Sínodo Amazônico: valorizar os carismas dos fiéis leigos, longe do clericalismo

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Repensar as ministerialidades da Igreja à luz dos parâmetros da sinodalidade: este é um dos desafios da Igreja na Amazônia para que seja sempre mais Igreja da Palavra. Este foi o teor de alguns pronunciamentos feitos na tarde de hoje na Sala do Sínodo. A Palavra de Deus é presença ativa e misericordiosa, educativa e profética, formativa e performativa, interpelante no âmbito da ecologia integral e sinal de empenho social, econômico, cultural e político para o desenvolvimento de um novo humanismo. São necessários novos ministros da Palavra, inclusive mulheres, para dar novas respostas aos desafios contemporâneos e é preciso investir nos leigos bem preparados que, em espírito missionário, saibam levar o anúncio do Evangelho a todos os lugares da Amazônia. Além disso, uma formação adequada dos leigos engajados é fundamental também para o nascimento de novas vocações.

O papel dos fiéis leigos e das mulheres

Uma Igreja ministerial, foi dito ainda na Sala, precisa que sejam melhor expressos e valorizados os carismas dos fiéis leigos, graças aos quais se manifesta a face da Igreja em saída, longe do clericalismo. Um pronunciamento, em especial, sugere que a questão dos assim chamados viri probati e da ministerialidade feminina sejam tratados numa Assembleia sinodal ordinária, porque são temas de alcance universal. Outra fala aconselha que, antes dos viri probati presbiteri, se pense nos viri probati diaconi: o diaconato permanente, com efeito, pode representar um verdadeiro laboratório para ter homens casados no sacramento da Ordem. Em particular para o tema feminino, entre as colocações dos auditores se sugere que sejam instituídos ministérios não ordenados para as mulheres leigas, entendendo o próprio ministério como um serviço, de modo a garantir em todo o território pan-amazônico a dignidade e a igualdade feminina. Esses ministérios poderiam ser, por exemplo, o da celebração da Palavra ou das atividades sócio-caritativas.

Proteção dos menores e dos adultos vulneráveis

Depois, houve espaço para a proteção dos menores e dos adultos vulneráveis na Amazônia: a terrível chaga da pedofilia e dos abusos sexuais requer, de fato, que a Igreja seja sempre vigilante e corajosa. O maior desafio, destacou-se, é a transparência e a responsabilidade diante desses crimes, para que possam ser prevenidos e combatidos. O tema da exploração sexual juvenil foi citado também em outras ocasiões: as redes criminosas – foi dito – roubam a infância das crianças, tornando-as vítimas, por exemplo, do tráfico de órgãos. As cifras são dramáticas: em 2018, somente no Brasil, foram contabilizados 62 mil casos de estupro. E se trata de uma das cifras mais altas da região amazônica. Na base disso tudo, existem seja graves desigualdades econômicas, seja carências de ações governamentais locais e internacionais capazes de combater esses delitos. Foi feito então um apelo para uma maior obra de prevenção no setor, com a ajuda das Conferências episcopais e das Congregações religiosas. A atenção aos menores e às mulheres foi reiterada também para exortar a luta contra o tráfico de pessoas: as vítimas deste drama estão entre as mais desumanizadas do mundo. Por isso, se pede que, através do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, as grandes empresas respeitem as normas internacionais sobre o tráfico e que sejam instituídas Comissões pastorais especiais para enfrentar o tráfico de pessoas.

Pastoral vocacional e Pastoral juvenil

Foi ressaltada ainda a importância da Pastoral vocacional: destaca-se que esta não pode faltar na obra de evangelização e deve ser acompanhada de uma Pastoral juvenil que seja, ao mesmo tempo, chamada e proposta de um encontro pessoal com Cristo. Os jovens que querem seguir Jesus, foi dito na Sala, devem ser amparados por uma formação adequada, através de um testemunho de vida santo e engajado. Os sacerdotes, portanto, deverão ser capazes de compreender profundamente as exigências da Amazônia: a catequese não pode ser demasiada acadêmica, mas ser feita com espírito missionário e coração de pastor.

O recurso primário da água

Destacou-se também a importância da formação catequética à ecologia integral, em particular para a proteção e a salvaguarda da água, recurso primário e fonte de vida. O cuidado dos recursos hídricos – tema enfrentado ainda nos pronunciamentos de auditores e convidados especiais – é fundamental: todos os dias, com efeito, milhares de crianças no mundo morrem por doenças relacionadas à água e milhões de pessoas sofrem por problemas hídricos. Como disse o Papa Francisco em diversas ocasiões, a próxima guerra mundial será ligada à água. Portanto, precisa-se de uma urgente conscientização global para a proteção da casa comum e a reconciliação com a Criação, sinal da presença de Deus. Mais tarde é demasiado tarde, foi dito na Sala. A exortação a uma “conversão ecológica” diz respeito também à dimensão ética dos estilos de vida atuais, muitas vezes marcados pela tecnocracia e pela maximização do lucro como objetivo absoluto, em detrimento de uma visão do homem como ser humano integral.

O desafio da comunicação

Em sintonia com o que foi dito na 9° Congregação Geral, a Sala voltou a refletir sobre o tema da comunicação: através dos meios de comunicação de massa – afirmou-se –, é preciso abrir-se aos comunicadores de todas as culturas e de todas as línguas, de modo a reforçar os povos amazônicos. As mídias da Igreja, portanto, devem ser um espaço para consolidar os conhecimentos locais, através inclusive da formação de comunicadores indígenas e camponeses. Entre as reflexões dos padres sinodais, esteve também a defesa dos povos indígenas, a ser levada avante, por exemplo, por meio da educação ou de pequenos projetos de desenvolvimento social. Muitas vezes excluídas da sociedade, de fato, as populações originárias não devem ser vistas como “incapazes”, mas protagonistas, e devem ser ouvidas, compreendidas e acolhidas. Depois, foi relançada a exortação para promover a vida consagrada feminina nos contextos periféricos urbanos da Amazônia, onde vivem os “invisíveis”, aqueles que não têm voz nem direitos. Eis então o convite para que as Comissões de justiça e paz e de direitos humanos possam cooperar mais entre si, em nome da defesa da vida do homem e do planeta.

A reflexão do Papa

No encerramento da Congregação, o Papa Francisco tomou a palavra, voltando a refletir sobre alguns temas que emergiram durante os trabalhos e evidenciando alguns aspectos que mais o impressionaram.

Fonte: Vatican News

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