Ser mulher Indígena é uma sabedoria de Deus!

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Sou mulher indígena da etnia Tukano, Ñahi Di’peporã mahkõ, chamada Dhuigó Juciele Aguiar Moura, Irmã Catequista Franciscana. Sou filha da Mãe Argila, mas sou também filha de muitas gerações, trago comigo todos os homens do meu clã – Ñahi Di’peporã Mahsã da etnia Tukano, e, homenageio as mulheres das diferentes etnias: Dessano, Tuyuka, Ye’pa Mahsã que integram a comunidade. Sem elas, nós da nova geração não existiríamos.

Conhecendo um pouco da história de minhas bisavós Mariquinha, Isabel, Dionísia e outras mulheres que foram fazendo parte da minha vida, percebi que são mulheres guardiãs, sábias e místicas.

As mulheres indígenas sempre encontram formas de resistir, em vista das futuras gerações. No dia a dia, são desafiadas a: sentir-se moradora do lugar e, portanto, responsável pelo cuidado dele; transmitir a origem de seu povo, sua história, os costumes, a língua; interagir, com sabedoria, em diversos lugares estranhos a si mesma, além dos cuidados domésticos, o trabalho na roça, subsistência e cuidados dos filhos. Toda mulher é sempre passageira e estrangeira desde o seu nascimento, muitas vezes até seu casamento é predestinado com outro grupo étnico, diferente dela.

O desafio de uma filha, neta e bisneta é escutar, acolher, é escolher com sabedoria o que levar da vida e passar às gerações futuras. A mulher tem poder onde ela estiver, por meio dos trabalhos na roça, artesanato, cuidado dos filhos e preparação na educação das filhas, repassando sua sabedoria

Cresci pensando que toda mulher era obrigada a casar e ter filhos, que sem um homem era incapaz de viver. E ainda, que a mulher nasceu para dar filhos (homens) ao marido, como continuidade de sua etnia, sua herança.

Sou muita grata a minha mãe que lutou e luta por suas filhas, para construírem uma vida diferente. Mesmo em seu silêncio, abriu meus olhos frente a realidade de onde veio, antes do seu casamento.

Na Comunidade, as mulheres sobrevivem enfrentando cotidianamente o preconceito do machismo. Quando desejam uma vida diferente, melhor, buscam realizar seus sonhos independente de seus familiares. Até existem história de mulheres fugitivas, que quebraram a aliança entre as etnias.

Diante deste contexto sempre me pergunto: o que é ser indígena? O que é ser franciscana? E que é ser consagrada? Essas realidades distintas que interagem dentro de mim, me encantam e me chamam a viver plenamente. Tenho consciência de que trago três raízes principais: mulher indígena, franciscana e consagrada. São raízes que preciso regar, adubar, cuidar como sentinela. Elas são fundamentais na minha vida, me ajudam a construir e desconstruir cotidianamente o novo. O importante é “não perder de vista o ponto de partida”, como nos diz nossa Irmã Clara de Assis. Vivo isso como uma opção de vida e com grande responsabilidade. Preciso diariamente de escuta, reflexão e muito aprofundamento.

Como as demais mulheres indígenas, necessito silenciar e escutar o amanhecer e o anoitecer para tomar decisão, resistindo sempre no sonho de ser diferente, não por ser religiosa, mas por ser mulher indígena. Necessito cultivar a mentalidade de que toda mulher, espírito grande de liderança, é independente para escolher seus sonhos, dentro da cultura e religião ou onde estiver. Tenho certeza de que algumas questões da minha origem sempre permanecerão comigo, nutrindo outras origens culturais, religiosas, políticas que se agregarão. Essa lógica do cotidiano, exige muito discernimento para assimilar, aos poucos, aquilo que é bom para mim e para as outras pessoas. São pequenos passos a cada dia. “se você quiser servir a Deus, faça poucas coisas, mas as FAÇA BEM”.

Eu sou feliz naquilo estou vivendo, experimentando e conhecendo. Mulheres de diferentes culturas enriquecem o meu viver e me ajudam caminhar. Sou grata às pessoas que estão ajudando a realizar os sonhos meus e de todas as mulheres indígenas.

Neste processo de aprendizagem cultivo uma mensagem da frase atribuída à São Francisco de Assis “comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível e de repente você estará fazendo o impossível”.

Por Irmã Juciele Aguiar Moura

Fonte: CICAF

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