O Encanto do Natal – Quando o Altíssimo abre mão de sua onipotência

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O coração cristão e franciscano sempre se extasia pela vivência do tempo do Natal e, de modo particular, pela comemoração do dia em que nasceu entre nós o Menino que foi deitado nas palhas de um manjedoura. As imagens do presépio estão indelevelmente gravadas no mais fundo de nosso coração desde a mais tenra infância. Mesmo que a sociedade de consumo tenha tirado Jesus do Natal e as ceias, suntuosas ou não. Desconheçam as verdadeiras razões pelas quais elas se realizam, nosso coração continua se encantando com o Natal. Nesse tempo parece que voltamos a ser crianças quando pedíamos que o pai nos erguesse para vermos as imagens do presépio da igreja e jogar um beijo para o menino Jesus.

“Mais do que nenhuma festividade, Francisco celebrava com inefável alegria o nascimento do Menino Jesus e chamava festa das festas o dia em que Deus feito Menino, se amamentava como todos os filhos dos homens. Beijava mentalmente, com esfomeada avidez, as imagens do Menino, que o espírito lhe construía e, dele, entranhadamente compadecido, balbuciava palavras de ternura, à maneira da crianças. E o seu nome era para ele como um favo de mel na boca” (2Celano 199).

Aquele altíssimo e bom Senhor, aquele que os céus não podem conter busca o homem de todos os tempos. Não chega espalhafatosamente, mas na fragilidade de uma criança. Francisco assim pregava a respeito do rei pobre que nasceu na pequena cidade de Belém. Simplicidade encantadora. Aquele que vem do Mistério torna-se pobreza de bens e carente de cuidados.

Vivemos tempos novos em que somos chamados, numa sociedade consumista e criadora de cruéis desigualdades, a uma vida de simplicidade. Temos que tentar ver esse Deus da noite de Belém e da montanha do Gólgota nos pobres, solitários, abandonados, menosprezados, excluídos, nos que vivem com trapos e sem esperança. Deus nasceu na carne de uma criança indefesa e de um ser humano injustamente condenado à morte.

Inesquecível a noite de Greccio onde Francisco quis ver com seus próprio olhos como Deus se tornara fragilidade destilando amor e suplicando amor. Francisco gritará aos quatro ventos: “O amor não é amado. O amor não é amado”. Quando o Pobre de Assis usa da palavra é só encanto: “Por vezes, ao mencionar a Jesus Cristo, abrasado de amor, chamava-lhe o “menino de Belém” e, ao dizer “Belém” era como se imitasse o balir duma ovelha e deixasse extravasar da boca a maviosidade da voz e toda ternura do coração. Quando lhe chamava “menino de Belém” ou “Jesus”, passava a língua pelos lábios, como para saborear e reter a doçura de tão abençoados nomes” (1Celano 86).

“Se pelo fato da Encarnação, o Verbo, de certa forma, assumiu cada homem, como diziam alguns Padres da Igreja, pelo modo como a Encarnação se realizou, ele assumiu, de forma especial, o pobre, o humilde, o sofredor, a ponto de identificar-se com eles. Francisco de Assis tinha disto agudíssima consciência. Para ele, o amor por Cristo, o amor pelos pobres e o amor pela pobreza constituíam uma só coisa. “Quando vês um pobre”, disse um dia a um companheiro que tinha julgado mal um mendigo, “deves pensar naquele em cujo nome ele vem: Cristo feito homem para assumir a nossa pobreza e enfermidade. Na pobreza e na doença deste mendigo nós temos que acolher com amor a pobreza e a doença do Senhor nosso, Jesus Cristo, as quais ele carregou no corpo e pela salvação do gênero” (Raniero Cantalamessa, O apaixonado por Cristo. O segredo de Francisco de Assis ( Fons sapientiae, São Paulo, p. 85-86)(Legenda Perusina 89). Deus morre de frio nas calçadas e executado nas esquinas das ruas. Jean Guitton, observador leigo do Vaticano II: “Os Padres conciliares reencontraram o sacramento da pobreza sob as espécies daqueles que sofrem”.

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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