O Lobo de Gubbio e o nosso tempo

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O texto da Legenda é longo e cheio de nuances; é um texto muito conhecido e representado em todas as possibilidades da arte: texto, música, teatro, pintura, dança, escultura e cinema. Vou sintetizar, e contando do meu modo, o capítulo 21 de I Fioretti: Francisco de Assis está morando em Gubbio. Aparece na região um terrível lobo grande, feroz e assustador. Devorava animais e pessoas. Instaura o medo. O lobo vivia ao redor da cidade, mas às vezes entrava no espaço urbano. As pessoas começam a andar armadas quando tinham que sair como se fossem combater. Sozinho não dava para enfrentar o lobo, tinha que ser em grupo. O medo do lobo paralisou a cidade. São Francisco é movido de compaixão pela situação das pessoas do lugar. Mesmo sendo aconselhado a não ir pelos que ali habitavam, Francisco de Assis quer ir encontrar o lobo.

Francisco de Assis reúne uns companheiros, põe toda confiança em Deus, faz o sinal da Cruz e “tomou o caminho que levava ao lugar onde estava o lobo”. Os companheiros seguem de longe. Os cidadãos de Gubbio também vêm para ver a cena considerada um milagre: o lobo vem ao encontro de Francisco. Diz a legenda que o lobo se aproxima com a boca escancarada. Chegando perto dele, Francisco faz o sinal da Cruz e o chama para mais perto. Pede em nome de Cristo que o lobo não faça mal a ele e a mais ninguém. Ao ouvir as palavras e o gesto abençoado de Francisco, o lobo fecha a boca, deixa de correr ao redor de Francisco, vem mansamente como um cordeiro deitar-se aos pés do Santo, como se tivesse morto. Francisco diz que ele fez muitos danos naquela terra, grandes malefícios, destruindo e matando criaturas de Deus; usa apropria força para ser ladrão e homicida levando toda gente a gritar contra ele e que a terra tornou-se sua inimiga. Mas Francisco mostra a que veio: quer fazer a paz entre o lobo e o povo de Gubbio. O lobo não deve mais ofender, e o povo entra com o perdão sem usar pessoas e cães para perseguir o lobo. Para mostrar que aceita e vai observar o que Francisco pede, o lobo mexe a cauda, orelhas e inclina a cabeça. Então, Francisco mostra detalhes do pacto: o lobo vai parar com as agressões e Francisco e o povo dão lhe alimento. A questão do lobo é a fome. Se ele receber a comida para com as feridas. Francisco pede que o lobo não lese mais nem pessoas e nem animais. O lobo promete fazer isso com uma reverente inclinação. Francisco pede uma prova para a confiante garantia da promessa e o lobo coloca a sua pata direita na mão de Francisco. E Francisco pede que, em nome de Jesus Cristo, o lobo o acompanhe até a cidade, sem medo, para concluir o tratado de paz em nome de Deus. O lobo, como um cordeiro manso segue Francisco. Os habitantes de Gubbio veem isto e ficam maravilhados. O fato se espalha pela cidade e todos vêm à praça para ver o lobo com São Francisco. E o Santo não perde a chance de falar ao povo: fala do juramento que o lobo fez diante dele de fazer a paz em troca de alimento. O povo aceita o pacto e promete continuamente nutrir o lobo. E, mais uma vez, o lobo coloca a pata direita nas mãos de Francisco. Houve uma grande alegria e admiração entre o povo, aumenta a devoção ao Santo porque o fato é aceito como um milagre de pacificação da fera. O povo louva e bendiz a Deus por ter mandado Francisco para o livrar do animal cruel. Dois anos depois, o lobo morreu de velhice. O povo sentiu muito a morte do lobo, pois acostumou-se a ver o lobo passear mansamente pela cidade, numa feliz recordação da virtude e da santidade de Francisco. Isto tudo foi contado em louvor de Cristo, Amém!

Francisco de Assis, naquele momento, morava na cidade de Gubbio. Era um peregrino de tantos lugares. Quem está na cidade tem que viver a cidade, e toda cidade tem sua graça e seus desafios. Estou escrevendo este texto, no século XXI, em tempos de ideologia e pandemia, onde a boca escancarada do lobo do ódio, da intolerância passeia de um modo devorador pela nossa “gubbio-brasilis”, deixando um rastro de conflito, agressividade, inimizades e total falta de respeito pela vida. Há um ranço perigoso no ar de atitudes, palavras e postagens violentas e sem noção. Realmente nas almas, nas mentes, nas ruas e nas mídias perdeu-se o bom senso. Alguma coisa nos devora em forma de política, economia e virulência. Este texto quer fazer uma releitura do clima tenso de Gubbio no século XIII aplicando-o ao nosso tempo. A história é um vai e vem de luzes e sombras. Ontem e hoje na mesma metáfora.

Autor: Frei Vitório Mazzuco

 

Fonte: Blog Frei Vitório

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