Aos 32 e aos 103 anos, duas irmãs franciscanas falam sobre a vocação para dedicar a vida à fé

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Uma confirmou no mês passado a decisão ancorada desde o final da adolescência. A outra completou oito décadas na função desejada ainda na infância. Em comum, escolheram o mesmo destino para a vida: servir a Deus e ao próximo como franciscanas. Juntas, e ao lado de mais de 300 irmãs de caminhada, Glenda Sabio Garcia, 32 anos, e Anna Íris Eich, 103 anos, celebrarão neste sábado os 150 anos da chegada ao Brasil das seis primeiras missionárias vindas da Alemanha.

Integrantes da Congregação Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã, Glenda e Anna Íris demonstram em cada frase a paixão pela trilha escolhida, mesmo enfrentando resistência inicial de familiares e amigos. As histórias das duas lembram as de outras mulheres, como as missionárias pioneiras, que optaram pela vida religiosa consagrada. Conhecidas pela dedicação exclusiva ao trabalho voltado à saúde, à educação e ao social, as franciscanas estão presentes em diferentes partes do Rio Grande do Sul desde a chegada a São Leopoldo, em 1872.

Vocação desde sempre

Ao completar 22 anos, Anna Íris Eich chegou a São Leopoldo disposta a seguir o sonho de se tornar uma franciscana, cultivado desde criança. Natural de Cerro Largo, a jovem estava na segunda etapa da caminhada para ser freira. Antes, enfrentou a negativa dos pais, mas os convenceu quando falou que era a sua vocação. Na despedida rumo ao Vale do Sinos, ainda ouviu da família que não duraria 10 anos como missionária. Hoje, aos risos, ela relembra o fato e comenta:

— Eu lutei para conseguir ir e me desprender (da família). Já se passaram mais de 80 anos. Meu pai errou bem feio, né?

Aos 103 anos cheios de disposição para a vida, Anna Íris vive no Lar Santa Elisabeth, em São Leopoldo, sob os cuidados das próprias irmãs franciscanas. Apesar das dificuldades para ouvir e enxergar, é independente. Com passos rápidos e memória ainda mais veloz, recorda detalhes de quando insistia com os pais se tratar do que identifica como “um chamado de Deus”.

— Acho que não há nada melhor do que rezar e salvar almas. Para mim, é a minha vida. Me afirmei muito na vida de São Francisco (São Francisco de Assis). Até hoje, admiro e procuro também imitá-lo. Nem sempre dá. Isso é fora do nosso alcance — comenta.

Diariamente, para manter-se ativa, Anna Íris faz exercícios físicos indicados pelos especialistas na casa. Entre movimentos respiratórios e com braços e pernas, sobra espaço até para agachamentos. A disposição da senhorinha encanta a todos. E quando questionada sobre o segredo para manter-se disposta, revela uma composição caseira que bebe diariamente desde a década de 1990. Segundo ela, a mistura a ajuda a evitar artrose e artrite:

— Todas as manhãs, em jejum, eu tomo uma colher de uma mistura que faço com três cebolas pequenas roxas descascadas, uma colher de mel, um copo de água e um traguinho de cachaça para conservar o xarope. Um dia, encontrei uma irmã no corredor logo depois de tomar a mistura. Ela fez assim (a irmã faz uma careta e gargalha). Acho que sentiu o cheiro.

Para Anna Íris, que esteve em missões em diferentes partes do Estado até morar no lar, não há lembranças negativas ou uma única que se destaque ao longo de mais de um século de vida. Ela prefere dizer que a memória “é o conjunto de tudo o que viveu”. E finaliza falando do princípio que a trouxe até aqui: o amor.

— Para Deus, tudo é bom. Depende como nós encaramos. Se eu não amo o próximo, eu também não amo a Deus. Se eu digo “eu amo Deus”, e não amo o próximo, eu sou mentirosa — conclui.

Um caminho em construção

O despertar da estudante de enfermagem Glenda Sabio Garcia, 32 anos, para a vida religiosa ocorreu na adolescência. Vinda de uma família católica praticante e aluna de um projeto social promovido por irmãs, em Porto Alegre, ela sempre se questionou sobre o seu propósito de vida. E, conforme foi participando de encontros e reflexões com as franciscanas, acabou se identificando com o trabalho.

Mas na hora de tomar a decisão que a levaria para anos de estudos longe da família, enfrentou uma resistência inicial dentro de casa.

— É todo um processo de aceitação, pelo fato de ser um estilo de vida que precisa de muita abnegação. Inclusive, um distanciamento da família, porque a gente pode ser enviada para outros lugares. A família precisa entender que este estilo de vida também nos toma bastante tempo. Minha mãe já compreendia o que era a vida religiosa. Acolheu, claro, com umas resistências, mas acolheu — conta.

Durante o processo para se tornar franciscana, Glenda passou dois anos no interior da Bahia em missão. Foi sua primeira viagem pela congregação. Um divisor de águas, pois conheceu uma nova cultura e teve contato com pessoas de outras partes do Brasil.

Em 13 de março deste ano, depois de uma caminhada de 12 anos de estudos e votos temporários, Glenda teve a certeza de que esta será a sua trilha na vida e fez os votos definitivos como irmã franciscana.

— Esta caminhada também foi um período de muito discernimento, se era realmente este caminho que queria para a minha vida. Foram momentos de muita oração e acompanhamento espiritual. Teve momentos em que tive vontade de tomar novos rumos, principalmente, no tempo da pandemia. Mas confirmei que é isso que quero assumir de verdade — afirma.

Desde o ano passado, Glenda divide uma casa da congregação no bairro Arroio da Manteiga, em São Leopoldo, com as irmãs Delcy Maria Frohlich, 82 anos, e Judith Braun, 88. Elas são responsáveis pelo trabalho religioso com a comunidade local. E mesmo com aulas na faculdade quase diárias – a formatura está prevista para 2023 -, Glenda também atua como educadora social três vezes por semana num projeto com crianças e adolescentes do bairro e uma vez por semana trabalha no Lar Santa Elizabeth.

Nos poucos períodos de sobra, encontra tempo para o artesanato, uma de suas paixões. Uma de suas primeiras composições foi um pequeno filtro dos sonhos e uma árvore da vida, que ganhou espaço na porta do quarto onde estuda online, ora e dorme. Para o futuro, Glenda pensa em viajar como missionária e deixa um recado àquelas que pensam em seguir o mesmo caminho que está sendo feito por ela.

— Quem escuta este chamado, de se colocar a serviço, de se doar, doar a vida, doar os dons, a sua disponibilidade, que, na verdade, é isso, siga! É um caminho muito bonito, cheio de significados e sentidos. Quando a gente olha para trás, vê que nada acontece em vão. A gente vai se construindo — finaliza.

Fonte: Portal GZH

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