Santa Clara em quatro tempos – IV

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Quarto tempo
Clara veste o hábito da penitência e desposa Cristo

Ajoelharam-se todos, os irmãos, Clara e a tia, diante do altar, olhando felizes para a escura imagem de Nossa Senhora. Então Francisco se colocou em pé, diante dela, com uma túnica nos braços. Alguns irmãos se colocaram ao redor dela com tochas parecendo estátuas de bronze. Os demais ficaram de fora pois a capela era muito pequena. E dentro, no mais sagrado silêncio, Francisco falou: “Irmã, eu lhe concedo a veste celestial da pobreza”.

“Eu lhe agradeço”, respondeu Clara.

A tia ajudou a tirar as joias e o vestido de seda branca, Francisco a vestiu com o hábito, uma rústica túnica marrom, remendada em vários lugares e amarrada na cintura com uma corda grossa.

“Teu sapatos, irmã”, disse ele.

Ela descalçou seus sapatinhos de seda vermelha e calçou um par de sandálias de madeira.

“E”… Não chegou a falar nada, mas um irmão lhe alcançou uma tesoura.

Ela o fixou com alegria porque quanto mais se lhe tirava, tanto mais rica ela se tornava para o serviço do Reino dos Céus. Ela ajeitou os cabelos soltos que caíam sobre seus ombros como um manto dourado e inclinou-se para frente.

Ele com as mãos escuras, longas e magras apanhou os maravilhosos cabelos e abriu e fechou a tesoura três ou quatro vezes. Cada vez que sua mão se abria, os cachos dos cabelos iam caindo desordenadamente sobre suas roupas de seda, sua gargantilha de prata, sua boina enfeitada de pérolas, suas joias e sapatilhas que estavam espalhadas no chão como um buquê de flores murchas.

Então, concedeu-lhe sua bênção. “Irmã”, disse ele, “agora você é a noiva do Rei da Luz”.

Agradecida, ela olhou para ele e lágrimas correram pelas suas faces. Os irmãos começaram a cantar: “Os filhos dos hebreus, com ramos de oliveira, foram ao encontro do Senhor”. Suas vozes ecoaram pela floresta respondendo a este canto.

“Vem, irmã, chamou Francisco, e juntos saíram do círculo dos irmãos, que continuavam cantando, ladeados por dois irmãos conduzindo tochas. Para esconder das fúria de seu pai o precioso tesouro, puseram-se a caminho do Mosteiro de São Paulo das Abadias que ficava em algum lugar perto do lago.

A lua caminhava com eles.

Felix Timmermans
A harpa de São Francisco
Vozes, p. 172-174

FIM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

 

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