A Morte na Mística Franciscana – Parte 04

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Francisco de Assis e a irmã morte

Por Frei Vitório Mazzuco

Tema estranho quando olhamos a partir dos limites de nossa compreensão e aceitação. Mas é natural em se tratando de Francisco de Assis, que preparou o momento de sua passagem deste mundo para a eternidade. Reuniu os Irmãos, recebeu os doces e a presença de sua amiga Jocoba de Settesoli, compôs um hino às Criaturas para ser cantado naquela hora, arrumou um despojado leito na terra nua. Por amar intensamente a vida, não teve medo da morte. Morreu no outono de 1226 em meio às metamorfoses da estação, o amadurecimento das folhas, o cair para o chão, renascer em todos os galhos e florescer; esconder nos confinados canteiros do inverno e renascer na Eterna Primavera.

Francisco venceu-se e, no vencer-se, destruiu seus medos, sobretudo o medo da morte. Porque reconstruiu o Reino, se sentiu seguro nele para sempre. Abraçar a morte fez parte de seu ser livre. Sêneca, na carta a Lucilius, escrevia: “Quem faz assim pratica a liberdade do pensamento, pois quem aprendeu a morrer, desaprendeu ser escravo”. Francisco não se prendeu a nada, foi livre para o regresso ao Paraíso. Ao fazer de sua morte uma celebração tirou o trágico do instante. Viveu a vida moldando cada dia o eterno. Para ele, cada segundo da vida continha toda a vida em sua plenitude, por isso não sabia do último dia. Disse que todos devem recomeçar; fazer a sua parte.

Desejou o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar. Fez disso a expressão de sua vontade. Compilou uma anotação de todas as maravilhas que viu na vida. Cantou um cântico de luz na sombra da morte. Sabia que ia chegar ao céu e ser imediatamente reconhecido por todos os sofridos leprosos que chegaram antes, e pelo Filho do Homem, que ia identificar e contemplar nele a mesma tatuagem da Paixão, as marcas do Amor, fundidas num grande e acolhedor abraço!


Pequena meditação para o Dia dos Finados

Por Frei Almir Guimarães

Novembro, mês dos agapantos brancos e azuis, com esses enormes pescoços baloiçando em nossos jardins ao sabor dos ventos. Novembro, mês em que nos recordamos daqueles que nos precederam na aventura de viver e que nos ajudaram a construir nosso semblante interior. Mês de saudade e de esperança.

♦ Rezamos pelos mortos. O que está por detrás desta prece? Qual o seu pano de fundo? Esses que se foram… será que os amamos? Será que guardamos mágoas de alguns deles? Vida, morte, sepultura. Diante da morte: incompreensão, revolta, paz. Quando rezamos pelos mortos essa teia de sentimentos nos invade: a lembrança do que se foram nos envolve, estão perto, pedimos que o Senhor os liberte de toda sorte de escuridão e que eles sejam estrelas brilhando no firmamento.

♦ Em nossa oração pelos mortos não se trata de compor frases, se mostrar semblante cavernoso, de usar palavras que ninguém entende. Rezamos a partir de nossa fragilidade. Somos seres vulneráveis e simples, feridos e cheios de expectativas, voltamos para um além de nós mesmos que esperamos ou que nos espera. Cada vez que levamos ao cemitério um ser que amamos é nossa morte que se desenha no horizonte.

♦ A oração pelos que partiram não nos poupa de viver e de pensar em nossa própria finitude, em nossa própria morte. Pensamos nela com serenidade. Esperamos, não se sabe como, estar em companhia daqueles que nos precederam. Será preciso olhá-la sem pavor, face a face. Essa meditação parece mais densa quando levamos o corpo de um ente querido ao cemitério. Será preciso preparar-se da melhor forma para o gran finale.

♦ A oração pelos mortos nos ensina que os laços de amor subsistem após a morte. A oração incita o nosso coração a continuar a amar para além do visível e do imediato. Tudo se torna dilacerante quando a morte ocorre em situações dramáticas. Mais fortemente rezamos pelos que se foram.

♦ Este que se foi está ainda perto. Falamos a Deus a seu respeito, mesmo se num primeiro momento nossa oração é tecida de revolta e molhada de lágrimas, circulando num mar de incompreensão. Se rezamos pelos mortos é porque temos a certeza de que Deus “pode ainda fazer alguma coisa”. “Vim para que tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

♦ Há uma reciprocidade entre nós e os que se foram. Pedimos por eles e eles pedem por nós. Os laços que fomos tecendo em vida com eles foram sendo ampliados, purificados, enobrecidos por Aquele que está na origem de todo amor e de toda ternura. Destarte a grande família humana encontra-se mais intensamente unida para além dos limites habituais de espaço e de tempo. A Ressurreição de Cristo dilatou os limites de nossos horizontes para que não houvesse mais distância entre os daqui e os de lá. Há uma única família de vivos e mortos. Péguy: “Não se trata de chegar junto a Deus uns sem os outros. Será preciso ir juntos para a cada do Pai”.

♦ Junto ao túmulo de nossos entes queridos, na liturgia solene, no silêncio de nosso quarto pedimos que nossos entes queridos estejam na glória e sejam nossos intercessores. Bela esta prece de um Ritual dos Finados: “Senhor, tu nos revelaste que junto de ti os mortos vivem para sempre. Os que santificaste finalmente vivem na felicidade. Os olhos de teu servo… se fecharam definitivamente para a luz do dia e se quisermos reencontrar seu sorriso precisamos, de nossa parte, fechar os nossos olhos. Dá a teu servo…. o que todos desejamos, tu que nos criaste por amor para que pudéssemos conhecer teu rosto. Por Cristo Nosso Senhor. Amém”.

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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