaço educativo, onde todos expressam o melhor e mais original que há no interior de cada um espaço de aprendizagem mútua, onde todos se enriquecem com os dons compartilhados. Em Betânia não aprendemos doutrinas, mas gestos humanizadores, gestos descentrados e carregados de vida.

Betânia é o templo onde Jesus percebe a presença e o agir de Deus nos fatos mais simples da vida cotidiana;
Betânia é, para Jesus, um prolongamento de Nazaré, o lugar do cotidiano, do pequeno, do simples: o lugar da revelação.

Neste ambiente, já não há mais rivalidade entre as duas irmãs, Marta e Maria, mas colaboração, complementariedade e reciprocidade. Servem à mesa e ungem os pés. Juntas se fazem transparentes para algo maior que elas mesmas. Certamente Jesus se deixou impactar por aquilo que viu fazer estas duas mulheres. E Ele, como eterno aprendiz, vai prolongar os gestos delas na sua última Ceia.

Jesus se deixou fazer, para poder fazer isso com outros e quis tomar para si os gestos destas mulheres para fazer memória de sua vida. Agora é Jesus quem se mostra necessitado, e elas são as verdadeiras educadoras, pois expandem sua capacidade de cuidado e de ternura.

Preparar a mesa e ungir os pés: dois gestos que se complementam mutuamente; amor que se faz serviço, serviço que é feito com amor; amor e serviço vividos como unção. Marta nos ensina que servir não é algo que acrescentamos à nossa vida, nem algo que seja mérito nosso; o serviço é a expansão natural daquilo que somos, a visibilização de nossa interioridade.
Maria pode ser considerada como um ícone da sensibilidade nova que o evangelho nos oferece; ela expande todo o seu afeto num gesto de enorme ternura para com Jesus: suas mãos acariciam os pés do Mestre e enxuga-os cuidadosamente com seus próprios cabelos.

Sua criatividade feminina encontrou no perfume um símbolo para expressar com grande delicadeza o que nesse momento seu coração transbordava. Maria investiu num gesto gratuito e desmedido, expressão de um amor exagerado. O perfume de Maria é o símbolo da vida e do amor da comunidade. É um amor que não tem preço. Aqui, no centro do Evangelho de João, a comunidade, reconstruída no amor, exala o bom perfume que enche toda a casa.

Na cena do jantar em Betânia, outro personagem aparece compartilhando a mesa com Jesus. Lázaro é um personagem pascal, um ressuscitado; presença silenciosa, não tem nenhuma ação a realizar. Lázaro é símbolo do humano pobre, enquanto necessitado e frágil, dependente… Ele pode representar os membros de nossas famílias e comunidades, marcados pela vulnerabilidade, enfermidade e idade avançada, carentes de ajuda e cuidado; mas ele pertence à casa, é companheiro de mesa com Jesus. Percebemos que não são suas ações, trabalhos, compromissos ou qualidades que fundamentam sua amizade com Jesus; podemos pensar que Jesus o amava “porque sim”, para além do que Lázaro pudesse fazer algo por Ele.

Frente aos enganos que acompanham com frequência nosso “fazer”, com suas tendências insanas, o caminho do seguimento de Jesus nos convida a fomentar o “ser” e o “estar” mais que o “fazer”. Lázaro, “o passivo”, nos ajuda a reconhecer com alegria que, em nossa vida, tudo é dom gratuito e o melhor dela não depende de nosso esforço: é um presente do qual somos fundamentalmente “receptores”.

Mas, neste jantar festivo que os três amigos oferecem a Jesus, há um personagem que destoa: Judas. Ele não consegue entrar em sintonia com aquilo que está acontecendo durante a ceia; não compreende que em torno a Jesus tudo é gratidão e gratuidade; não compreende o gesto amoroso de uma mulher secando com seus cabelos os pés de seu amigo e derramando perfume sobre ele. Judas aparece nos três relatos evangélicos destes dias (segunda, terça e quarta-feira). Não como protagonista, mas como contra-ponto, deslocado.

Há atitudes e gestos que estão mais além do valor monetário: a delicadeza com as pessoas, com os irmãos mais necessitados, a acolhida carinhosa, a companhia amigável… A vida de comunidade é feita de detalhes carinhosos, não de racionalizações e conveniências ao nosso gosto.
A entrega amorosa de cada dia revela seu verdadeiro sentido. Só o que brota do amor tem sentido na Igreja. A infinidade de cristãos que lavam os pés de Jesus nos pobres do mundo, enche “toda a casa” (a Igreja) de um extraordinário perfume.

Para refletir e contemplar:

– Como preparação para a contemplação, leia uma ou duas vezes o texto do Evangelho indicado para este dia (Jo 12,1-11).
– Com a imaginação, faça-se presente à casa em Betânia; procure olhar atentamente cada uma das pessoas (Jesus, Lázaro, Marta e Maria); sinta o clima de alegria e amizade; procure escutar o que elas dizem; observe as reações, gestos, acolhida… de cada uma das pessoas.
– Naquele espaço inspirador, deixe que eles lhe ensinem a descobrir a força sanadora da amizade, a amadurecer-se nas perdas, a tecer afetos em momentos de adversidade, a servir a partir do coração, a ungir com as mãos terapêuticas, expressão do amor oblativo.
– Sinta o perfume do frasco quebrado tomando conta da casa.
– Participe ativamente da cena, conversando, perguntando, ajudando a servir…
– Faça um colóquio com Jesus, falando do clima “pesado” que existe em Jerusalém, pois estão à procura dele para matá-lo. Permaneça aí, deixando-se impactar pelo clima humano reinante nesta casa.
– Finalize sua oração, dando graças por esta convivência amistosa.
– Registre no caderno de vida os sentimentos predominantes durante a oração.

Por: Padre Adroaldo Palaoro – SJ

Fonte: CICAF

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