Carta pela Celebração do Natal

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“Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi posto no presépio” (Lc 2, 12). “Admirável humildade, estupenda pobreza! O Rei dos anjos, o Senhor do céu e da terra” (Mt 11, 25) “repousa numa manjedoura” (4In 19).

 

Brasília, 22 de dezembro de 2020
4ª Semana do Advento

 

Queridas Irmãs e Irmãos da Conferência da Família Franciscana do Brasil,
O Senhor conceda-lhes a paz!

Natal, tempo de esperança e luz: envolto em panos, o Rei repousa numa manjedoura. A cena do Presépio nos remete à situação presente no país e no mundo: milhares de famílias pobres sem teto e pão, a procura de um abrigo seguro para viver. Desde o início de sua história, a vida do Senhor do céu e da terra traz a marca da simplicidade, do despojamento e do acolhimento: a estrebaria, espaço onde Maria e José encontram abrigo; a manjedoura, onde foi posta a criança e, as primeiras pessoas que O visitam, os pastores e homens do campo, que não são socialmente as mais visíveis. Humildade, pequenez, ternura, estupenda pobreza e amor são palavras que nos ajudam a entender a celebração do Natal e refletir sobre como podemos viver e testemunhar a lição do Presépio em nossas vidas, na realidade onde estamos inseridos.

Voltemos o olhar para o Natal, este incrível acontecimento da Encarnação de Jesus Cristo; ao amor com que Ele, naquela noite, assumiu a nossa fragilidade humana. Ele nos mostra a forma como Deus quis entrar na nossa história: na pobreza, simplicidade, anônimo e escondido (RSC 2,24; LM 10,7). O Presépio, segundo o teólogo Leonardo Boff, nos traz a certeza de que “Ele está entre nós, habita e se esconde na simplicidade” e que, “quem está longe dos pobres, por mais piedoso que seja, está longe de Cristo”.

Celebrar o Natal é fazer memória do amor incondicional e misericordioso de Deus, expresso não através do poder e potência, mas da humildade de um Deus que se fez pequeno e veio habitar entre nós. Tomás de Celano, em uma bela narrativa, conta-nos que o seráfico pai Francisco “Celebrava com inefável alegria, mais do que as outras solenidades, o Natal do Menino Jesus, afirmando que é a festa das festas, em que Deus, tornando-se criança pequenina, dependeu de peitos humanos” (2Cel, 199). Celebrar esta solenidade é também uma possibilidade para refletirmos sobre nosso compromisso com os mais pobres, pois o Natal nos recorda que a mesma situação vivida pelo Rei dos anjos em Belém continua em nossos dias. Por causa da injustiça, há exclusão e muitas famílias pobres sem teto clamam por um pedaço de pão.

Que o Menino Jesus nos ilumine e abra nossos olhos para que possamos reconhecê-Lo e contemplá-Lo no rosto de nossos irmãos e irmãs que sofrem e desejam uma vida digna, mais humana. Dentro de nosso mundo tão conturbado e marcado pela injustiça, possa ecoar em nós os belos versos do poeta português Fernando Pessoa:

“Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o Divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda certeza
Que Ele é o Menino Jesus verdadeiro
E a criança tão humana que é divina.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo, que nunca pensamos um no outro.
Mas vivemos juntos os dois com um acordo íntimo,
Como a mão direita e a esquerda.

Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, a mais pequena.
Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro de tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano e deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar até que nasça
Qualquer dia que tu sabes qual é”.

Irmãs e Irmãos, prestemos atenção ao princípio do espelho e nele inteiro contemplemos a graça de Deus (cf. 4In, 15). Admirável humildade, estupenda pobreza! Imensa alegria! A Eterna Criança, o Deus que faltava, está entre nós.

Em Francisco e Clara de Assis, fraterno abraço com o desejo de um Feliz Natal e abençoado 2021.

 

Irmã Cleusa Aparecida Neves, CFA
Presidente da Conferência da Família Franciscana do Brasil


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