“Dilexi Te”: A Exortação do Papa Leão XIV e sua íntima comunhão com os pobres e com Aparecida

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Por Frei Erlison Campos, OFM.

Ao ler a Exortação Apostólica Dilexi te (“Eu te amei”), do Papa Leão XIV, salta aos olhos sua profunda intimidade com os pobres. Impressiona a naturalidade e a propriedade com que ele fala sobre as diversas ordens, congregações e santos que dedicaram a vida aos mais necessitados — de São Francisco de Assis a São Camilo de Léllis, de São João de Deus às Irmãs da Caridade. O Papa cita, inclusive, a santa brasileira Dulce dos Pobres, reconhecendo nela um ícone contemporâneo da misericórdia encarnada, “uma mulher que viu em cada ferida humana a presença viva de Cristo crucificado e se ajoelhou para servi-Lo” (Dilexi te, 94).

Essa familiaridade de Leão XIV com a pobreza evangélica não é apenas conceitual, mas existencial. Sua própria trajetória missionária, marcada pela presença entre comunidades simples e por uma vida partilhada com os pequenos, confere à sua palavra uma força testemunhal. Ele fala dos pobres como quem os conhece pelo nome e os reconhece como mestres do Evangelho.

Talvez, porém, o que mais chame a atenção em Dilexi te seja a profunda sintonia do Papa com o Documento de Aparecida (2007). É notável como Leão XIV cita e se deixa inspirar por esse texto decisivo da Igreja na América Latina e no Caribe, que tanto marcou o pontificado de Francisco. Em vários momentos, Dilexi te retoma a linguagem e o espírito de Aparecida: a opção preferencial pelos pobres como exigência da fé, a missão como saída de si para o encontro, e a centralidade do rosto de Cristo nos que sofrem.

Leão XIV escreve:

“Na opção por reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas” (Dilexi te, 3).

Essa afirmação ecoa diretamente o Documento de Aparecida, que ensina:

“A opção pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza” (DAp 392).

Ao longo da exortação, Leão XIV retoma constantemente o mesmo eixo teológico e pastoral de Aparecida: a experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo, que conduz necessariamente ao compromisso missionário e social. Em perfeita sintonia com o número 14 de Aparecida — “O encontro com Cristo é o início de toda verdadeira evangelização” —, o Papa afirma que “só quem contempla o amor de Cristo é capaz de perceber a sua presença viva nos pobres e deixar-se transformar por ela” (Dilexi te, 2).

A Exortação também reflete a espiritualidade de uma Igreja “em saída”, chamada a ir às periferias existenciais, conforme Aparecida 548: “A missão não se realiza apenas por palavras, mas sobretudo por gestos e atitudes de proximidade”. Essa dimensão é visível quando Leão XIV escreve que “a Igreja deve ser pobre com os pobres, lugar onde os pequenos têm um espaço privilegiado” (Dilexi te, 21).

O Papa fala com vigor missionário e ternura pastoral. Ele não trata os pobres como destinatários da ação da Igreja, mas como protagonistas da revelação: “No rosto ferido dos pobres encontramos o sofrimento dos inocentes e, portanto, o próprio sofrimento de Cristo” (Dilexi te, 9). A mesma convicção se encontra em Aparecida 257: “O rosto sofredor de tantos irmãos e irmãs é o rosto do Senhor que nos interpela e nos chama a uma conversão solidária”.

Por fim, Dilexi te é mais do que um documento social: é um texto espiritual, quase um hino ao amor preferencial de Deus pelos pobres. Ele convida a Igreja a reencontrar o coração do Evangelho no serviço humilde, na partilha e na misericórdia. Assim como Aparecida, Leão XIV reafirma que a fé autêntica se traduz em compromisso concreto: a evangelização não se cumpre sem caridade, e a santidade não floresce sem compaixão.

Com a autoridade de quem vive o que escreve, Leão XIV mostra que amar os pobres é o caminho mais seguro para amar a Deus. Sua exortação é, ao mesmo tempo, memória e profecia: memória de tantos santos e missionários que fizeram da caridade o centro da fé, e profecia de uma Igreja que, olhando para os pobres, reencontra o rosto de Cristo.

Fonte: franciscanosamazonia.org.br

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