Mulheres na construção do Reino de Deus na Igreja e nas periferias do mundo

135

No dia em que é comemorado o Dia Internacional da Mulher, somos chamados a refletir sobre o papel das mulheres na sociedade e na Igreja. Olhar para o passado para poder analisar o presente e poder construir o futuro, um futuro melhor, sustentado em princípios que mostram aquilo que Deus quer.

Falar de mulheres nos leva a pensar em rostos concretos, que simbolizam lutas comuns, que ajudam a construir o Reino de Deus. A Igreja brasileira, a Igreja da Amazônia tem dado passos ao longo dos últimos anos, nem sempre para frente, mas mesmo aqueles que pontualmente representaram um retrocesso, a longo prazo, ajudaram a construir o futuro evitando cair nos erros do passado.

Laura, Joelma, Rosita, Roselei, são nomes atrás dos quais aparecem representadas as lutas de muitas mulheres para que a Igreja e a sociedade sejam cada mais imagem do Deus da Vida, sinal da Boa Notícia, do Evangelho, sinal do Reino de Deus. Elas são presença feminina no meio dos povos indígenas, no mundo da comunicação, entre os migrantes e refugiados, ao lado das vítimas do abuso e exploração sexual.

Fruto do seu trabalho como agente do Conselho Indigenista Missionário, a irmã Laura Vicuña Pereira Manso, tem dedicado os últimos anos a acompanhar a vida do povo Karipuna, no Estado de Rondônia. Ela, que também é indígena, foi escolhida como representante dos povos originários na Conferência Eclesial da Amazônia – CEAMA, onde “nós mulheres, temos muito a contribuir”, pois segundo a religiosa “nós somos chamadas a ser essa presença e essa voz de mulher na Conferência Eclesial da Amazônia”.

A religiosa catequista franciscana vê essa presença como “uma grande responsabilidade, pois estar presente numa instituição como esta, é uma responsabilidade no sentido de que a gente está levando a presença e a voz de muitas outras mulheres que habitam o território amazônico. São avós, mães, filhas e da Vida Consagrada, que estão presentes vivendo nesse imenso bioma, nessa imensa região amazônica”. Trata-se de “mulheres que lideram famílias e comunidades inteiras, que promovem a defesa da vida e que aspiram a um espaço também maior nos espaços da Igreja”.

A irmã Laura insiste em que “nós mulheres merecemos isso, precisamos agir, falar, e não devemos permanecer invisibilizadas nesses espaços”. Daí, ela espera “que isso nos ajude a abrir nossa mente, nosso coração, e estejamos abertas e abertos às transformações que estão ocorrendo no mundo e na Igreja”. Como indígena, destaca a importância da presença dos povos originários na CEAMA, como algo que pode “ajudar a oferecer uma visão de vida, de luta, das cosmovisões, a partir de dentro dos povos originários e das comunidades amazônicas”.

Estar na CEAMA é oportunidade para “fazer presente tudo aquilo que nos faz sofrer e que ameaça a vida das pessoas e desse bioma”, para “defender os seus territórios, defender a Amazônia, o ecossistema e os povos que aqui habitam, defender a nossa casa comum para que as gerações futuras possam ter vida”. Por isso insiste em que “a Igreja seja amiga e aliada dos povos da Amazônia e da Amazônia como um todo, para que dessa forma nos comprometamos com o cuidado da casa comum”.

Fazer comunicação na Amazônia é “um desafio muito grande, porque quando a gente pensa nessa região, ela é enorme, as distâncias são uma dificuldade que nós encontramos para poder chegar onde as coisas acontecem”. As palavras de Joelma Viana nos ajudam a descobrir que na comunicação amazônica, “a gente consegue estar mais próximo das pessoas, ouvindo, pisando o chão que eles pisam, compartilhando as suas vivências”, sempre na busca de uma comunicação diferenciada. A radialista insiste em que “quando a gente faz a comunicação a partir da Igreja, nessa região amazônica, a gente não só ouve, só para recolher os depoimentos. É necessário estar próximo, compartilhando esses momentos, vivenciando esses momentos, partilhando cada um desses momentos e aprendendo juntos”.

Na Amazônia, “essa comunicação acaba tendo um sentido muito maior, um sentido de comungar da vida do outro”, comungar com a vida dos povos da região. Esses desafios próprios da comunicação amazônica, aumentam quando ela é feita pelas mulheres, segundo Joelma Viana. Ela insiste em que o trabalho que é feito por mulheres, ele é diferente, pois as mulheres, “elas são sensíveis e conseguem fazer um acolhimento. E nós tentamos fazer isso, um acolhimento das pessoas que estão próximas da gente”.

Na Igreja da Amazônia, as mulheres que fazem comunicação ainda se deparam com “que muita gente não acredita no trabalho que é feito por mulheres” afirma Joelma. Ela que tem um papel destacado na Rede de Notícias da Amazônia, que desde Santarém, no Estado do Pará, engloba várias rádios católicas da região, afirma que “quando a gente olha o cenário da própria região e do próprio Brasil, a gente vai ter poucas mulheres à frente desse ramo dentro da Igreja. A gente vê mais homens no processo do que mulheres”. Diante disso, ela insiste na necessidade de ter maior presença das mulheres.

Nesse avanço, Joelma destaca a importância do Papa Francisco, que “a partir do Sínodo da Amazônia, e agora também do próximo sínodo, que tem mulheres sendo representadas, acaba fortalecendo ainda mais esse trabalho que a gente vem desenvolvendo nessa região, que é tão desafiadora, mas ao mesmo tempo é tão instigante”. Isso faz com que as mulheres, insiste a radialista, “nos sintamos o tempo todo motivadas a estar presente, a estar compartilhando aquilo que aprendemos no nosso dia a dia”.

As mulheres refugiadas, as mulheres migrantes, as mulheres apátridas, “elas são mulheres persistentes, são resilientes, são de uma devoção à sua vocação de mulher e mãe, que impressiona”. Quem assim fala é a irmã Rosita Milesi, alguém que dedica sua vida a cuidar daqueles e daquelas que a sociedade despreza e explora. Nessas mulheres, a religiosa scalabriniana vê a presença de alguém que supera “com esforço, com dedicação, com carinho, com amor imensurável, todas as dificuldades e todos os percalços para poder atender, com um mínimo de dignidade, em primeiro lugar a seus filhos, depois a se mesmas, buscando a sua reintegração, a sua retomada na construção dos caminhos que a migração lhes impõe”.

Esse trabalho, tem ajudado a diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos – IMDH, a vivenciar fatos concretos que ajudam a “expressar a minha convicção de quanto essas mulheres atuam, buscam e superam”. Ela conta o caso de uma mãe que está em cadeira de rodas, está temporariamente impossibilitada de locomover-se. “No entanto, ela passa a maior parte do dia buscando alternativas, buscando comida, movendo amigos e amigas para socorrer outras pessoas que estão em maior necessidade do que ela”, relata a religiosa.

São exemplos que nos impressionam segundo a irmã Rosita Milesi, mas que devem nos servir para que “nós, agentes humanitários, busquemos cada vez mais com convicção esta possibilidade, ou este recurso que temos em nossas mãos, de estarmos ao serviço, de fortalecermos a nossa missão e de atuarmos conforme o apelo do Papa Francisco, e de tantos líderes que nos inspiram neste momento, buscando acolher com carinho, promover, e dar chance, dar oportunidades, envolver estas mulheres para que elas possam colocar todas suas capacidades e talentos ao serviço dos demais, como elas sabem generosamente fazer”.

Aprender a valorizar e começar a entender o processo de luta pelas mulheres, é algo que a irmã Rose Bertoldo aprendeu desde muito pequena, no berço de casa, vendo sua mãe, que trabalhava com o movimento de mulheres campesinas, no Rio Grande do Sul. Ela lembra muito da sua mãe “quando ia para a rua, nas mobilizações em Porto Alegre, para reivindicar o salário maternidade e aposentadoria”. A religiosa insiste em que “as mulheres nunca ganharam nada de graça, mas sim a partir da luta organizada”. Ela diz que “sempre trabalhei, toda missão como mulher consagrada, a partir da vida das mulheres mais sofridas, mais empobrecidas, principalmente as meninas e as mulheres”, destacando sua história de “identificar esse trabalho de enfrentamento ao abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes e tráfico de pessoas”, que hoje assume como missão principal.

Como religiosa do Imaculado Coração de Maria, sua missão tem sido no “cuidado da vida, voltada mais a questão das violações de direito”. Ela afirma que, aos poucos, “como mulher consagrada, também fui me inserindo nesse movimento de construção de uma Igreja mais voltada para os mais empobrecidos, os mais vulneráveis. Aí está também a categoria das mulheres”. Seu trabalho na Rede um Grito pela Vida, “tem sido por essa sensibilidade de sentir a dor de tantas meninas mulheres”, vivenciando essa opção de trabalho de enfrentamento ao tráfico de pessoas, como “uma presença profética, enquanto Igreja, enquanto Vida Consagrada, enquanto missionária, nesse chão da Amazônia”.

Na Amazônia, onde mora há nove anos, ela vê que, sobretudo a partir do processo de preparação sinodal, está sendo construída “uma Igreja que caminha com o povo e também é parte do povo”, onde se fez possível “poder perceber mais essa presença das mulheres na vida da Igreja, na sociedade, e também perceber, a partir das vozes das mulheres, o tanto de dor, de sofrimento, que as mulheres da Pan-Amazônia têm sofrido”. A religiosa enfatiza que “a questão do abuso, da exploração sexual, do tráfico de pessoas, do feminicídio, são gritos imensos que a gente tem ouvido”. No seu trabalho na Rede um Grito pela Vida, ela percebe “o rosto de Jesus, a presença de Deus, o rosto sofrido na presença das mulheres que estão em situação de tráfico, em situação de abuso, em situação de exploração sexual”.

Rose Bertoldo afirma que sua missão é “poder ser essa presença, poder ajudar, contribuir para que essas mulheres saiam dessa situação de violência, reconstruam suas vidas, possam retomar também, porque cada mulher é única, cada menina é única, e cada mulher revela a imagem desse Deus cheio de ternura, cheio de amorosidade”. Por isso, “celebrar esse 8 de março é revigorar, rememorar toda essa história de luta das mulheres e aí continuar acreditando”, insiste a religiosa. Junto com isso, destaca a necessidade da formação de outras mulheres, “que possam contribuir nas mudanças, principalmente com relação à inclusão, de sermos uma presença ativa, efetiva, afetiva, nos espaços eclesiais, mas também em tantos outros espaços de luta, de construção da dignidade, não só das mulheres, mas de todas as pessoas”.

Fonte: Vatican News

DEIXE UM COMENTÁRIO

Deixe seu comentário
Coloque seu nome aqui