Entrevista: Louvado sejas, meu Senhor, pela OFS do Brasil com Maria José, OFS

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MARIA JOSÉ COELHO

Ministra Nacional da Ordem Franciscana Secular do Brasil. Nascida em Indiaporã/SP, mudou para Mato Grosso do Sul ainda criança e, atualmente, mora em Campo Grande/MS. É Administradora e pertence à Fraternidade Nossa Senhora de Fátima – OFS. Trabalha como Administradora em uma Clínica de Oncologia há 25 anos e, como voluntária atuou em uma ONG em apoio às pessoas que vivem com HIV. Participou por alguns anos em um projeto da CRB de Campo Grande com os sem-terra acampados e posteriormente assentados, ajudando a criar as primeiras Comunidades.

1. O 17º Capítulo Eletivo se aproxima. Como a OFS do Brasil planeja se engajar no processo de sinodalidade proposto pela Igreja, buscando maior participação e corresponsabilidade de todos os seus membros na vida e missão da Ordem?

A sinodalidade não é novidade para a OFS. Desde sempre, nossas ações são discutidas em conjunto, fruto de diálogo e discernimento comunitário, e posteriormente avaliadas. Nas fraternidades locais, entre os capítulos eletivos, realizados a cada três anos, promovemos dois capítulos intermediários avaliativos. Nos demais níveis, alternam-se capítulos eletivos e avaliativos. Esse processo faz parte do “DNA” da OFS, e por isso acolhemos com naturalidade e alegria a participação de tantos irmãos e irmãs nos processos sinodais das comunidades, paróquias e dioceses.

2. Como você avalia a relação da OFS do Brasil com as demais Instituições da Família Franciscana no Brasil, e como essa sinergia pode ser fortalecida no futuro?

Sempre mantivemos excelente relacionamento com toda a Família Franciscana, participando e apoiando ativamente atividades, projetos, jornadas e romarias. Uma boa relação precisa ser de mão dupla, buscando o melhor para ambos os lados. É importante alinhar agendas, especialmente nas celebrações franciscanas, e ampliar a presença nos movimentos que defendem os direitos humanos e o cuidado com o meio ambiente. Reconhecemos as dificuldades enfrentadas pelos religiosos e religiosas, como a diminuição de vocações, o excesso de atividades e sobrecarga de trabalhos, a desatualização dos endereços de inúmeras casas de formação e conventos, dificultando trocas de informações e a divulgação de eventos da OFS e da Família Franciscana, especialmente para que possamos conhecer-nos melhor e, desta forma, a sinergia entre toda a Família Franciscana possa crescer e se fortalecer.

3. Você está há sete anos como Ministra Nacional. Nesse período, espaços foram fortalecidos para a promoção de uma fraternidade secular que reflita e acolha a pluralidade do povo brasileiro (mulheres negras, divorciadas, indígenas, LGBTs, deficientes)?

São Francisco de Assis é reconhecido por seu radical compromisso com a misericórdia, especialmente para com os excluídos. Nossa Regra e Vida, no artigo 13, nos orienta: “Os franciscanos seculares busquem descobrir Cristo nos irmãos, especialmente nos mais humildes e necessitados, prestando-lhes serviços e amor”.

O Papa Francisco, em sua homilia de 06/11/2016, recordava: “A misericórdia é o coração pulsante do Evangelho… sobretudo aos que estão à margem”. E, em 05/08/2015, afirmou: “Famílias feridas, uniões fora dos padrões tradicionais, todas precisam ser acompanhadas com paciência e ternura. A Igreja não pode fechar as portas a ninguém”.

Assim, ao longo desses sete anos, procurei acolher a todos com amor e compreensão, oferecendo apoio espiritual e orientando nossos irmãos e irmãs a serem sinais vivos da misericórdia de Deus no mundo, fiéis ao Evangelho e ao carisma franciscano.

4. Quais foram os principais desafios e conquistas da OFS no Brasil em termos de formação de seus membros no último triênio?

O ingresso na OFS exige um processo formativo de três anos, para a participação e integração em uma fraternidade. Ao final, o Conselho local decide pela Profissão de Vida Evangélica ou pela extensão do tempo de formação. Embora os materiais formativos sejam padronizados para todo o Brasil, ainda há resistência em alguns regionais quanto ao seu uso.

A formação permanente, que inclui documentos da Igreja, escritos de São Francisco e literatura franciscana, acompanha toda a vida franciscana. A principal conquista do último triênio foi a atualização dos livros “Documentos” e “Vida em Fraternidade”, que orientam a caminhada das fraternidades.

5. Olhando para a próxima década, qual é a principal meta da OFS do Brasil? Em que áreas a Ordem precisa se desenvolver para continuar a cumprir sua missão?

A OFS do Brasil conta com cerca de 12.500 membros distribuídos em mais de 600 fraternidades. Um desafio constante é manter um número real e atualizado de irmãos e irmãs, pois admissões, falecimentos e transferências nem sempre são informados no prazo. Essa apuração estatística é fundamental para planejar formações, distribuir materiais e organizar encontros que respondam às necessidades concretas das fraternidades.

Outro objetivo é fortalecer a unificação do material formativo e apoiar continuamente o serviço de JPIC (Justiça, Paz e Integridade da Criação), sobretudo diante das crises ambientais. A comunicação, interna e externa, também é essencial para formação, orientação e testemunho.

Além disso, é prioridade apoiar a Juventude Franciscana e garantir que nosso seguimento de Cristo, à maneira de Francisco, seja alegre, atrativo e fiel ao Evangelho, respondendo aos anseios de um mundo sedento de sentido e de Deus.

6. Como a OFS do Brasil tem incentivado as fraternidades locais a se engajarem em ações sociais concretas e a serem sinal do Evangelho em suas comunidades? Quais os resultados mais notáveis dessa atuação?

A espiritualidade franciscana é profundamente ecológica. No ano em que celebramos os dez anos da encíclica ‘Laudato Si’, o serviço de JPIC inspira o processo de conversão ecológica e motiva fraternidades a criar iniciativas concretas de cuidado com a Casa Comum.

Entre as ações estão: redução e descarte correto de resíduos, compostagem, reciclagem, educação ambiental, plantio de árvores, parcerias com Pastorais da Ecologia e Meio Ambiente, coleta de latinhas de alumínio para auxiliar instituições beneficentes, apoio a casas de acolhimento de idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade, etc. São pequenas sementes, como a do grão de mostarda, que crescem silenciosamente, mostrando que todos podemos contribuir para um mundo melhor.

7. Por fim, como a OFS do Brasil tem fortalecido sua relação com a Juventude Franciscana (JUFRA), incentivando a participação ativa dos jovens e garantindo que a JUFRA seja um celeiro de vocações?

Antes de falarmos sobre a relação entre a OFS e a Juventude Franciscana (JUFRA), lembro que ela pertence à Família Franciscana e é parte integrante da OFS, sendo acompanhada e animada por franciscanos seculares e somos considerados responsáveis por seu desenvolvimento, apoiando o amadurecimento da vocação franciscana e sua inserção na vida de uma fraternidade.

Por sua vez, os Jufristas consideram a Regra e Vida da OFS um documento inspirador para o crescimento de sua vocação cristã e franciscana, tanto individualmente como em grupo e nossa relação é definida por um espírito de comunhão vital e recíproca. Um membro da JUFRA faz parte do Conselho da OFS, tanto a nível local, regional, nacional ou internacional. Da mesma forma, um membro da OFS também será membro do Conselho da JUFRA no mesmo nível.

Sempre apoiaremos a JUFRA, inclusive com algum suporte financeiro para suas atividades e mesmo não sendo um fim, a participação ativa dos jovens se torna um celeiro de vocações não só para a OFS, mas para toda a Família Franciscana.

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