Igreja, comunidade de amor

50

“A missão de Cristo e do Espírito Santo completa-se na Igreja, corpo de Cristo e templo do Espírito Santo. Esta missão conjunta associa, doravante, os fiéis de Cristo à sua comunhão com o Pai no Espírito Santo” (CIC 737). A Igreja, instituída por Jesus Cristo, é o redil, cuja única e necessária porta é o próprio Cristo, é o campo, a construção de Deus, a “Jerusalém do Alto”. Ela está na história, mas ao mesmo tempo transcende-a, é visível e espiritual, “sociedade dotada de órgãos hierárquicos e corpo místico de Cristo”, “agrupamento visível e comunidade espiritual”. Na Igreja, a “comunhão dos homens com Deus pela «caridade, que não passa jamais» (1 Cor 13, 8), é o fim que comanda tudo quanto nela é meio sacramental, ligado a este mundo que passa”. Neste sentido, o Papa Francisco reiterou no Angelus do último domingo que “o coração pulsante da Palavra de Deus (…), o que dá solidez à vida e nunca acabará”, é a caridade. E “quem faz o bem, investe para a eternidade (…), porque o bem nunca se perde, o bem permanece para sempre (…). A cena deste mundo passa. E só o amor permanecerá.” “Igreja, comunidade de amor” é o tema da reflexão do padre Gerson Schmidt*:

“A Igreja sempre apareceu na sua caminhada e construção como uma comunidade de amor. O essencial do mistério da Igreja é ser ela uma comunhão com o Pai, o Filho, no Espírito Santo, e ela viver em comunhão fraterna. O amor é o mistério mais profundo da Igreja. Jesus mesmo disse: “Nisso conhecereis que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). Ou seja, pelo amor nós revelamos que somos a Igreja de Cristo. O amor nos torna a verdadeira Igreja de Cristo. “A Igreja é comunidade de amor não apenas como associação de seus membros, mas por uma aliança decretada por Deus pelo amor de Deus que precede toda decisão humana”[1].

A Lumen Gentium, no número 8, aponta assim: “Cristo, mediador único, estabelece e continuamente sustenta sobre a terra, como um todo visível, a Sua santa Igreja, comunidade de fé, esperança e amor, por meio da qual difunde em todos a verdade e a graça” (LG, 8). Na comunidade, o amor adquire a feição de um mandamento. Não se trata apenas de amar-nos por zelo, por afeição, por companhia e por agrado. Na Igreja não nos amamos por querermos agradar uns aos outros, mas para cumprir uma ordem, um mando, um mandamento de Cristo Jesus, na perfeita liberdade e reciprocidade. Amamo-nos por obediência a uma ordem do Mestre: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

Em todas as circunstâncias, o direito, as estruturas e as leis devem estar a serviço da caridade e não o contrário. “O direito ordena a execução do amor e da caridade em situações importantes da comunidade. Quanto mais complicadas se tornarem as estruturas sociais, quanto mais o amor esfriar, quanto mais impessoal se tornar a prática da existência cristã, quanto mais se perder o caráter pessoal e descambar para a ação objetiva, tanto mais serão necessárias as diretivas jurídico-eclesiásticas”[2].

O Papa Francisco, na Carta Encíclica Fratelli Tutti aponta, no número 92, assim: “ A estatura espiritual duma vida humana é medida pelo amor, que constitui «o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade duma vida humana». Todavia há crentes que pensam que a sua grandeza está na imposição das suas ideologias aos outros, ou na defesa violenta da verdade, ou em grandes demonstrações de força.

Todos nós, crentes, devemos reconhecer isto: em primeiro lugar está o amor, o amor nunca deve ser colocado em risco, o maior perigo é não amar (cf. 1 Cor 13, 1-13).” O Papa comenta o valor único de amor, expressando ainda assim no número 93: “Procurando especificar em que consiste a experiência de amar, que Deus torna possível com a sua graça, São Tomás de Aquino explicava-a como um movimento que centra a atenção no outro «considerando-o como um só comigo mesmo». A atenção afetiva prestada ao outro provoca uma orientação que leva a procurar o seu bem gratuitamente. Tudo isto parte duma estima, duma apreciação que, em última análise, é o que está por detrás da palavra «caridade»: o ser amado é «caro» para mim, ou seja, é estimado como de grande valor. E «do amor, pelo qual uma pessoa me agrada, depende que lhe dê algo grátis».

O amor não é apenas um solidarismo ou assistencialismo, mas “o amor implica algo mais do que uma série de ações benéficas. As ações derivam duma união que propende cada vez mais para o outro, considerando-o precioso, digno, aprazível e bom, independentemente das aparências físicas ou morais. O amor ao outro por ser quem é, impele-nos a procurar o melhor para a sua vida. Só cultivando esta forma de nos relacionarmos é que tornaremos possível aquela amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos” (FT, 94).”

*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.

________________________________________________________________________

[1] SCHMAUS, Michael. A fé da Igreja, Volume IV, 2ª Edição, Vozes, Petrópolis, 1983, p.68.

[2] Idem, 69.

Fonte: Vatican News

DEIXE UM COMENTÁRIO

Deixe seu comentário
Coloque seu nome aqui