Espiritualidade e religiosidade recursos eficazes no enfrentamento da covid-19

159

Neste tempo pandêmico da COVID-19 as questões humanas existenciais foram acordadas com uma música de amedrontadora impotência e solidão, que privou o toque, o abraço, o contato, a presença, o outro, gerando emoções excessivas e persistentes de tristeza, raiva, culpa, pânico, medo, insegurança que paralisaram o movimento da humanidade.
O desconhecido vírus chegou pelo conhecido outro, e com ele a verdade ontológica das impotências e fragilidades humanas, favorecendo conflitos pessoais e coletivos, principalmente àqueles que envolvem poder, controle, dependência e vulnerabilidade.

Parece que os sentimentos de impotência e confusão foram reascendidos na humanidade por um vertiginoso e invisível “inimigo”, que encontrou um terreno fértil de niilismo e individualismo, possibilitando vertiginosamente a sua disseminação.

A realidade pandêmica da covid-19 atualiza o poema “José” de Carlos Drummond de Andrade (1942) quando este descreveu os sentimentos de solidão e abandono, a sua falta de esperança e a sensação de que está perdido na vida, sem saber que caminho tomar.

“E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você?” (Andrade, 2012).

Nutrir as Relações Humanas

A gravidade da eclosão da pandemia da covid-19 estabeleceu um paradoxo, o choque pandêmico inesperado e violento paralisou inúmeros setores da sociedade e, consequentemente, grande parte das pessoas, contudo, por motivo de sobrevivência, gerou um movimento de ruptura nas antigas estruturas e dinâmicas pessoais e sociais, convencionadamente institucionalizada e cristalizadas nos pilares do individualismo e relativismo, urgindo reconstruir diferentes estilos de vida e formas humanas de relacionar.

Na escola do desconhecido vírus que assola a humanidade, as pessoas apreenderam a estar mais próximas em torno de um problema comum: buscar compreender, aceitar, adaptar, valorizar e criar diferentes soluções em manter e promover a vida ameaçada. O vírus nos uniu, mesmo com a resistência de alguns em negar, desqualificar, reduzir a gravidade da pandemia, ou mesmo com o estado catatônico de pânico e estresses acentuado de outros.

Nunca ficou tão nítido que somos um todo com todos, afinal somos imagem e semelhança de Deus, constituído de transcendência e relação, que favorece o humano. Desencantados fomos desafiados e provocados a “tocar com as mãos” aquilo que está diante de nós, a fragilidade humana e a necessidade de um eu no outro e o outro em mim, uma dança, nem sempre harmoniosa, mas que pode ultrapassar conceitos e ideologias fragmentadas, materiais e fenomênicas, que pareciam tão sólidas e inabaláveis.

A experiência de fragilidade e impotência gerada pela pandemia, obrigou a humanidade a investigar a ilusória onipotência e divindade humanas, outrora cristalizada e alimentada pela sociedade do lucro, gerando desespero. E ainda mais, arrastou a pessoa humana a deparar-se com a ausência ou timidez dos atributos existenciais e originários da natureza humana, como: a beleza, a unicidade, a veracidade, o desejo do infinito e outros. Tributos que existem em potência, para além da cultura, mas que estavam ofuscados por exigências sociais, econômicas e políticas de um sistema “caduco”, de fato, as humanidades refloresceram.

Supreendentemente em diferentes vozes, compôs-se um coral, para cantar uma música com estrofes de humanidades e de um refrão desenhado no caminho obnubilado de incertezas, inseguranças e falta de liberdade na urgência inevitável da vida.

A flor mais bela que nasceu nesse ardiloso e pedregoso terreno da COVID-19. O incrível e escandaloso movimento de fé, esperança, solidariedade e compaixão nas relações humanas, que ultrapassaram os muros da religião, etnia, idioma, orientação sexual ou camada social (Barros, 2020).

Espiritualidade/Religiosidade (E/R) Companhias que renovam a esperança e fortalecem a unidade

Uma grande companhia que pode renovar a esperança e fortalecer a unidade entre as pessoas, em tempos de pandemia, é a espiritualidade e a religiosidade (E/R).

A E/R estão relacionadas com valores e significados, uma construção sustentada pela transcendência. Elas implicam uma referência ao sentido na busca de uma ligação e experiência com o transcendente, não necessariamente de um ser sagrado, supremo (Giovanetti, 2005), uma busca pessoal de sentido para o próprio existir e agir, do porquê último da vida (Valle, 2013).

Ao mesmo tempo em que se trata de realidades distintas, elas podem se encontram e são complementares porque “se a espiritualidade me faz buscar o sentido para a minha vida, no encontro com a religiosidade, esta busca abarcar também o além da vida, o último” (Paiva et al., 2012, p. 74). A E/R entendidas como uma dimensão fundamental do ser humano estão integradas, interligadas e interelacionadas nos seus diferentes elementos (Freitas & Rey, 2016).

A companhia da E/R favorece o enfrentamento da crise sanitária da covid-19 pela sua capacidade em ultrapassar a própria realidade pandêmica para realizar uma tarefa que dê sentido à vida, que dá forma a uma situação específica, em viver suas aptidões, emoções e vontade com sentido. Em porem-se à serviço de uma tarefa, dentro de uma circunstância determinada que exija engajamento, uma vontade de sentido que orienta o ser humano a um para quê, que pode ser sempre encontrado, em qualquer situação, mesmo no sofrimento (Carrara, 2016).

A E/R com um dinamismo interno projetado no externo, têm um papel significativo nos períodos e situações de fragilidades e sofrimentos humanos e sociais. Elas influenciam, quando não condicionam, ou mesmo determinam, a maneira como as pessoas construíram e constroem suas vidas e relações em tempo de expansão da COVID-19, a esperança que nutri a luta pela sobrevivência, o poder da resiliência diante da doença, a reflexão sobre a significação e ressignificação da realidade pandêmica, o processamento da notícia de testagem positiva do novo corona vírus e a disposição dos meios internos para esse enfrentamento, a reaproximação de culturas, crenças e das pessoas na busca de solucionar um único problema (Tavares, 2020).

Nesse tempo inesperado de pandemia da COVID-19 com os seus contornos e limites na existência humana, a E/R por integrar várias dimensões do cuidado e da saúde podem ser uma companhia eficaz e eficiente, porque não, sadia e saudável, na convivência e cuidado da pessoa no contexto da saúde, pois possibilita, recursos no enfrentamento de crises como: a atenção e valorização da pessoa, o fortalecimento e a superação de vícios, a cooperação mútua, a liberdade e o estabelecer fronteiras na concordância aos limites, a alteridade, a resignação, a esperança e tantos outros. Tanto que favorece a saúde que em 22/01/1998, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu a dimensão espiritual no conceito muldimensional de saúde.

Por ser “uma maneira de encarar a vida” (Lukas, 1990, p. 15) a companhia da E/R também pode ser um fator risco quando não colabora para com a qualidade de vida das pessoas e relações, a transcendência e o bem-estar.

Diante da provocação da realidade pandêmica, a E/R pode ser uma companhia que nos impulsiona a seguir, sem nos distrair, ou deixar-nos levar por qualquer “solução”, proposta, explicação, a fim de distrair-nos da provocação de vivermos intensamente esse tempo de grande aprendizagem e oportunidades, ou mesmo em esvaziar o acontecimento que nos alcançou, reduzindo-o a um âmbito de relações que nos proteja do impacto das coisas, no esforço de manter o velho estilo de vida que não nos cabe mais, ou ainda, que nos poupe do desafio das circunstâncias de renascer pessoas mais humanas e ter o desafio de reconstruir uma sociedade solidária e justa, impelindo-nos a viver com dignidade humana (Carrón, 2020).

A E/R é capaz, por si mesma, em dar contorno e sentido a realidade específica da pandemia do novo coronavírus, porque é uma companhia fruto de um encontro sincero com um outro que transcende a realidade. Ela como companhia abre-se a rota do caminho interior na pessoa humana consigo mesma, e ainda, favorece o sistema colaborativo que gera outras companhias que nos ancoram diante das borrascas e não nos deixam suspensos e nem nos arrastam para o caos humano e social da confusão perante qualquer imprevisto ou apuro novo.

A realidade pandêmica da COVID-19 é desafiante, mas favorece singulares possibilidades em nosso tempo, que pode gerar um tempo novo que pode reflorescer humanidades e sociabilidades por meio das ações nobres de solidariedade (Porreca,2020).

A companhia da E/R é um recurso necessário e fecundo no enfrentamento desta crise sanitária, pois colabora para que o ilusório sistema da onipotência e prepotência humanas cedam lugar para a humanização por meio da colaboração e partilha. Talvez ela será mais necessária ainda, quando a pandemia da COVID-19 passar, porque a realidade a ser vivida, não será a vida, mas o “para quê” viver.


Referências

Andrade, C. D. (2012). José. Editora Companhia das Letras.

Barros, F. B. (2020). Sobre dor, sofrimento e esperança: O novo coronavírus e a condição humana no Antropoceno. Ethnoscientia,5,(1). Disponível em: http://www.ethnoscientia.com/index.php/revista/article/viewFile/290/113
Carrara, P. S. (2016). Espiritualidade e saúde na logoterapia de Victor Frankl. Interações: Cultura e Comunidade, 11(20), 66-84.

Carrón, J. (2020). Carta ao movimento Comunhão e Libertação. Disponível em: https://por.clonline.org/cm-files/2020/03/13/jc-lettera-frat-coronavirus-120320-por.pdf
Giovanetti, J. P. (2005). Psicologia existencial e espiritualidade. In: Amatuzzi, Mauro
Martins (Org.). Psicologia e espiritualidade. São Paulo, Paulus.

Lukas, E. (1990). Mentalização e saúde. Petrópolis: Vozes.
Freitas, M. H.; Rey, V. P. (2017). Leitura Fenomenológica da Religiosidade: Implicações para o Psicodiagnóstico e para a Práxis Clínica Psicológica. Revista da Abordagem Gestáltica: Phenomenological Studies, vol. XXIII, n. 1, jan-abri, 95-107.

Paiva, G. J. et al. (2012). Psicologia da religião no Brasil: a produção em periódicos e livros. Psicologia: teoria e pesquisa, Brasília, DF, v. 25, 441-446.
Porreca, W. (2020). A solidariedade em tempo de covid-19. In: Caleidoscópio – Humanidades/UNB.
Tavares, C. Q. (2020). Dimensões do cuidado na perspectiva da espiritualidade durante a pandemia pelo novo coronavírus (COVID-19). Journal Health Npeps, 5(1), 1-4.
Valle, E. (2013). Introdução à Parte II. In: Passos, João Décio & Usarski, Frank (Orgs.). Compêndio de ciência da religião. São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013.

Fonte: Vatican News

DEIXE UM COMENTÁRIO

Deixe seu comentário
Coloque seu nome aqui