Ecoteologia – Parte 6 – Unidade 2 – Cuidado da Criação e Preocupações Socioambientais

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  1. DETERIORAÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA HUMANA E

DEGRADAÇÃO SOCIAL

A qualidade da vida humana depende da integração do ser humano no mundo na perspectiva de uma vida digna. A vida é original e não pode deixar que a degradação ambiental atinja a espécie humana, de modo que ela seja descartável como uma matéria qualquer.O crescimento das cidades tira o ser humano de seu espaço, e ele tem dificuldade de ter uma vida saudável entre poluição, máquinas, monóxido de carbono emitidos pelos meios de transporte, a poluição sonora e toda a poluição visual. Nas grandes metrópoles, o ser humano tem que viver entre congestionamentos e, premido pelo caos urbano, torna-se prisioneiro de elementos artificiais como asfalto, cimento, metais, vidros, acrílicos e outros que o impedem de ver a natureza.

Espaços que eram de todos, foram transformados em privatizados, após as criações das áreas residenciais que, diversos condomínios vivaram verdadeiros parques ecológicos restritos a alguns poucos endinheirados. Os que são chamados “lixo urbano”, os moradores de rua, são considerados um incômodo para a sociedade urbana e estão condenados a viver dos restos da cidade. Agressividade e violência fazem parte do dia a dia de cidades de grande, médio e mesmo as de pequeno porte. Fazem parte do ritmo diário das cidades, seus centros e seus bairros, o consumo de drogas e álcool, o narcotráfico, as milícias e as invasões.

 IMPORTANTE

“A isto vêm juntar-se as dinâmicas dos mass-media e do mundo digital, que, quando se tornam omnipresentes, não favorecem o desenvolvimento duma capacidade de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade. Neste contexto, os grandes sábios do passado correriam o risco de ver sufocada a sua sabedoria no meio do ruído dispersivo da informação. Isto exige de nós um esforço para que esses meios se traduzam num novo desenvolvimento cultural da humanidade, e não numa deterioração da sua riqueza mais profunda. A verdadeira sabedoria, fruto da reflexão, do diálogo e do encontro generoso entre as pessoas, não se adquire com uma mera acumulação de dados, que, numa espécie de poluição mental, acabam por saturar e confundir. Ao mesmo tempo tendem a substituir as relações reais com os outros, com todos os desafios que implicam, por um tipo de comunicação mediada pela internet. Isto permite selecionar ou eliminar a nosso arbítrio as relações e, deste modo, frequentemente gera-se um novo tipo de emoções artificiais, que têm a ver mais com dispositivos e monitores do que com as pessoas e a natureza. Os meios atuais permitem-nos comunicar e partilhar conhecimentos e afetos. Mas, às vezes, também nos impedem de tomar contato direto com a angústia, a trepidação, a alegria do outro e com a complexidade da sua experiência pessoal. Por isso, não deveria surpreender-nos o facto de, a par da oferta sufocante destes produtos, ir crescendo uma profunda e melancólica insatisfação nas relações interpessoais ou um nocivo isolamento”. (FRANCISCO, 2015, p. 29-30) 

Neste ponto de nossa reflexão, temos que alertar para a deterioração da qualidade de vida e a degradação social, vamos elencar mais alguns pontos. No espaço da pós- modernidade, temos a prioridade da economia que enfatiza a produção fundamentada em um consumo destrutivo e usual natureza sem reposição daquilo que é tirado. Assim, se existia uma ordem natural no sistema ecológico de nosso planeta, a exploração dos recursos naturais é um massacre. Basta conferirmos os estragos da mineração que, por si só, merecia todo um capítulo nesta nossa reflexão. A globalização do capital explora sempre o que os países têm de riquezas naturais, como a Amazônia que está aí para ser a maior expressão dessa afirmação, onde contempla-se suas riquezas e depois as levam embora. Existe, realmente, a destruição do sistema de recursos naturais e isso resulta na degradação do potencial produtivo dos ecossistemas.

Países mais desenvolvidos investem com sua tecnologia em países menos avançados, cujo sistema é mais empobrecido de técnicas industriais. Nossos minérios, espécies nativas e biomas são explorados por outros países. As diferenças de nível de desenvolvimento entre países geram transferências de riquezas naturais que trazem um lucro gigantesco para os países que exploram os outros. A exploração da madeira, por exemplo, promove um desmatamento desmedido e a destruição de nosso potencial produtivo natural, e o processo de degradação dos ecossistemas é uma realidade incontestável. Como consequência, temos a erosão, o esgotamento dos recursos e o extermínio de áreas imensas, de suas espécies e mesmo dos que ali habitam.

A acumulação de capital expandiu suas fronteiras e veio morar no Brasil; tirou as práticas agrícolas tradicionais dos nossos colonos, camponeses e da agricultura familiar e instaurou a monocultura industrializada para suprir o mercado externo. Tudo isso interferiu na produtividade natural da terra e gerou pobreza para as populações rurais, como o caso do efeito do cultivo intenso, expansivo e exclusivo da cana de açúcar. Essa

[…] zona possuía nas suas origens os solos tropicais mais férteis. Seu clima favorecia a agricultura, o que explicava a presença, no passado, de abundantes florestas onde cresciam inúmeras árvores frutíferas. Hoje se implantou a cana-de-açúcar. O resultado é que esta região é uma das quais onde a fome faz mais estragos no continente latino-americano. A ausência de hortas e gado criou um problema de alimentação muito grande, numa região em que a agricultura diversificada poderia produzir uma variedade infinita de produtos agrícolas. (CASTRO, 1957, p. 97)

 O processo produtivo tecnológico favoreceu o acumulo de capital, degradou a capacidade produtiva dos ecossistemas e interferiu nas populações que viviam da própria produção. Os recursos que antes mantinham famílias, agora servem apenas como fonte de lucro das grandes potências industriais que perpetuam uma distribuição cada vez mais desigual de oportunidades de trabalho e salário.

Essas transformações culturais, segundo aponta Leff (2018, p. 33), são frutos desse

[…] modo de exploração [que] foram sepultando uma enorme quantidade de conhecimentos práticos elaborados durante séculos de experiência produtiva pelas comunidades autóctones destas regiões, as quais permitiram uma apropriação mais sustentável dos potenciais ecológicos de seus territórios. Desta maneira, o sistema capitalista rompeu a harmonia entre os sistemas naturais e as formações sociais. A implantação de modelos econômicos, tecnológicos e culturais ecologicamente inapropriados durante longa dominação colonial e imperialista gerou uma irracionalidade produtiva, no sentido de um manejo ecológico e energético ineficiente e dos crescentes custos ambientais na produção de valores de uso e de mercadorias. (LEFF, 2018, p. 33)

 Logo, como podemos observar, a devastadora exploração da atualidade causou e continua causando danos irreversíveis, como descreve o autor supracitado, nos ecossistemas naturais, interferindo na evolução e alternativas socio-organizacionais de processos sustentáveis, equilibrados e, sobretudo, igualitário.

CONCLUSÃO

Nesta Unidade, fizemos uma explanação sintética da crise que estamos vivendo, mas com sonhos e esperança de grandes mudanças. Reforçamos que é preciso mudar o mundo e suas relações: o convívio humano e a relação com a Casa Comum.

Os três documentos ecológicos mais importantes do início deste século a Carta da Terra (2003) e a encíclica do Papa Francisco Laudato Sì – Sobre o cuidado da Casa Comum (2015) e a Fratelli Tutti (2020), nasceram da emergência ecológica e da crise da sociedade mundial que não possui “um projeto comum” (Fratelli Tutti). São documentos de alarme e de um derradeiro apelo para fazermos “uma radical conversão ecológica”, se quisermos ainda ter futuro neste pequeno e belo planeta. Essa encíclica é enfática: “Ninguém se salva sozinho, só é possível salvar-nos juntos”. Numa outra formulação mais direta: “Ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. A Carta da Terra é contundente em afirmar: “a escolha é nossa: ou formamos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou então arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida”. (BOFF, 2021, p. 9-10)

E dentro destas considerações finais não podemos deixar de mencionar, historiar e citar para a sua leitura o importante documento que transparece e propõe uma ética mundial, uma nova consciência ecológica e planetária e fundamenta o novo paradigma civilizatório: A Carta da Terra. Este valioso documento integrador, com uma clara visão holística que mostra a correlação entre a degradação ambiental, conflitos étnicos, injustiça social, democracia, paz, ética e crise espiritual. Um grito a favor da Terra em face à sua destruição, mas também uma palavra-ação de grande esperança para o futuro da Terra e dos que nela habitam. Os que elaboraram a Carta afirmam:

A Carta da Terra está concebida como uma declaração de princípios éticos fundamentais como um roteiro prático de significado duradouro, amplamente compartido por todos os povos. De forma similar à Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, a Carta da Terra será utilizada como um código universal de conduta para guiar os povos e as nações na direção de um futuro sustentável. (SECRETARIA INTERNACIONAL DO PROJETO CARTA DA TIERRA, 1999, p. 12)

O texto da Carta da Terra foi elaborado, a partir de uma ampla discussão que durou muitos anos, foi uma discussão em nível mundial. Começa na ONU, que abraça a questão ecológica em 1972, com o Clube de Roma, o qual faz a primeira avaliação da situação da Terra. Nesse mesmo ano, a ONU organiza em Estocolmo um encontro mundial sobre o meio ambiente como preocupação da humanidade. O futuro do nosso planeta e da humanidade depende das condições ambientais, climáticas e ecológicas. Em 1982, é publicada a Carta Mundial para a Natureza. Em 1987, a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, também chamada de Comissão Brundtland, propõe o desenvolvimento sustentável (BOFF, 2003, p. ).

Em 1992, por ocasião da Cúpula da Terra, Rio/Eco-92, foi proposta a Carta da Terra que é discutida por organizações não governamentais, grupos comprometidos com a causa, cientistas e governos nacionais. A proposta não se concretizou, mas não desapareceu; pois nasceu a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Duas organizações internacionais assumem o projeto: a Cruz Verde Internacional e o Conselho da Terra, apoiadas pelo governo holandês. Em 1995 acontece em Haia, na Holanda, a reunião de 60 representantes de diversas áreas e criaram a Comissão da Carta da Terra. Recolhem- e todos os documentos, princípios, debates, consultas, direito internacional, enfim uma documentação oficial sobre questões ecológicas e surge, então, os “[p]rincípios de conservação ambiental e desenvolvimento sustentado: resumo e reconhecimento” (BOFF, 2003, p. 21).

Em 1997, surge a Comissão da Carta da Terra composta por 23 líderes mundiais, para redigir um primeiro esboço do documento. A coordenação dessa Comissão é formada por Maurice Strong, do Canadá, que é o Coordenador Geral da Cúpula da Terra, Rio-92 e Mikhail Gorbachev, da Rússia, presidente da Cruz Verde Internacional. Essa Comissão apresenta, nesse mesmo ano, durante o Fórum Rio+5, o primeiro esboço de redação. Nos anos 1998 e 1999, há uma discussão ampla em todos os continentes atingindo desde escolas primárias, comunidades de base, centros de pesquisa e ministérios de educação; envolvendo 46 países e mais de 100 mil pessoas sobre a Carta da Terra.

Em abril de 1999, sob a coordenação de Steven Rockfeller, faz-se o segundo esboço da Carta. Em Paris, entre os dias 12 e 14 de março de 2000, na UNESCO, ratificou-se a Carta da Terra com todas as contribuições e foi aprovada pela ONU como uma lei mundial (BOFF, 2003, p. 15-21).

O valor da Carta da Terra é a inter-relação de tudo com tudo, a preocupação com o destino comum da Terra e da Humanidade, formando uma grande comunidade terrena e cósmica. É uma nova cosmologia que traz as referências da física quântica, da biologia e da holística. Em seu preâmbulo, a carta afirma que a Terra está viva e junto com a humanidade faz parte da evolução. É um novo ethos mundial que, de acordo com Boff (2003, p. 15-21), destaca estes pontos:

  • Respeitar a Terra e a vida com toda a sua diversidade;
  • Cuidar da comunidade da vida com compaixão e amor;
  • Construir sociedades democráticas, justas, sustentáveis, participativas e pacíficas;
  •  Assegurar a riqueza e a beleza da Terra para as gerações atuais e futuras;
  • Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos e sua diversidade biológica;
  • Prevenir os danos aos ambientes;
  • Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra;
  • Aprofundar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca do conhecimento adquirido;
  • Erradicar a pobreza;
  • Garantir que as atividades e instituições promovam o desenvolvimento humano de forma equilibrada e sustentável;
  • Afirmar a igualdade e a equidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, saúde e oportunidades econômicas;
  • Apoiar o direito de todas as pessoas a um ambiente natural e social, assegurando a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, dando direitos aos povos indígenas e as minorias;
  • Reforçar as instituições democráticas. Integrar os conhecimentos, valores e habilidades necessários para um modo de vida sustentável;
  • Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração;
  • Promover uma cultura de tolerância, de não-violência e de paz.

SAIBA MAIS

Para fazer a leitura completa do texto da Carta da Terra e seus pontos relevantes, tais como: a esperança na responsabilidade humana; a exigência do discurso ecológico e a ética do cuidado, visite:

Disponível em: http://www.cartadaterrabrasil.com.br/prt/Principios_Carta_da_Terra.pdf.

Acesso em: 11 maio 2021.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BENTO XVI, Papa. Discurso ao clero da diocese de Bolzano-Bressanone. Vatican¸ 2008. Disponível em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2008/august/documents/hf_ben-xvi_spe_20080806_clero-bressanone.html. Acesso em: 2 ago. 2021.

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SECRETARIA INTERNACIONAL DEL PROYECTO CARTA DE LA TIERRA. La Carta de la Tierra; valores y princípios para un futuro sostenible. San José, Costa Rica: UNESCO, 1999.

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Texto originalmente publicado pela USF- FREI VITORIO MAZZUCO FILHO

Fonte: carismafranciscano.blogspot.com

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