Entrevista: Participação Francisclariana na Cúpula dos Povos com frei Alex Assunção, OFM

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FREI ALEX ASSUNÇÃO, OFM

 

Natural de Monte Alegre, PA, Amazônia. Reside em Belém, PA. Pertence a Custódia Franciscana São Benedito da Amazônia. É Graduado em Filosofia, Teologia, Psicologia e com pós-graduação em Psicologia Organizacional. É vice-presidente da CFFB Nacional e Assessor da CRB Regional PA/AP.

 

1. Qual é o foco principal e a mensagem que a Família Franciscana do Brasil, com a sua participação na Cúpula dos Povos, busca ressaltar, especialmente no contexto dos biomas brasileiros e das comunidades da Amazônia?

A presença da Família Franciscana do Brasil na Cúpula dos Povos quer ser antes de tudo um testemunho de cuidado, esperança e compromisso com a Casa Comum. Inspirados pelo Cântico das Criaturas, queremos ressaltar que todos os seres formam uma fraternidade universal e que o grito da Terra e o grito dos pobres são um só clamor. O enfoque franciscano é o de escutar os biomas como lugares teológicos e espirituais, especialmente a Amazônia, onde a vida é ameaçada pela exploração predatória e pelo esquecimento das populações tradicionais.

Nosso olhar é de comunhão com as dores e esperanças das comunidades amazônicas, mostrando que a ecologia integral é um caminho espiritual, político e ético. A Cúpula dos Povos será um espaço de profecia e diálogo, onde reafirmamos que não há futuro possível sem reconciliação com a Criação e sem conversão dos estilos de vida e das estruturas econômicas que ferem a Terra.

2. De que maneira “Agenda dos Invisibilizados” se manifesta nas atividades e propostas concretas levadas para a Cúpula dos Povos, buscando articular o “grito da Terra e o grito dos Pobres”?

A “Agenda dos Invisibilizados” é o coração pulsante da nossa Ação Francisclariana. Ela nasce do chão das periferias, das comunidades ribeirinhas, quilombolas, indígenas e de tantas vidas descartadas pelo sistema. Na Cúpula dos Povos, essa agenda se traduz em presença, escuta e articulação, por meio de rodas de conversa, testemunhos e espaços formativos que expressem o encontro entre o “grito da Terra e o grito dos pobres”.

Buscamos visibilizar àquelas e àqueles que o sistema insiste em tornar invisíveis, apresentando experiências concretas de resistência, economia solidária, agroecologia e espiritualidade encarnada. Trata-se de tornar o Evangelho visível na vida dos pobres e nos biomas feridos, afirmando que o Reino de Deus se manifesta nas margens, onde brota a esperança.

3. Como a Família Franciscana está se articulando com outros movimentos sociais, povos tradicionais (indígenas, quilombolas, ribeirinhos) e organizações da sociedade civil na construção da Cúpula dos Povos, e quais são os principais desafios dessa articulação?

A CFFB tem procurado somar forças com movimentos sociais, pastorais e organizações populares, compreendendo que a ecologia integral é uma causa comum. A presença junto a povos tradicionais, juventudes e entidades como a Franciscans International, o SINFRAJUPE a VIVAT Internacional, a Tenda Tapiri, a CRB Nacional e a Rede Um Grito pela Vida, além das JPICs das diversas congregações que expressam nosso modo francisclariano de estar no mundo: em diálogo, partilha e colaboração.

A Família Franciscana, articulada pelo Franciscans International e pelo SINFRAJUPE, marca uma presença expressiva na COP 30, com uma delegação de 43 franciscanos e franciscanas de diferentes países, com representação junto à ONU. Essa participação reafirma o compromisso coletivo com a vida em todas as suas formas e com a urgente necessidade de transformação dos sistemas que ameaçam a Casa Comum.

O grande desafio dessa articulação está em manter a unidade na diversidade, respeitando as múltiplas vozes e experiências que compõem o tecido da Cúpula. Mas acreditamos que a fraternidade é a linguagem capaz de superar barreiras e gerar novas convergências em favor da vida. O compromisso é construir juntos processos duradouros e não apenas eventos pontuais.

4. Quais ações concretas a Família Franciscana e suas instituições (Sefras, OFS, Jufra) planejam implementar após a Cúpula para garantir que as demandas populares cheguem e influenciem as decisões da COP 30 e os compromissos de longo prazo?

O caminho que a Família Franciscana deseja trilhar após a Cúpula dos Povos e a COP 30 é o da permanência e da coerência evangélica. Queremos que o espírito que anima este tempo — de diálogo, esperança e compromisso com a Casa Comum — continue a gerar vida nos territórios, comunidades e fraternidades. O legado que pretendemos deixar não é apenas o de uma presença pontual em eventos, mas o de um processo contínuo de conversão ecológica e articulação profética.

Entre os compromissos concretos estão a Peregrinação dos Símbolos do Cântico das Criaturas, que seguirá mobilizando os regionais da CFFB até o Capítulo das Esteiras de 2026, o fortalecimento das Redes Franciscanas de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC) e a criação de espaços formativos e comunitários de ecologia integral. Além disso, queremos manter o diálogo com outras organizações da sociedade civil e com povos tradicionais, para que o clamor dos biomas e dos pobres continue ecoando nos espaços de decisão política e eclesial.

Mais do que resultados imediatos, buscamos semear processos de transformação, enraizados na espiritualidade do Cântico das Criaturas e no testemunho de Francisco e Clara de Assis. Acreditamos que a conversão ecológica é um caminho coletivo e duradouro, e que o verdadeiro legado francisclariano será medido pela nossa capacidade de continuar construindo fraternidade e justiça após o encerramento das grandes conferências.

5. Como você avalia o papel do estilo de vida e da espiritualidade franciscana como resposta e alternativa prática ao modelo econômico que gera a crise climática, e como isso se traduz em ações na Cúpula dos Povos?

A sobriedade franciscana é, hoje, uma resposta contracultural e profética frente ao modelo de consumo que destrói o planeta. Viver com simplicidade, partilhar com alegria e reconhecer-se criatura entre criaturas é o modo francisclariano de anunciar um outro paradigma civilizacional: o do “bem viver” em harmonia com toda a criação.

Na Cúpula dos Povos, essa espiritualidade se traduz em gestos concretos: o uso responsável dos recursos, o respeito aos territórios, a economia solidária e o compromisso comunitário com a sustentabilidade. Ser franciscano, franciscana, francisclariano, francisclariana é viver a ecologia integral no cotidiano, tornando-se sinal de esperança e de resistência diante de uma sociedade que ainda mede o valor da vida pelo acúmulo e não pela comunhão.

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