Frei Gaspar de Santo Antônio e a tradição dos presépios no Brasil, um despertar franciscano

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A celebração da Encarnação de Jesus busca compreender a importância da inserção do próprio Deus nos frágeis anais da história, porém ninguém conseguiu alcançar tal compreensão de modo tão concreto desse episódio de amor como São Francisco. Neste sentido uma pequena aldeia no Vale do Rieti (Itália) viu o pobrezinho de Assis reproduzir pela primeira vez o nascimento de Jesus.

Em sua vida, São Francisco não buscava outra coisa senão observar o Santo Evangelho, e imbuído desse intento, vislumbrar o Mistério da Encarnação. O maior testemunho desta estupenda devoção ao Menino Deus, que “Entre nós armou Sua tenda” (cf. Jo. 1, 14), e fez-se carne da nossa carne, foi o firme propósito de contemplar, com seus próprios olhos, a singeleza daquela noite fria e luminosa em Belém da Judeia. Tomás de Celano descreve que “três anos antes de sua gloriosa morte, havia nesse lugar um homem chamado João, de boa fama e vida ainda melhor, a quem São Francisco tinha especial amizade […] uns quinze dias antes do Natal, São Francisco mandou chamá-lo, como costumava, e disse: ‘Se você quiser que nós celebremos o Natal em Greccio, é bom começar a preparar diligentemente e desde já o que vou dizer. Quero lembrar o menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num Presépio, e ver com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro’”. (I Celano 84). Francisco sempre nutriu em sua vida uma especial devoção pelo Natal, conforme o mesmo hagiógrafo, o “Poverello de Assis” se referia ao Natal como “a Festa das festas” e a celebrava com “devoção inigualável”. O magnífico acontecimento de Greccio comoveu a todos e principalmente aos seus frades, que almejavam fazer de suas vidas uma imitação dos seus exemplos.

A devoção ao Presépio criado por São Francisco perpassou os tempos, tendo chegado ao Brasil por volta do século XVI, por intermédio dos Frades Menores. Nesse ínterim, sublinhamos a figura de Frei Gaspar de Santo Antônio, da Província de Santo Antônio do Brasil. Frei Gaspar foi o primeiro a receber o hábito franciscano em terras brasileiras, ainda na primitiva residência dos frades em Olinda – PE. Tudo se deu antes que frei Gaspar e seus confrades ocupassem o Convento de São Francisco desta referida cidade. O mencionado frade distinguiu-se em piedade e zelo pelo Mistério da Encarnação do Senhor, tendo sido o primeiro franciscano a reproduzir no Brasil o que outrora São Francisco realizou em Greccio. Notabilizando-se na estreita observância da pobreza e da abstinência, soube ponderar sua vida entre a contemplação dos Mistérios e aos diversos ofícios comuns à vida claustral. Como jardineiro, por exemplo, cultivava plantas e flores para o embelezamento dos altares no Convento. Todavia, Frei Gaspar destacou-se como genuíno devoto do Menino Deus, preparando as solenidades Natalinas com suntuosos Presépios, para exemplificar entre os seus confrades que tinha um grande afeto pelo Pobrezinho de Belém. Frei Gaspar era militar e deixou a farda pelo burel franciscano, e suas mãos, que antes estavam habituadas à rudeza deste serviço, por desígnios insondáveis, adquiriram enorme delicadeza.

Passados 800 anos desse acontecimento, o Presépio idealizado em Greccio tornou-se um instrumento profícuo de evangelização e aguçamento da devoção popular. Em sua Carta Apostólica sobre o significado e valor do Presépio, o Papa Francisco acredita que, ao criar o Presépio pela primeira vez em 1223, Francisco inaugura uma verdadeira e nova forma de evangelização e “o seu ensinamento penetrou no coração dos cristãos, permanecendo até aos nossos dias, como uma forma genuína de repropor, com simplicidade, a beleza de nossa fé.” (Admirabile Signum, 3).

O cultivo do Mistério da Encarnação é um convite ao mundo dilacerado de resgatar, no seio de nossas famílias e de nossas fraternidades locais, o ideal que Deus sonhou para cada ser criado. Não é possível apenas constatar as representações do Presépio em nossas Igrejas, residências e fraternidades, é preciso verdadeiramente contemplá-lo, vivê-lo e perpetuá-lo nas fibras do coração, especialmente dos mais jovens. Que o exemplo de Frei Gaspar, e de tantos outros irmãos que vieram depois dele, nos estimule a celebrar com maior ardor o Santo Natal e que a contemplação da fragilidade do “Menino santíssimo e dileto, nascido por nós no caminho e colocado no Presépio” (cf. OfP 15,7), nos transmita a minoridade de Francisco!

Escrito por Frei Vitor Batista, OFM.

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