Semana Franciscana: O antídoto do cuidado contra a pandemia

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Os três ramos da Ordem Franciscana – os Frades Menores, as Irmãs Clarissas e os leigos – estiveram juntos para “uma conversa em família”, como disse o Vigário Provincial da Província da Imaculada Conceição, Frei Gustavo Medella, ao acolher a Irmã Maria Karolyne de Jesus Crucificado, Clarissa do Mosteiro Santa Clara, de Belo Horizonte, MG, e Hugo Leonardo Pereira Borba, Ministro da Fraternidade Santo Antônio dos Pobres da Ordem Franciscana Secular, em Volta Redonda, RJ, no encontro do segundo dia da Semana Franciscana que vai até o próximo sábado (09/10), numa promoção conjunta da Província Franciscana da Imaculada Conceição, da Conferência da Família Franciscana do Brasil, do Instituto Teológico Franciscano e da Editora Vozes, através de suas redes sociais.

O tema deste encontro foi “Francisco, Clara e a Ecologia Integral: as respostas franciscanas para a Pandemia”. Para começar, Frei Gustavo trouxe dois parágrafos (91 e 92) da carta encíclica Laudato Si’ (Louvas sejas) do Papa Francisco: “Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra”, destacou Frei Medella do documento do Papa.

À pergunta de Frei Medella – quais são as grandes doenças da humanidade que a pandemia fez escancarar e quais são os remédios que a nossa espiritualidade pode oferecer para esta doença? -, para Hugo a maior doença desta pandemia, talvez, é o vírus da falta do amor, como o próprio Papa Francisco afirmou. “O Papa vem relembrar que o maior vírus é o da indiferença, do egoísmo, da insensibilidade. E talvez o antídoto contra isso, como a irmã colocou muito bem, relembrando Santa Clara, é a essência do cuidado. A criação urge por cuidado, o ser humano urge por cuidado e nós, como seres relacionais, precisamos estabelecer isso”, acredita o franciscano secular Hugo. Segundo ele, o cuidado e a abertura fraterna como ensinou o Pobrezinho de Assis. “Precisamos sair, verdadeiramente, desse processo renovados e fazer desse momento um ato penitencial para se reconciliar com o Deusa e entender o real valor da vida”, disse.

Para Ir. Karolyne, o cuidado é a palavra-chave neste momento. “Pensando no contexto familiar de Clara, uma jovem rica e nobre, imagino que ela tinha a companhia de amas para cuidar dela em tudo. Mas ela faz o contrário e sai de si para cuidar das irmãs. Então, eu penso que ela é esse espelho do cuidado com o outro. Cuidado no sentido da escuta, da acolhida, cuidado até mesmo pela oração. Então, a gente pode ter uma atitude de ficar no negativo da pandemia, mas também a gente pode iluminar todas essas realidades com a luz do Evangelho. Quando a gente se depara com as limitações e vê a força de Deus que nos faz superar nossas limitações, que obra maravilhosa! Quando a gente olha para Francisco e vê aquele homem amante de Jesus, quanta riqueza a gente pode transpor nesse tempo! Então, precisamos ir além e acho que a nossa espiritualidade, que é espiritualidade de esperança, nos ajuda a olhar com outros olhos”, ensinou a irmã.

Frei Medella perguntou ao Ministro da OFS de que maneira a espiritualidade franciscana tem sido importante para ele e para sua família nesse tempo de pandemia. Para Hugo, os franciscanos e franciscanas miram no exemplo de São Francisco e enxergam com a ternura de Deus este momento. “O nosso carisma nos proporciona a fazer a experiência de entender através da dor, das perdas, do exercício da nossa solidariedade de encontrar esse Deus que se revela na dor e que se revela nesse momento tão difícil da história da humanidade. E a nossa espiritualidade franciscana é uma bússola que vai nos ajudando a navegar nesse mar tão turbulento, claro, com Jesus vai ao mastro. E Francisco vai nos mostrando o caminho e as respostas no cotidiano da vida”, acredita Hugo, contando que ele, a esposa e a sogra foram infectados pelo coronavírus. “Não foi um momento fácil, mas o amor que nos une ajudou a enfrentar esse momento”, explicou.

Para Ir. Karolyne, as irmãs se espelham em Santa Clara quando ela exorta Inês a ser colaboradora dos ‘membros fracos’. “A gente está aqui para sustentar a humanidade através da nossa oração. No caso da pandemia, quando nós ‘nos guardamos’, vemos isso como uma responsabilidade maior. Quando Deus nos poupa dessa experiência da doença, de enfermidade, a gente sente uma responsabilidade maior de interceder, de rezar, pelas pessoas. Isso também fortalece a nossa vocação enquanto missão de intercessoras”, explicou Ir. Karolyne. Mesmo vivendo em mosteiros como contemplativas, Ir. Karolyne explicou que foi necessário mais cuidado com as coisas que chegavam ao mosteiro. “As irmãs que saem estão mais atentas por onde andam, com quem falam. Na medida em que eu me cuido, eu também estou cuidando do outro. Então, tem sido uma experiência muito forte de ‘sentir com’, de sentir com a humanidade, de sentir com os irmãos. Muitas pessoas ligam pedindo orações porque tem familiares internados, outras pessoas porque perderam familiares. E aí a gente vê o nosso Pai São Francisco com o cuidado com o irmão, com o cuidado com o leproso, o cuidado de nossa Mãe Santa Clara com as irmãs enfermas. Então, tem sido assim um momento de aprofundar a nossa espiritualidade”, explica a religiosa.

Outro ponto que Frei Medella tocou foi a crueldade desta doença até na hora da partida dos entes queridos. “Que palavras pautadas na esperança cristã poderíamos dizer àqueles que perderam seus entes queridos e nem sequer tiveram a chance de fazer uma celebração de despedida?”, perguntou Frei Medella.

Para Ir. Karolyne, é preciso não deixar para depois certas atitudes que a gente gostaria de fazer ou dizer seja para os nossos amigos ou para nossos familiares. “Acredito que é muito consolador quando se perde alguém e se tem um sentimento de gratidão por ter vivido plenamente com ele. Acho que essa pandemia nos fez refletir sobre o momento presente e viver com intensidade no amor. Fazer tudo e dizer tudo como se só tivesse o agora. E olhando a irmã morte com esperança, porque é para a vida eterna que vamos, para o convívio com Deus. Então, a gente não pode perder de vista a união e o aconchego do coração do Pai que nos espera. Às pessoas que perderam os entes queridos, não percam a esperança. Deus é maior e nos sustenta. A gente não tem capacidade de compreender tudo o que está acontecendo, mas a fé nos diz que Deus é maior do que tudo isso”, consolou a Irmã Clarissa.

Como professor de Humanas, para Hugo a adaptação aos meios tecnológicos nesta pandemia foi desafiante e paradoxal. “Eu, por exemplo, sou da área de Humanas e tive certas dificuldades com os meios tecnológicos. O início foi muito desgastante para fazer essa relação com o nosso público, que no nosso caso eram os estudantes. Nós percebíamos e percebemos até hoje grandes dificuldades em acessibilidade, deixando evidente as desigualdades: uns com muitos recursos e outros, das periferias e das escolas públicas, com menos recursos e até demonstrando uma relação angustiante. Nas nossas fraternidades tínhamos irmãos com algumas facilidades de acessar esses meios e criar proximidades. Outros tinham dificuldades e se isolaram mais. Então, tivemos de exercer a sensibilidade para buscar outras formas de contato, como uma ligação de telefone. A gente só fica trocando mensagens e isso vai levando a um esgotamento e deixando uma relação fria. Essa pandemia nos trouxe proximidade, como agora, – eu que moro em Volta Redonda, estou com a irmã em Belo Horizonte e o frei em São Paulo – mas também vivemos os desafios das desigualdades. Os meios tecnológicos, às vezes, parecem democráticos, mas nem todo mundo tem a mesma acessibilidade e essa mesma oportunidade de desfrutar dessa tecnologia. Vivemos então essa relação paradoxal”, lamentou o professor.

Segundo o texto de nº 4 das Admoestações, São Francisco diz que “os que estão constituídos sobre os outros não se vangloriem dessa superioridade mais do que se estivessem encarregados de lavar os pés aos irmãos”. E Frei Medella perguntou ao franciscano secular Hugo: Que lições podem tirar os políticos desses ensinamentos de São Francisco, especialmente neste tempo de pandemia?

“São muitas as lições. Infelizmente, o cenário que nós temos percebido e analisado não vai muito ao encontro desta grande pedagogia que o nosso Pai oferece nesta reflexão”, lamentou Hugo, citando São João Paulo VI, que afirmou para cristãos e católicos do mundo inteiro que a política é um exercício supremo da caridade. A política como possibilidade do bem comum, como cuidado, como zelo pela casa comum. “Infelizmente, temos observado um cenário difícil de falta de compromisso com a integridade da pessoa humana, sobretudo nesses tempos difíceis em nosso país. É preciso que nós estejamos atentos e vigilantes no sentido de reconstruir esse processo, a partir de encontros, de diálogos verdadeiros. Colocar no centro a pessoa humana, sobretudo os mais fragilizados, os mais desprovidos de nossa sociedade. Nós estamos diante de situações gritantes e cabe a nós, responsáveis por tudo isso, mudar esse cenário conjuntural. Esta semana esteve estampada nos jornais uma foto mostrando uma fila imensa de pessoas em busca de ossos para se alimentar e alimentar seus filhos. As revelações desta pandemia têm apresentado um Brasil esfacelado, um Brasil destruído, que precisa se reerguer e colocar no centro o pobre, aqueles e aquelas que são os mais desprovidos de seus direitos”, enfatizou o professor.

Para ele, não dá mais para observar a política como um desserviço à humanidade. “Como você, frei, colocou muito bem, a política tem que ser uma arte de serviço. Nossos representantes, nossos políticos, têm reponsabilidades e foram delegados para isso. É preciso que tenhamos maturidade para reconstruir esse processo, com a nossa vigilância, com a nossa participação. Nós, leigos e leigas, temos essa responsabilidade de atuar nesse mundo e contribuir para que ele seja a edificação dos louvores da glória de Deus pelo ser humano, pela vida na sua totalidade”, completou.

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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