Ecumenismo, a difícil arte do diálogo entre os cristãos. Entrevista com Volney Berkenbrock, OFM

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Com a proximidade da Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC), que ocorrerá de 12 a 19 de maio sob o tema “Amarás a Deus e a pessoa próxima como a ti mesmo” (cf Lc 10,27), buscamos entender mais sobre a importância do diálogo ecumênico e a busca pela boa convivência entre diferentes denominações cristãs. Para isso, entrevistamos o autor do livro “Ecumenismo – A difícil arte do diálogo entre os cristãos“, Volney J. Berkenbrock.

Com uma vasta experiência acadêmica e um profundo conhecimento sobre o assunto, Volney compartilhou suas reflexões sobre os desafios e as oportunidades para promover um diálogo construtivo entre fiéis de diferentes Igrejas cristãs.

Volney J. Berkenbrock é catarinense de Forquilhinha e doutor em Teologia pela Universidade de Bonn, Alemanha. De 1998 a 2018, foi professor e pesquisador do Departamento de Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, atuando, sobretudo, nas temáticas de História das Religiões e Diálogo Inter-religioso. É professor do Instituto Teológico Franciscano em Petrópolis, RJ.

Confira, a seguir, a entrevista.

1. O que o levou a escrever um livro sobre ecumenismo?

A temática do diálogo entre diferentes compreensões religiosas sempre foi um foco de pesquisa e interesse, tanto pessoal quanto para as aulas. Há, por um lado, o fenômeno interessante ao longo da história, de que os diversos sistemas religiosos se influenciam mutuamente, onde tanto compreensões religiosas, como costumes de alguma religião acabam sendo absorvidos também por outras. Trata-se da convergência entre as religiões. Mas há, por outro lado, o fenômeno da negação, do distanciamento e da rivalidade – quando não até inimizade – entre fiéis de diferentes compreensões religiosas. E isto está presente entre os cristãos: é muito comum que haja dificuldade de convivência entre cristãos por conta da diferença confessional. O livro nasceu especialmente da busca por entender os motivos pelos quais os cristãos de diversas denominações ou Igrejas têm tanta dificuldade de convivência e de diálogo e quais os caminhos de aproximação estão sendo construídos. É um grande paradoxo para o Cristianismo, o fato de que o amor a Deus, ao próximo e a si mesmo estejam no centro da mensagem religiosa de Jesus Cristo, mas que quando se trata da relação entre fiéis de diversas Igrejas, cristãos achem normal não praticar o amor ao próximo. Pelo contrário, achem normal que se combata os cristãos de denominação diferente. Se, por um lado, o livro levanta a história das divisões entre os cristãos, os seus motivos e fundamentações, por outro lado há também a preocupação em refletir e demonstrar que existe a realidade do diálogo, da busca pela convivência. Muitas são as possibilidades e ocasiões para isto: o livro dá um destaque a esta busca.

2. Em muitas igrejas, ecumenismo ainda é um tabu, algo a ser evitado com todas as forças. Como avalia isso?

Este é, de fato, um primeiro grande desafio para o ecumenismo: muitos cristãos imaginam que dialogar ou conviver com membros de outras Igrejas seja algo errado ou perigoso. E, por isso, este contato deve ser evitado. Há um grande desconhecimento histórico a respeito do ecumenismo, onde por vezes ele é entendido como a busca por querer fazer uma só Igreja ou a criação de uma super-Igreja acima de todas ou a busca por querer converter cristãos de outras Igrejas. Às vezes se entende que o ecumenismo vai misturar as Igrejas, criando confusão ou então que o ecumenismo irá colocar em risco a minha Igreja. Há, assim, aqui, um grande desafio que é o de fazer o ecumenismo ser conhecido pelo que ele é: a busca pelo diálogo e pela melhor convivência entre os cristãos de diversas denominações. O ecumenismo não é o projeto de uma Igreja, nem um plano pré-determinado. Ele é um movimento, um ideal, uma busca.

3. Nas igrejas históricas, apesar do ecumenismo ser melhor recebido, ainda assim ele é desafiador. Na sua opinião, por qual razão “dialogar com outros cristãos” é tem sido tão difícil.

No Evangelho de João (13,35) temos a seguinte afirmação de Jesus: “Todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. Quando se observa, entretanto, a relação entre os cristãos de diferentes Igrejas, não há como negar que há muita maledicência, concorrência, inimizade, desconfiança. Frente à mensagem de Jesus, esta situação não é apenas um desserviço ao Evangelho, como é um verdadeiro escândalo. Como podem os cristãos ter chegado a esta situação vergonhosa? No início do século XX nasceu o movimento ecumênico, justamente com o objetivo de reverter este contra-testemunho. Passados um pouco mais de 100 anos, há um número bom de Igrejas, principalmente as chamadas históricas, que assumiram este ideal e desafio de promover o diálogo entre os cristãos. Mas, mesmo assim, muitos cristãos ainda veem o ecumenismo como algo estranho ou até errôneo, quando, na verdade, estranho e errôneo é o modo como muitos cristãos se tratam, como inimigos. Que fique claro, que a partir do Evangelho, nada – absolutamente nada – pode justificar estas atitudes de rivalidade entre os cristãos. Como explicar então a dificuldade em dialogar? Creio que as razões estão ligadas pelo menos a dois motivos. Um é o motivo histórico: nós cristãos passamos séculos convencidos de que os fieis cristãos de outras Igrejas não eram nossos irmãos/irmãs na fé; que eram hereges. E esta posição foi fundamentada, argumentada, ensinada, tornando-se quase que parte da identidade de muitas Igrejas. Não é fácil mudar a história de uma hora para a outra. Será necessário um longo tempo e um grande esforço na contramão do que vinha sendo feito. O segundo motivo é que – infelizmente – esta atitude de desconfiança e divisão é ainda recorrente em nossos dias. Boa parte dos cristãos cresceu ouvindo falar mal de membros de outras Igrejas, ouvindo que se deve ter cuidado no contato com os outros, ou seja, fomos socializados com pensamento e comportamento anti-ecumênicos. Isto impregna a linguagem e as atitudes. Assim, a tarefa das Igrejas dispostas a apoiar o diálogo ecumênico é fundamental na reversão deste equívoco.

4. A gente monitora alguns movimentos fundamentalistas que demonizam tudo que tem relação com o ecumenismo. Do ponto de vista bíblico, como poderíamos responder a esses ataques?

Estamos vivendo mundialmente um fenômeno denominado fundamentalismo. Ele tem facetas muito diversas: tem seu lado religioso, mas também tem seu lado político, seu lado social, seu lado de costumes (moralismo), sua vertente econômica, etc. Um dos elementos que caracteriza o fundamentalismo é a ideia (ou o convencimento) de que são portadores únicos da verdade e, assim sendo, é preciso combater tudo o que é diferente, justamente por ser portador da inverdade. No âmbito religioso, o fenômeno do fundamentalismo – presente em muitas religiões, não apenas no cristianismo – é caracterizado especialmente pelo exclusivismo e o salvacionismo. O exclusivismo é a convicção de que somente a interpretação própria deste grupo específico é a verdadeira do ponto de vista doutrinal. Toda e qualquer outra interpretação é vista como degeneração, que representa um perigo para a “verdadeira religião”. Disto advém muitas vezes a demonização de outras compreensões. Daí decorre geralmente uma atitude salvacionista: convencidos de serem portadores únicos da verdade, é preciso combater as outras interpretações, dado que irão levar as pessoas à perdição, ao inferno. Assim, membros destes grupos fundamentalistas se sentem portadores únicos do caminho da salvação. No caso de grupos cristãos fundamentalistas – de matizes diversos – é muito comum que se utilizem da Bíblia para fundamentar seus convencimentos. São pinçadas frases bíblicas daqui e dali, dando a aparência de que “a Bíblia diz”, “a Bíblia é contra” ou seja, de que estas afirmações são o todo da Bíblia, quando na verdade são apenas um recorte para embasar alguma posição particular. Por isso, é muito comum que grupos cristãos fundamentalistas se apresentem e se entendam como “baseados na Bíblia”. A Bíblia, entretanto, é marcadamente plural. O texto bíblico, como o temos hoje, é fruto de um longo processo de acolhimento da diversidade. Apenas alguns exemplos: a palavra Bíblia quer dizer livros, ou seja, o nome já é plural; os textos do chamado Antigo Testamento recolhem tradições muito diversas de culto: o sacrifício de animais, o culto no alto da montanha, a oferenda de frutos da terra; a própria narrativa da criação do ser humano acolhe duas tradições (Gn 1,26-30 e Gn 2,8-25); a coletânea de Salmos recolhe orações de origens diversas, inclusive egípcia e cananeia; no Novo Testamento foram acolhidos quatro Evangelhos, cada qual com sua peculiaridade; Paulo, o grande impulsionador do Cristianismo inicial, afirma que diversidade é proveniente do próprio Espírito divino (1Cor 12,4-11). Destarte, utilizar-se da Bíblia de maneira fundamentalista é anti-bíblico.

5. O que tem faltado, no Brasil e no mundo, um testemunho ecumênico “para que todos sejam um”?

Se podemos observar o crescimento de fundamentalismos no mundo, cresce também a consciência da necessidade de se entender que “somos um”. Esta consciência se dá em níveis distintos: do ponto de vista individual, cresce por exemplo a consciência da necessidade de um “projeto de vida” que una os esforços da pessoa e traga maior clareza em sua trajetória; do ponto de vista amplo, fala-se hoje na importância de entendermos nosso planeta como uma casa comum, onde co-habitamos e a vida (em suas múltiplas formas) só é possível na convivência da diversidade. O mundo cristão já deu, ao longo da história, muitos exemplos de desunião, de destruição, de divergência. Mas, ao mesmo tempo, a compreensão teológica cristã de que tudo e todos são criaturas do mesmo Deus, é uma semente de esperança, a sempre nos convocar para o ideal de sentimo-nos como irmãs e irmãos com o todo.

6. Gostaria de acrescentar algo?

O movimento ecumênico, em sua história de pouco mais de 100 anos, teve na busca pela unidade o seu mote e esforço central. Ao mesmo tempo, justamente a compreensão de unidade é um grande dilema para o ecumenismo. Em minhas reflexões, proponho quatro paradigmas ou deslocamentos que julgo serem importantes para se atualizar o ideal ecumênico: a) Da preocupação ecumênica com a unidade institucional à acolhida da pluralidade eclesial; b) Do esforço pela unidade à busca pela convivência; c) Da questão confessional à questão do discipulado; d) Do ecumenismo como organização ao ecumenismo como vivência cotidiana. A meu modo de ver, estes deslocamentos são importantes para a consciência ecumênica.

SERVIÇO

O livro Ecumenismo – A difícil arte do diálogo entre os cristãos pode ser encontrado em www.livrariavozes.com.br.

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