Santa Clara: A Graça da Fraternidade

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O dom mais alto que a experiência contemplativa de Clara ofertou à Igreja e a todo o mundo, é o testemunho de uma fraternidade evangélica comparada intensamente àquela vivida pela primeira comunidade cristã, feita “um só coração e uma só alma” (At 4,32) no apaixonado seguimento do Senhor Jesus.

Francisco e Clara propriamente não pensam em seguidores; agarrados pelo idêntico Amor, formados um nele, deixaram-se suspender pelo vento impetuoso do Espírito, e só de repente se apercebem que se estendeu o contágio de sua utopia.

Entre “as irmãs que o Senhor lhe deu”(Testamento de Santa Clara 25), Clara se põe então como serva, irmã e mãe, consciente de que verdadeiramente no interior daquela humanidade concreta e variada se encarna para ela o Verbo amante e crucificado. Contemplar não é sentimentalismo ou poesia, não é perder-se em representações vazias de um relacionamento romântico, pessoa a pessoa com o Onipotente, como se fosse possível atingi-lo em comunicação direta.

Não, Deus não se deixa tocar como um objeto, nem pelos sentidos humanos. Ele caminha sobre a terra, mas como um incógnito; o ser humano O pode encontrar somente no ser humano desde que, em Cristo, assim escolheu encontrar-se com Ele.

E é sob aqueles despojos miseráveis e grandes que solicita a fé e o amor de cada um.

Alguém pode crer de amar a Deus embalando-se nas imagens de sua fantasia religiosa ou nos ardores da sensibilidade facilmente emocionável diante do “magnífico” natural como do “sacro” litúrgico, mas não está seguro do engano de que seja somente a projeção de seu desejo de grandeza e beleza e potência e infinidade.

Clara, crescida na escola de Francisco, sabe que quando se consegue ler na criatura humana – talvez desfigurada pelos limites inevitáveis do egoísmo, da superficialidade, da ignorância, do pecado –o rosto do Amor traído, “desprezado, injuriado, e em todo o corpo repetidamente flagelado” (Segunda Carta a Santa Inês de Praga, 20) e posto à morte, então se pode gritar com certeza: “Nós temos conhecido e crido no amor”. (IJo 4,16).

Não há muito para crer se a pessoa a quem se diz “te amo”, com a qual se reparte com alegria o pão da vida e se inebria do vinho da familiaridade, é aquela que parece saciar plenamente o vazio da existência e que gratifica com a evidente, incessante oferta de si.

Mas há tudo para crer quando se diz “te amo”, lá onde não há algo de amável, onde parece perder o próprio dom numa mão furada e de desperdiçar a água da generosidade; é ali que se aprende verdadeiramente o que é o “dispêndio amoroso”, o segredo da pródiga liberalidade do Amor.

Sobre esta fé, Clara não teme de lançar-se com as irmãs no único fogo devorador da paixão de Deus, que dos diversos elementos aos quais se une faz uma só chama incandescente para a festa de todos.

E porque não se pode conservar escondido um incêndio nem conter o respirar do bem no seu efundir-se, Clara pede às irmãs de serem uma para a outra uma manifestação de Deus: “aquele amor que tendes no coração demonstrai-o externamente com os atos”. (Testamento de Santa Clara 59) Mas a vida fraterna é uma graça, não tanto por aquilo que dá a cada uma, de segurança, de sustento imediato, de ajuda física e moral; é uma graça sobretudo por aquilo que pede de si.

Se é somente no relacionamento que o ser humano conhece a si mesmo, se é pela ação dos outros que se livra da casca limitada em que se esconde a pérola da verdade, como não render graças a quem, estando perto, o provoca àquele amor que, exigindo o tudo e o em toda parte do dom silencioso e gratuito da vida, o faz autenticamente viver e saborear a sua liberdade?

A fraternidade é o termômetro que verifica o grau em que uma criatura é pobre, casta, obediente, porque alguém não sabe, até que é só, se está andando para cima ou descendo pelo caminho. Mas é quando o vizinho o despoja das forças e do tempo, dos bens exteriores e das pretensões interiores de bem, que pode medir a densidade de sua pobreza. É quando a fome de amor do outro o arranca à satisfeita pureza de um coração mantido em gelo e lhe pede o comprometimento até o espasmo, que aprende a conhecer o valor da castidade.

É quando obriga-o a ver com os olhos de um míope aquilo que ele crê de perscrutar com lucidez, que sabe as exigências abismais de sua obediência. E ignora o que seja a beatitude exaltante de alcançar somente os solitários cumes do espírito quem não desce a se aquecer na lareira da fraternidade.

Clara, porém, é demasiado mulher amante e concreta para iludir-se que uma semelhante graça não custe o esforço paciente e renovado de toda uma vida. Por isso, quer as irmãs “solícitas em conservar sempre reciprocamente a unidade da incansável caridade”(Forma de Vida de Santa Clara 10,7)

Então, fraternidade é alegria de condivisão total, onde isto não significa dizer que tudo “é meu”, mas é dizer do próprio, também o mais íntimo, `é teu’. É alegria de fazer-se novos todo dia um para o outro no generoso perdão recebido e doado. É alegria de ser continuamente salvos pelo Amor e de ascender juntos no tempo, mantendo cada uma bem viva a pequena chama de sua fidelidade, rumo ao reino dos céus onde o amor não tem mais sombras nem demoras.

Do livro “Como Fonte Selada”, tradução de Ir. Sandra Maria, das Irmãs Clarissas do Mosteiro Nazaré de Lages (SC)

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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