Entrevista: Bem viver o Ano Jubilar Franciscano com a irmã Liliane Alves, PFF

Entrevistas

Entrevista: Bem viver o Ano Jubilar Franciscano com a irmã Liliane Alves, PFF

Natural de Paranatama, PE, pertence ao Instituto Secular Pequena Família Franciscana – Fraternidade Frei Juvenal Bomfim, em Garanhuns, PE. No Instituto, está à serviço na Formação Inicial e Permanente. Formada em Letras, é professora do estado de Pernambuco. Colabora nas Comunidades Eclesiais de Base, na Catequese, Liturgia, Pastoral da Saúde, no SAV do Instituto e da Diocese. Recentemente, assumiu a Coordenação do Regional RN, PB e PE da Conferência da Família Franciscana do Brasil.





1. Estamos vivendo um ciclo de grandes centenários (Regra, Greccio, Estigmas, Cântico das Criaturas e a Páscoa de São Francisco de Assis). Na sua visão, qual a importância de celebrar esses 800 anos de história hoje, em pleno século XXI?

Para nós, Família Francisclariana, a vivência destes 800 anos é um convite a retornar às fontes da nossa Espiritualidade. Fazer memória desses momentos da vida do nosso Pai Francisco é recordar a sua humildade, o seu grande amor a Deus e à criação. O decreto para o Ano Jubilar afirma que o nosso tempo não é muito diferente do período em que Francisco viveu e a luz do seu ensinamento continua válida e atual, pois percebemos que a caridade cristã tem enfraquecido, se exalta o ódio entre os povos, as violências sociais aumentam cada dia mais e o anúncio de paz tem incomodado aqueles que fazem e incentivam guerras. Que este Ano de Santo Franciscano nos estimule a imitar o pobrezinho de Assis para sermos fiéis mensageiros/as da paz e do bem.

2. Na carta, o Papa destaca que São Francisco não encarou o fim da vida com medo, mas como um encontro pacificado com a “Irmã Morte”. Como a visão franciscana pode ajudar a nossos irmãos e irmãs, que muitas vezes tentam esconder ou negar a finitude da vida, a encontrar um sentido mais profundo para a existência?

Diante da realidade da vida que é o encontro com a irmã morte, podemos ajudar os nossos irmãos e irmãs a perceber, por meio do nosso testemunho, que quanto mais vivemos a misericórdia para com todos, em especial para com os mais pobres, estamos no caminho que nos leva a Deus. É nas simples ações do cotidiano em defesa da vida, da dignidade e da justiça que vamos encontrar o sentido pleno da nossa existência. Foi vivendo o Evangelho dessa maneira que Francisco soube acolher a irmã morte de modo pacificado, porque tinha a certeza de que viveu fazendo a vontade de Deus. Quando temos essa certeza em nosso coração não tememos a morte, porque ela nos une definitivamente ao nosso amado Jesus.

3. Na prática da vida religiosa e comunitária, o que significa hoje, 800 anos depois, ser uma presença que “desarma” o ódio e a intolerância, como Francisco fez ao atravessar as linhas de guerra?

A herança que Francisco deixou nos convida a viver a misericórdia, o perdão e a reconciliação e fortalece em nós a alegria de sermos irmãos e irmãs. A partir da vida comunitária religiosa e fraterna, podemos testemunhar que é possível viver uma fraternidade circular e universal que serve uns aos outros com amor, proximidade, cuidado, mantendo relações humanas saudáveis que conduzem a um mundo mais fraterno. Mantendo vivas em nós as palavras de São Francisco que diz com alegria: “O Senhor me deu irmãos”, desejamos, com os nossos gestos, palavras e ações, ser testemunhas da paz e do amor infinito de Deus para a humanidade.

4. No contexto deste jubileu, como a você vê a contribuição de Santa Clara para a renovação da Igreja que buscamos hoje? 

Nossa Irmã Clara, com seu amor, entrega e doação da sua vida a Jesus nos ensina que o caminho de renovação para a Igreja, hoje, é escutar com atenção o que o Senhor nos diz por meio dos acontecimentos e da voz daqueles que são excluídos da sociedade. Em um mundo em que nós muitas vezes não conseguimos silenciar, Clara nos lembra que é no silêncio e na oração contínua que a voz de Deus chega até a nossa alma, e assim é escutada e entendida em seu significado. Seu testemunho também nos recorda que nesta vida devemos agradar a Deus, falar sempre de Deus através de nossas ações de cuidado e amor para com as pessoas que o Senhor coloca em nosso caminho.  

5. O Papa Leão diz que a verdadeira paz nasce do olhar fixo no Crucifixo de São Damião. Diante dos desafios sociais, como o carisma de Francisco e Clara pode atuar como uma ferramenta de reconciliação, ajudando a “reparar a casa” de Deus, como foi pedido a Francisco no início de sua conversão?

Nossa sociedade atual vive inúmeros desafios, por isso é necessário manter os olhos fixos em Jesus crucificado e abrir o nosso coração para viver a mansidão e a humildade e sermos testemunhas do Evangelho, como nos ensinou Francisco. Reparar a casa de Deus é nossa missão e precisa ser por meio do diálogo e colaboração de todos. Mas também é necessário ir ao encontro das pessoas desprezadas, dos pobres, fracos, doentes, leprosos e entre os que estão caídos pelas estradas, como fez Francisco que, aos poucos, foi reconstruindo a Igreja através de gestos de proximidade, misericórdia, respeito e diálogo. Desse modo, seremos mensageiros/as de reconciliação, de paz na Igreja, na sociedade e no mundo.

Leia também