O Corpo de Cristo e o Corpo Humano Machucado

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Neste tempo em que vemos tantos corpos humanos sofridos e machucados, debruçamos nossa atenção sobre a festa de “Corpus Christi” e a que esta celebração nos remete. O Papa Francisco nos ajuda a entrar neste mistério sagrado:

“Na celebração da festa de Corpus Christi, corremos o risco de honrar o Corpo de Jesus, mas desprezar o corpo humano, a carne de Cristo.

Participamos com muita fé, dedicação e respeito das celebrações do Corpo de Cristo, mas pode ser que, às vezes, façamos uma profunda cisão ou ruptura entre o que celebramos e a realidade que nos cerca, ou seja, o encontro com os corpos desfigurados, explorados, manipulados, usados, escravizados, destruídos, doentes, migrantes… Pode ser que tenhamos um profundo amor e respeito pelo Corpo de Cristo vivo e presente na Eucaristia, e não O vejamos nos corpos que estão aqui, ali, lá, por todos os lados. Não nos devemos envergonhar, não devemos ter medo, não devemos sentir repugnância de tocar a carne de Cristo”.

Este é o sentido que a festa de “Corpus Christi” nos revela: o Corpo Histórico e Humano de Jesus, corpo prazeroso e sofredor, amado por muitos e muitas e rejeitado, crucificado, morto e ressuscitado. Esta é também a festa do grande Corpo de Cristo que é a Humanidade inteira.

Corpo real de Cristo são especialmente todos os que sofrem com Ele no mundo, os enfermos e famintos, os rejeitados e encarcerados, os pobres e excluídos… Eles são a humanidade ferida no Corpo do Filho de Deus.

Corpo de Cristo é também o universo inteiro, criado por Deus para que n’Ele se encarnasse e habitasse seu Filho. Assim, ao tomar o pão e o vinho em suas mãos, na ceia sagrada, Jesus abraça os bilhões de anos de evolução e chama-os de seu Corpo e de seu Sangue. Cada cristão, ao fazer “memória” do Corpo de Jesus, entra em comunhão com todas as energias da Criação.

Corpo de Cristo que continua sendo o Pão, fruto da terra e do trabalho dos homens e mulheres, todo pão que alimenta e é compartilhado, em fraternidade, a serviço dos que tem fome.

Jesus levou muito a sério a questão do corpo, o seu e o das pessoas que encontrou ao longo de sua vida. Cuidou do seu descanso e o daqueles que com Ele compartilhavam o mesmo caminho; deixou-se acariciar e ungir sua cabeça e seus pés com perfumes valiosíssimos por algumas mulheres; curou corpos atrofiados pela doença e fragilizados pela exploração. Os Evangelhos nos situam Jesus no nível da corporalidade próxima: é Ele que sabe olhar, tocar, sustentar, acariciar

Eucaristia é “Corpo” doado e partilhado, e não pura intimidade de pensamento, nem desejo separado da vida. A Eucaristia é Corpo feito de amor expansivo e oblativo, que se expressa no trabalho da terra, na comunhão do pão e do vinho, no respeito mútuo frente ao valor sagrado da vida, no meio do mundo, nas casas de todos… Não são necessários grandes templos e nem suntuosas procissões para celebrar a festa do Corpo de Deus; basta a vida que se faz doação e partilha, no amor, como Jesus fez.

Diante do Corpo de Cristo, nosso corpo se plenifica na comunhão com outros corpos, com Deus e com o corpo da natureza. Nosso humilde corpo é parte da Criação inteira e nosso bem-estar faz sorrir a natureza.

Nosso corpo constitui nossa presença no mundo e, portanto, a acolhida do próprio corpo nos projeta para uma relação sadia e de cuidado com o corpo do outro, o que determina nossa relação com Deus (Mt. 25,31-46). O corpo do ferido, do doente, do faminto, do preso, do migrante… tornam-se “territórios sagrados” onde crescemos e nos humanizamos; são os “lugares” nos quais Deus revela seu rosto compassivo.

O corpo é lugar de êxtase e de opressão, de amor e de ódio, lugar do Reino, lugar de ressurreição. É espaço de salvação, de justiça, de solidariedade, de acolhida, é lugar da experiência de Deus, da celebração, da festa, da entrega… Celebrar “Corpus Christi” é “cristificar” nossos corpos.

Assim, neste tempo de pandemia, quando ao celebrarmos a festa de Corpus Christi contemplamos milhares de corpos sendo consumidos por um vírus, somos provocadas a rever como nos relacionamos com o nosso corpo, com o corpo da(o) outra(o), com o Corpo de Cristo, com o corpo da natureza. É aqui, se manifesta a nossa relação com Deus.

 

Por Irmãs Miriam Spezia e Maria Poffo

Fonte: CICAF

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