A Eucaristia na mística franciscana: A piedade eucarística de São Francisco

607

O ensinamento mais límpido e mais persuasivo a respeito da eucaristia encontra-se na piedade de São Francisco. Colocava em prática todos os dias aquilo que proporia como palavra e escrito. Podemos dizer que seu ensinamento não era fruto de elaborações teóricas, mas provinha de profunda convicção Interior e da experiência cotidiana. Encontramos, com efeito, plena correspondência entre palavras e aspectos doutrinais acima mencionados e as atitudes concretas testemunhadas pelos discípulos. Nisto se fundamenta uma peculiaridade do espírito de São Francisco transmitida a seus filhos, como aparecerá na tradição franciscana: fazer com que a palavra seja acompanhada do testemunho de vida, ensinar também com o exemplo.

Tomás de Celano apresenta um sugestivo retrato da piedade do santo em todos os aspectos: “Ardia com fervor que vinha do mais profundo de seu ser para com o sacramento do corpo do Senhor, pois ficava literalmente estupefato diante de tão amável condescendência e de tão digna caridade. Achava que era um desprezo multo grande não assistir pelo menos a uma missa cada dia, se pudesse. Comungava multas vezes, e com tamanha devoção que tomava devotos também os outros. Como tinha toda reverência para com tudo aquilo que se deve reverenciar, oferecia o sacrifício de todos os seus membros e, recebendo o cordeiro imolado, imolava o seu espírito com aquele fogo que sempre ardia no altar de seu coração. Amava a França por ser devota do corpo do Senhor e nela desejava morrer por amor dos sagrados mistérios. Certa ocasião quis mandar os frades pelo mundo com preciosas âmbulas para guardarem o preço de nossa redenção no melhor lugar, onde quer que o encontrassem guardado de maneira menos digna. Queria que tivessem a maior reverência para com as mãos sacerdotais pela autoridade divina que lhes tinha sido conferida para a confecção do santo sacramento. Dizia frequentemente: ‘Se me acontecesse de encontrar ao mesmo tempo um santo descido do céu e um sacerdote pobrezinho, saudaria primeiro o presbítero e me apressaria a beijar suas mãos.’ Até diria: Espera, São Lourenço, porque as mãos deste homem seguram a Palavra da vida e têm um poder mais que humano” (2Cel20 1).

Destacam-se os seguintes elementos ou aspectos: estupefação diante do mistério eucarístico, como expressão da benevolência divina; participação cotidiana na missa; comunhão frequente; oferta de si mesmo e união com o sacrifício de Cristo, a ponto de se tomar um altar vivo; amor e simpatia pela França (segundo os estudiosos, na região da Valônia que correspondia à província franciscana da Bélgica desenvolvia-se intenso movimento eucarístico que levaria à instituição da festa de Corpus Christi); envio dos frades com o intuito de fornecer às Igrejas cálices preciosos para guardar dignamente o sacramento; respeito pelos sacerdotes em razão de seu ministério eucarístico. A eucaristia, durante sua celebração, em sua realidade salvífica como nas pessoas, nos objetos e nos lugares que a circundam, é objeto de uma visão de fé viva, de amor intenso e de sincera devoção. Nada falta neste quadro traçado com tanta delicadeza.

Todos os outros testemunhos que dispomos fazem, com este, como que um coro unânime e concorrem para confirmar e sublinhar os traços descritos. Eco fiel das palavras de Tomás de Celano é o texto de São Boaventura: “O sacramento do corpo do Senhor, o inflamava de amor até ao fundo do coração: admirava, espantado, misericórdia tão amável e amor tão misericordioso. Comungava muitas vezes e com tanta devoção, que comunicava aos outros e sua devoção quando todo inebriado do Espírito e inteiramente absorto em saborear o Cordeiro imaculado era arrebatado em frequentes êxtases” (LM 9,2).

A respeito de suas exortações à escuta “fervorosa” da missa, da adoração “devota” do corpo do Senhor, da honra “particular” aos sacerdotes falam os Três companheiros (14) e o Anônimo perusino (98). Seu cuidado para com o modo de guardar a eucaristia e o respeito para com os sacerdotes são evocados pela Legenda perusina (80). A Legenda perusina (17) e o Espelho da perfeição (87) falam de seu desejo e empenho em participar da eucaristia. De seu amor para com a limpeza das Igrejas, dos altares, bem como “de todas as alfaias que servem para a celebração dos divinos mistérios” falam a Legenda perusina (18), etc.

Outro aspecto que merece reter nossa atenção é o de seu especial amor pela escuta da palavra evangélica durante ou após a missa. Trata-se da valorização da palavra de Deus e de sua ressonância na vida. Nas anotações feitas por Frei Leão no Breviário de São Francisco se pode ler: “Fez escrever também este Evangeliário e quando, devido à doença ou outro impedimento manifesto não podia ouvir missa, pedia que lhe lessem a passagem evangélica prescrita para a missa daquele dia. E assim o fez até sua morte. Argumentava desta maneira: ‘Quando não posso ouvir missa, adoro o corpo do Senhor na oração e com o olhar da mente, do mesmo modo que o adoro quando o contemplo durante a celebração eucarística.’ Depois de ouvir ou ler o trecho evangélico, o bem-aventurado Francisco devido a sua profunda reverência para com o Senhor, sempre beijava o livro dos Evangelhos” (Breviário de São Francisco).

Idêntico testemunho se encontra na Legenda perusina (50): “Quando não podia assistir à missa. Francisco queria que lhe lessem o Evangelho do dia. antes da refeição” [cf, também EP 117). Este fato demonstra não somente a coerência com o que ensinava com relação à veneração para com a palavra e o corpo do Senhor – diríamos hoje, a relação entre palavra e rito, entre liturgia da Palavra e liturgia eucarística, entre a mesa da Palavra e a mesa do Corpo de Cristo – mas revela também o lugar que a missa ocupa em sua jornada de todos os dias: enquanto ouve a Palavra do Evangelho, adora interiormente o corpo de Cristo, insere-se espiritualmente no ritmo da celebração eucarística de todos os dias, vencendo todo impedimento material e transcendendo o rito da celebração.

No episódio de sua conversão vemos que a palavra do Evangelho ouvida na missa provocava na consciência de Francisco imediata resposta: “Um dia enquanto assistia ele à missa dos Apóstolos devotamente ouviu o trecho do Evangelho onde Cristo envia os discípulos a pregar, ensinando-lhes a maneira evangélica de viver: não levar ouro nem prata, nem dinheiro no cinto, nem sacola para o caminho. nem duas túnicas … reteve estas palavras firmemente na memória e, cheio de Indizível alegria, exclamou: “É isso o que desejo ardentemente; é a isso que aspiro com todas as veras da alma” (LM 3, 1).

A Legenda dos três companheiros diz que “ele compreendeu isto melhor depois da explicação do sacerdote” (25). O episódio, que lembra fato análogo ocorrido com Santo Antão abade, é altamente significativo porque nos permite conhecer o “lugar do nascimento” da vocação de Francisco, isto é, a celebração eucarística, e ilumina os seus sentimentos interiores de intensa participação no mistério da Palavra e do Corpo de Cristo.

Não podemos ignorar o que escreve em seu Testamento a respeito da visita às Igrejas e a oração que costumava fazer: “E o Senhor me deu tanta fé nas Igrejas que com simplicidade orava e dizia: ‘Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas Igrejas que estão no mundo inteiro, e vos bendizemos porque por vossa santa cruz remistes o mundo” (Test 4-5).

Embora esta oração não tenha referência explícita à eucaristia, seu conteúdo e sobretudo a referência ao local (na Igreja: aqui se encontra em vários códices), além de sua interpretação e de seu uso na Ordem, não deixam dúvida alguma quanto a seu cunho eucarístico. Toda igreja que se visita ou se vê de longe é um convite a uma oração revestida de adoração e de bênção, a Cristo, cujo corpo está presente no sacramento conservado nos templos. A fé do santo vai para além de cada Igreja e se dilata com liberdade atingindo a Cristo nos sinais exteriores de sua presença, unindo, na oração, adoração e louvor, a eucaristia e a cruz. A base litúrgica da oração – uma antífona do oficio da festa da Santa Cruz – não tira a característica original impressa pela piedade de Francisco. Que esta oração lhe fosse particularmente cara e que desejava que fosse recitada pelos frades, aparece claramente em 1Cel 45, LM 4,3 e LTC 37.

A última citação (LTC 37), falando da fidelidade dos frades às exortações do santo, observa que “quando encontravam alguma igreja ou cruz, ajoelhavam-se para rezar e devotamente diziam: ‘Nós vos adoramos … “‘.

Esta oração não está, pois, ligada à visita a uma Igreja, nem tampouco tem relação com a forma devocional da visita ao Santíssimo que estava nascendo. Esta restrição não deve surpreender: antes de tudo isso demonstra que São Francisco não corre atrás das novas formas de piedade, mas permanece apoiado na fé que adora, na atitude de oração, em sua sobriedade e substância, mais do que em suas modalidades exteriores. Mais uma vez emerge seu equilíbrio e sua interioridade, o desejo de encontrar-se com seu Senhor onde se encontram sinais que apontam para a cruz e para a eucaristia.

Dicionário Franciscano – Editora Vozes

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

DEIXE UM COMENTÁRIO

Deixe seu comentário
Coloque seu nome aqui