Carta da Família Franciscana de Minas por ocasião da festa de Santa Clara

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Ao Conselho Diretor da CFFB, aos membros da Família Franciscana de Minas Gerais e
a todos os irmãos e irmãs da Família Franciscana do Brasil, Paz e Bem!

Já se passaram meses desde o início dessa situação absurdamente nova para a nossa geração. A pandemia, não como um hiato temporal como pensávamos no começo, se prolonga e ceifa vidas de nosso povo; já passamos das 100.000 mortes em nosso país. Muitas outras situações se envolvem nessa complexidade, a qual a pandemia nos revelou. Digo revelou, pois as situações de descaso, de desprezo, de disparidade dos recursos e misérias já esta instalada em nosso país quase como um caso histórico. Mas agora tudo veio à tona. O que antes era diluído numa sociedade, midiática e aparentemente saudável, se revelou como profunda constatação de vulnerabilidade global. Nossas estruturas foram colocadas em xeque; nosso modo “normal” de pensar o mundo está, paradigmaticamente, modificando-se. Nossa relação eclesial reflete a necessidade de repensar nossas iniciativas pastorais, quase que mantenedoras e sacramentalistas. Fomos convidados a voltar à nossa Igreja Doméstica e midiatizamos aquilo que era para ser profundamente místico. Não emito
aqui um parecer moral capaz de encaixar tais movimentos em adjetivos qualitativos. Quero, antes de tudo, convidar à reflexão à luz de nossa Mãe Santa Clara.

Tomás Halík, em seu texto “O sinal das igrejas vazias”, nos convida a “compreender a linguagem de Deus, nos eventos do nosso mundo” (HALÍK, 2020, p.8) e isso “exige a arte do discernimento espiritual, que, por sua vez, exige um desapego contemplativo das nossas emoções e dos nossos preconceitos cada vez mais fortes, bem como a projeção que damos aos nossos medos e desejos” (HALÍK, 2020, p.8). Somos convidados a olhar para a situação do nosso mundo a partir da ótica de nossa espiritualidade. Quer no modo de relacionarmo-nos com as pessoas ou com o meio ambiente, devemos nos deixar questionar, saudavelmente, pelas coisas que presenciamos. Como Franciscanos e Franciscanas precisamos ser também Clarianos e Clarianas!

É verdade que, por muito tempo, Santa Clara ficou ofuscada, e quase que escondida, na luz
de Francisco. A “plantinha de Francisco” parecia não ter sua autonomia identitária e seu próprio campo epistemológico. Sua vida nos mostra que não é bem assim. Suas produções epistolares, sua Forma de Vida, seu Testamento e sua vida mística nos revelam uma mulher de força e sensibilidade, capaz de revelar traços fundamentais para compreender nossa espiritualidade. A contemplação a partir da metáfora do espelho (cf. 4CtIn 19-23) deve nos convidar à perfeita experiência mística, capaz de tornar-se assemelhação a Cristo. Este tempo de pandemia deve ser tempo kairológico para cada um e cada uma da grande Família Franciscana.

Na celebração solene de nossa Mãe Santa Clara, somos convidados a olhar o mundo com os olhos do Cristo, pobre e crucificado, que morre e necessita de auxílio, cuidados e anseia por uma fraternidade real. Fico feliz por ver tantas iniciativas solidárias que nossa Família tem desenvolvido nesses tempos de sombras e mortes. Também nós, em Minas Gerais, somos convocados a somar com as diversas iniciativas e dar ao mundo o nosso mais precioso testemunho: a Fraternidade. “E amando-vos umas às outras com a caridade de Cristo, demonstrai fora, por meio das boas obras, o amor que tendes dentro” (TestC 59).
Que tal celebração não seja somente marcada pela saudade de nos unirmos nas mais diversas Fraternidades espalhadas pelas nossas Minas e pelas Gerais, mas seja oportunidade de elevarmos nossas preces e louvores pedindo ao Divino Espírito, que moveu Clara e Francisco, que também nos mova em direção às periferias, geográficas e existenciais, de tantas “Assis” em que se inserem nossas Fraternidades. A partir das diversas ruínas que se apresentam a nós, cotidianamente, é preciso reconstruir a casa do Senhor, como Francisco, e habitar em sua companhia, como Clara.

De maneira especial, nesta data solene, quero felicitar as nossas Irmãs Clarissas por
manterem, viva e claramente, o testemunho e a herança espiritual de nossa Mãe. Que, como Família, jamais nos separemos, como aquele amor e fidelidade que teve Francisco no cuidado com Clara e suas irmãs. Felicito de maneira cordial as Irmãs Clarissas do Mosteiro de Santa Clara em Belo Horizonte, pela celebração jubilar de 70 anos desde a fundação desse mosteiro entre as serras do Curral del Rei e que, mais do que presença orante, é presença materna.

Por fim, gostaria de anunciar que as atividades previstas para esse ano estão sendo
repensadas a partir de outras modalidades e as datas serão divulgadas em tempo hábil para participação. A Missão Franciscana que realizamos todos os anos será proposta em uma modalidade de partilha online das experiências missionárias que várias frentes estão realizando nesse tempo e conjuntura e se desdobrará em iniciativas práticas de colaboração. O encontro do Espírito de Assis, que marca a celebração da expansão da fraternidade, também será reproposto. Além disso, endossamos e colaboramos nas várias outras iniciativas que vem surgindo na nossa Família Franciscana mineira. Acompanhem os comunicados da JUFRA de Minas, da OFS Regional Sudeste I e das diversas Ordens e Congregações. Além disso, contem com o apoio e a parceria da coordenação regional para tais atividades; vamos fazer fraternidade inclusive virtualmente.

Pela coordenação regional,

O Senhor te abençoe e te proteja
faça resplandecer sobre a ti a sua face
e te dê a sua misericórdia.
Volte para ti o seu olhar
e te dê a paz.
Derrame sobre ti as suas
bênçãos e no céu te coloque
entre os seus Santos e Santas.
O Senhor esteja sempre contigo
e que tu estejas sempre com Ele.

Frei Glaicon G. Rosa, OFMCap

Família Franciscana de Minas Gerais

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