Natal: um Deus de carne

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No evangelho de Lucas apenas sete versículos falam do nascimento do Menino. A sobriedade, a extrema concisão destas poucas linhas respeitam a escolha de Deus: ele se torna homem, mesmo um menino, longe da sede do poder, no silêncio, entre os pobres, com a humilde liturgia de cada filho de homem que nasce e passa a depender dos outros.

O mesmo Deus que, no começo, havia feito o homem do pó da terra, se faz pó deste solo. O oleiro se torna argila de um minúsculo jarro, frágil e belíssimo.

Como acontece comigo de chorar, também ele aprenderá a chorar.

Como eu devo morrer, também ele conhecerá a morte.

No Natal, a Palavra é um Menino que não sabe falar. O Eterno é um recém-nascido com poucos momentos de vida. Um pequenino que seguramente não inspira medo: confia, só pode viver se alguém o amar e dele cuidar. Como todo e qualquer recém-nascido. Jesus viverá somente se for amado. Deus, mendigo de amor.

Prodígio ainda maior: Deus de carne. Palavra revolucionária: o impensável de Deus, a vertigem da história, a partir do qual se dividem os anos, antes e depois dele. Deus de carne.

A grande roda do mundo tinha sempre girado no mesmo sentido: do baixo para o alto, do pequeno para o grande, do fraco para o forte. Quando Jesus nasce, quando o Filho de Deus é gerado por uma mulher, por um momento, o movimento da história se interrompe e passa a se fazer no sentido oposto: o forte se torna servo de fraco, o eterno caminha por entre as idades do homem, o infinito cabe no fragmento.

No Natal tem fim a eterna viagem de Deus à procura do homem e começa, para o homem, a maior de todas as aventuras: tornar-se Verbo e Filho de Deus. “Se Cristo tivesse nascido mil vezes em Belém, sem nunca nascer em ti, teria então nascido em vão (A. Silesius). Destino de cada criatura é tornar-se sílaba de Deus, carne empapada do Céu.

Deus se fez homem para que o homem pudesse se fazer Deus. Nunca teríamos podido desejar maior aventura. Seu nascimento é, na verdade, êxtase da história, um novo marco do tempo em torno do qual giram séculos e dias.

O recenseamento

Lucas nos apresenta os fatos em seus detalhes e no contexto da história do mundo. O primeiro dado histórico que situa o nascimento de Jesus é um censo. Jesus nasce em Belém porque a grande máquina imperial pretende ter o controle de todos os habitantes, provavelmente para atualizar o cadastro das arrecadações. Há algo de ameaçador quando se dá um nascimento: tua vida serve para que eu alimente o caixa de um Estado ao tirar Maria, José e o Menino do anonimato.

Na profunda maldade desse mecanismo, quando o homem é reduzido a número e quantidade, precisamente nesse momento, dá-se o nascimento do homem novo. Quando o homem conta apenas como um número, quando sua dignidade é reduzida a quantidade, a história vira de pernas para o ar. A pressão das trevas na história como que força Deus a revelar a luz.

Enquanto Roma decide a sorte do mundo, enquanto o Império mantém a paz com a espada das legiões, nesse mecanismo perfeitamente azeitado cai um grão de areia, nasce uma criança capaz de mudar a direção da história.
A nova capital do mundo é Belém. Deus parece brincar com a história dos homens. Trata-se de sua misteriosa e nunca revogada escolha: a de fazer história com quem não tem história, de escolher o que no mundo é frágil para confundir o que no mundo é forte.

Frei Almir Ribeiro Guimaraes, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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