Experiência Missionária na Leprosaria São José

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Experiência Missionária na Leprosaria São José

“Os pequeninos/as continuam pedindo pão e ainda falta quem o distribua (cf Lm 4,4b)

A comunidade São José, na cidade de Kuito/Bié, em Angola, acolhe, há muitos anos, um grupo de hansenianos. Alguns são antigos e há sempre novas chegadas. A maioria destas pessoas não tem condições de trabalho e auto-sustento, tendo em conta as limitações físicas causadas pela hanseníase. O governo, através do MINARS (Ministério da Assistência e Reinserção Social), lhes oferece uma ajuda possível, porém, a maioria vive de esmolas.

Nossa chegada aqui no Kuito foi no dia 04 de junho de 1999. O objetivo da vinda era de dar aulas na escola dos irmãos Maristas, pois, tendo em conta o contexto de guerra, não havia professores suficientes. Mas, em 2003, sensibilizadas com a situação de fome e abandono dos doentes da leprosaria São José, passamos a ser presença através de visitas e ajuda material.

Em maio de 2018, a irmã Maria das Graças Vieira fez um projeto ao governador, para reformar a casa que era um antigo posto de saúde na comunidade São José, com o intuito de morar junto aos nossos irmãos e irmãs leprosos/as, conviver ao lado dos que ninguém quer estar. O desejo era não só ir lá fazer visita, levar comida, mas sim ser presença viva, amorosa, de Deus no meio do seu povo. E assim aconteceu! Em dezembro de 2018, a irmã Mayara Arguello veio somar na sororidade e, por ser enfermeira, contribuiu muito na recuperação da saúde dos leprosos através do exercício de sua profissão.

Me chamou muita atenção no tempo da pandemia da Covid-19, onde a preocupação de todos/as era a proteção e cuidado: ficar em casa, o uso de álcool gel e uso de máscaras. Mas eles não tinham como ficar em casa, porque, se ficassem, o que iriam comer à noite? Como comprar máscaras e álcool gel, se não tem dinheiro nem para comprar comida? Sentimos que eles, devido à suas situação de saúde, não tinham condições de se proteger como os outros, que podem trabalhar e conseguir o sustento. Foi necessário pensar e buscar alternativas para que pudessem ter uma mínima proteção e condições de sobrevivência. Assim, a irmã Maria das Graças começou a costurar máscaras para eles e percebemos a alegria expressada no rosto de cada um. Foi um momento desafiador, tenebroso e difícil! Como transformar esta realidade e oferecer pelo menos a mínima proteção e defender seus direitos como seres humanos?

Em fevereiro de 2022, por questões de saúde, a irmã Maria das Graças retornou ao Brasil. Desde então, eu passei a acompanhar mais de perto a comunidade e conviver com eles. Mesmo sem ter experiência para dar continuidade a este projeto (desenvolvido com a contribuição financeira de entidades internacionais), eu disse sim, mas no coração tinha muito medo, insegurança e perguntava a mim mesma: Marlene você vai conseguir? Com programação do juniorato, formação das jovens aspirantes que vivem conosco, ritmo da sororidade, da universidade e mais comunidade para atender? Mas, ao mesmo tempo, sentia uma força dentro de mim e rezava essa passagem bíblica: “vá e não tenha medo, eu falarei por você”. Não vim para trabalhar com leprosos, fazer assistencialismo, mas sim para conviver com eles, dar voz e vez, escutar suas lutas, dores, sonhos e conquistas. É uma experiência muito gratificante porque tento dar o melhor de mim e sinto que estou como aprendiz junto deles. Neles contemplo o rosto de Jesus amoroso, ferido e necessitado. Como Francisco posso dizer: “o que antes era amargo, tornou-se doçura da alma e do corpo”.

Sinto que é uma missão assumida com carinho pela sororidade, como preferência para com os mais abandonados, os colocados fora da cidade. Pela necessidade do grupo, pela fome e devido à medicação que é forte, precisam se alimentar adequadamente. O projeto que citamos anteriormente, tem ajudado muito! Com ele, conseguimos ajudar a suprir a necessidade de medicamentos para hanseníase, assim como para malária, febre tifoide e pneumonia. Uma vez por mês, com o mesmo projeto, conseguimos fazer entrega de uma cesta básica por família.

Nesta experiência, buscamos também incluir as jovens formandas na visita às famílias, encontro com as crianças, adolescentes e jovens, incentivando e buscando formas e meios para a inclusão destes na escola. Durante encontro e visitas às famílias, fomos percebendo que não são apenas os filhos dos leprosos estão fora do sistema escolar, mas também a comunidade que vive ao redor da leprosaria. Muitas crianças têm o compromisso de acompanhar adultos para pedir esmolas e outras não frequentam a escola porque não tem documentação. Buscando atender esta situação, entramos com um pedido de apoio junto às autoridades governamentais, para visitar e criar uma campanha de registros e tratar documentos aos que não tem, assim como também construir mais uma escola na comunidade São José. Confiantes na esperança e na palavra positiva, continuamos aguardando.

Para mim, estas iniciativas e novas experiências só estão sendo possíveis pela vivência em sororidade, pelo diálogo, partilha e ajuda mútua, saber que posso partilhar meus dons, contar com as minhas irmãs e juntas podemos viver o amor à missão.

Hoje, contemplo isso com gratidão a Deus pelo chamado à vida religiosa consagrada, pela partilha com as junioristas, colegas de caminhada. É muito bom, gostoso ter irmãs que caminham comigo em todos os momentos. São muitas aprendizagens no cotidiano! Vida compartilhada, saboreada em comunhão! Essas vivências alimentam e fortalecem a minha decisão de prosseguir no seguimento de Jesus Cristo Pobre e Crucificado na Congregação das Irmãs Catequistas Franciscanas.

Fonte: cicaf.org.br/

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