Entrevista: Justiça, Paz e Integridade da Criação, com Frei Marcelo Toyansk, OFMCap

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FREI MARCELO TOYANSK, OFMCAP

Frei Marcelo Toyansk Guimarães, paulistano, é frade franciscano capuchinho. Formado em teologia e especialista em Bíblia. Desde 2016 atua na animação e coordenação do serviço de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC), já contribuiu na coordenação deste serviço junto à CRB-RJ e, a partir de 2017, assumiu a coordenação do JPIC dos Frades Capuchinhos do Brasil. Na CNBB, Estado de São Paulo, é assessor da Comissão Justiça e Paz. Atualmente está contribuindo na Articulação Nacional de Pastoral da Moradia e Favela na Igreja do Brasil, além de atuar junto às Pastorais Sociais, como
a CPT e a Pastoral da Moradia.

1. Frei Marcelo, como a Justiça, Paz e Integridade da Criação nasce como serviço dentro do carisma de Francisco e Clara de Assis e se mantém contemporânea?

Francisco de Assis é o santo da paz, o patrono da ecologia e o padroeiro dos animais. A partir de sua mudança de vida fez uma experiência de relações justas e reconciliadas, sendo irmão dos mais pobres e sofredores. Ao longo dos séculos do movimento franciscano, persiste a marca da “fraternidade para com os pobres”, de uma relação de irmandade “com toda a criação” e o “cultivo e promoção da paz”.

Clara de Assis expressa muito forte também a vida de pobreza radical e o cuidado com os mais sofridos. Alimentada pela vida de oração intensa irradiava paz e desejava um mundo justo e fraterno. Sendo assim, esses valores passam a serem intrínsecos a nós, franciscanos e franciscanas. Quando, no final do Concílio Vaticano II, o então Papa São Paulo VI instituiu o serviço Justiça e Paz na Igreja, nós igualmente o assumimos em nossas Ordens e Fraternidades, em vista de impulsionar e fortalecer valores que são bíblicos e genuinamente de nosso carisma.

Sobre a JPIC, como parte do DNA franciscano, recomendo a leitura do texto Justiça, Paz e Integridade da Criação: Identidade Franciscana, disponível no site da CFFB.

2. Dentro das Ordens, Movimentos, Congregações inspiradas em Clara e Francisco é possível encontrar expressões singelas de JPIC junto à sociedade civil em relação ao meio ambiente, ao diálogo inter-religioso, aos direitos humanos. Poderia mencionar as dificuldades que o serviço enfrenta junto aos organismos religiosos, eclesiais e civis?

Os valores bíblicos “justiça”, “paz” e o “cuidado com a criação” provocam a vivência do Evangelho na realidade em que estamos e exige de nós posições e mudanças em meio a uma sociedade que se adapta à desigualdade social, cultiva a rivalidade e o egoísmo e caminha para um exagerado “usa e joga fora”, ou seja, um consumismo sem limite.

Em uma sociedade com tanta injustiça e descarte das pessoas e do meio ambiente o movimento JPIC é uma grande provocação e uma “bússola” para a vivência do Evangelho de forma autêntica. A injustiça e o descarte estão enraizados na nossa cultura e mentalidade de tal forma que também nós franciscanos, muitas vezes, nos deparamos com várias incoerências em nossa prática. Há necessidade de uma “mudança de mentalidade”, de estilo de vida pessoal e fraterno, de uma formação mais aprofundada, para não sermos injustos e cultivarmos cizânias ou competições, nem fazer uso desmedido dos bens.

Precisamos aprofundar a vivência do carisma, atualizando-o, sem perder sua força e pontos inegociáveis, dentre os quais, a “justiça”, em um país tão desigual; a “promoção da paz”, em um mundo em guerra e em um país com tanta violência, e o “cuidado ou integridade da criação”, diante de tanta destruição ambiental já a comprometer a subsistência da vida humana. A partir disso, percebemos porquê o serviço JPIC encontra desafios em meio às instituições. No fundo desafia a cada um de nós e, por vezes, as instituições que precisam encontrar coragem, a exemplo do Papa Francisco, que dia a dia nos ensina o que fazer para uma transformação das estruturas eclesiais mais em conformidade com o Evangelho.

Não podemos ficar “sonolentos”, preocupados só com o bem-estar nas nossas fraternidades. Precisamos encorajar-nos pelo Evangelho para pensarmos e construirmos uma “Igreja em saída” a partir de nossas fraternidades e Ordens. Somos franciscanos não por conveniência ou para pertencer a um grupo para conviver. As motivações são superiores e somos franciscanos para viver em uma “fraternidade conforme o Evangelho de Jesus Cristo”, sendo um sinal para o mundo ferido e cansado.

3. Recentemente celebramos 02 anos da Fratelli Tutti (04 de outubro de 2020), inspirada no ideal de vida franciscano. Por meio de quais passos você incentiva a promoção da organização a nível local, regional, distrital e nacional para contribuirmos tal como o Papa Francisco adverte?

A Encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, condensa vários aspectos da vivência do Evangelho na sociedade, ao que chamamos “Ensino Social da Igreja”. Na verdade, Jesus não viveu seu intenso amor só na “casa de Nazaré”, mas em todos os espaços da sociedade de sua época, tantas vezes presente na sinagoga, no templo, em meio aos povoados, vindo até a morrer na capital Jerusalém. Jesus está em meio às questões culturais, por exemplo, quando questiona o sábado, também em meio às questões econômicas, colocando o dinheiro a serviço da vida e não como um deus; em meio também à vida das famílias, visitando as casas e assim por diante.

Precisamos aprofundar a vivência de Cristo em todas as nossas realidades, a partir de um aprofundamento do que a Igreja chama de “Doutrina Social da Igreja” e que o Papa Francisco enriqueceu nos últimos anos com a Laudato Si’, Fratelli Tutti e a Evangelii Gaudium. É importante fazermos leituras compartilhadas destas Cartas nas fraternidades, com auxílio de assessorias, bem como fazermos uso dos diversos materiais interativos e didáticos dessas cartas. Também ajuda participarmos dos processos que são filhos delas. Da Laudato Si’, temos como fruto o Sínodo para a Amazônia, a Economia de Francisco e Clara e o Pacto Global pela Educação.

Da Evangelii Gaudium, temos a convocação para sermos “Igreja em saída”, nas “periferias”, nas favelas. Demos passos nessa direção, concretamente, em todas as esferas da nossa vida (também distrital, regional e nacional).

Da Fratelli Tutti temos muitos elementos que contribuem com as relações fraternas, em relação ao diálogo e o cultivo da paz, bem como o envolvimento na política, o que se faz irrenunciável. Faz-se necessário termos uma atuação de “Fé e Política” em todas as esferas, diante do nível desencontrado e confuso a que chegamos neste campo.

O Papa Francisco aborda aspectos intrínsecos ao carisma franciscano nestas Encíclicas, precisamos caminhar mais e mais com seu Magistério. Um exemplo prático de gestos possíveis, no mês que marca os dois anos da Fratelli Tutti, podemos fazer posts com frases da Fratelli Tutti em relação ao diálogo, bem como do valor da política e fazer com que sejam veiculadas em todas as nossas redes. Estamos em um período de eleições, precisamos atentar-nos para o uso da “rica bagagem” que temos. Há diversas iniciativas simples e possíveis para todos não podemos ser “sonolentos”, precisamos acordar para sermos uma “Igreja em saída”. Como diz Dom Hélder, o mandamento é “amar a Deus e ao próximo”, se vivermos o amor ao próximo de verdade, vivemos já metade do mandamento.

4. A população em situação de rua aumentou drasticamente no Brasil. Podemos trazer em nossa memória pessoas próximas em situações desumanas. Próximo a isso, em breve temos o Dia Mundial do Pobre, em 14 de novembro. Quais as articulações e contribuições a nível de JPIC que aproxima a Família Franciscana do Brasil junto aos mais necessitados? Como posso motivar minha fraternidade a participar?

Com o Dia Mundial do Pobre, o Papa Francisco quis colocar na agenda da Igreja os “Pobres”, tantas vezes deixados por último, sendo quase que “objeto” de nossas benfeitorias. É um dia para despertarmos cada vez mais, nos espaços e nas pessoas que ainda não se atentaram, que “ser cristão é ser irmão” e que há urgência em cuidar do “irmão caído à beira” em sofrimento e pobreza.

Na Igreja do Brasil, o Dia Mundial do Pobre para não ser somente um evento solidário de um dia, foi criada a “Jornada dos Pobres”. Sendo assim, a semana que precede o Dia Mundial do Pobre, é vivida como um tempo para despertar e cuidar dos irmãos em situação de vulnerabilidade. Tal envolvimento pode dar-se através de visitas, dedicando tempo para convivência, conversas, gestos solidários e atitudes de cuidado. Para conhecer sobre a Jornada Mundial dos Pobres, basta acessar o site da Caritas (https://caritas.org.br/). Importante ressaltar que o Dia e a Jornada dos Pobres vem como um despertar forças e consciências para assumir no dia a dia a “fraternidade com os pobres”.

A JPIC é um serviço para animar e auxiliar os irmãos neste caminho, inserindo-os, passo a passo, no compromisso de cuidar até a “recuperação completa do ferido”, como fez o Bom Samaritano. Mas isso requer uma participação em pastorais ou organizações para que o serviço seja mais significativo. Com mais pessoas envolvidas, é possível cuidar melhor dos mais pobres com maior abrangência e continuidade, nesse sentido, é necessário a participação nas políticas públicas.

Conforme nos ensina o Papa Francisco, se nos unimos a outras pessoas para gerar justiça, entramos na caridade mais ampla, a “caridade política” (FT 180). Em relação à saúde, para garantir atendimento médico, remédios de alto custo, por exemplo, precisamos lutar para que seja garantido na lei que nossos impostos sejam direcionados para tal fim.

5. A Terra continuará clamando e gemendo em 2023 por água, nutrição, preservação da fauna, da flora… Como franciscanas e franciscanos, quais atitudes práticas devemos assumir para fortalecer nossa Mãe Terra?

Primeiro, revermos nosso estilo de vida pessoal e fraterno. Fazemos parte do Planeta e estamos envoltos no uso e abuso da Terra, por isso, é importante revermos a nossa forma de viver.

Grandes destruições ambientais não são causadas pela maioria do povo, mas por empresas de grande porte, como mineradoras, agronegócio de larga escala, entre outros, muitas vezes atrelados aos bancos sugam e extraem de nossa Terra o que ela já não pode mais oferecer e devastam em todo canto.

A JPIC precisa ajudar a inserir irmãs e irmãos nos grupos organizados para responder aos apelos do Papa em relação ao “cuidado da Casa Comum”. Temos, por exemplo, o Movimento Laudato Si’, a Economia de Francisco e Clara que trazem, já a partir do nome, muito de nosso carisma. Também na Igreja há espaços e iniciativas que vão ao encontro do ideal de Francisco de Assis como, por exemplo, a Campanha da Fraternidade, o Tempo da Criação durante o mês de setembro, a Jornada Mundial dos Pobres e o tempo do Natal, que nos sensibiliza, a cada ano, à pequenez e à fraternidade. Temos ainda datas significativas como: o Dia da Laudato Si’, da Terra, da Água e do Meio Ambiente. Todos eles são momentos importantes para fortalecermos a consciência do cuidado com toda a criação e possibilidades para, a partir deles, nos envolvermos e assumirmos compromisso expresso em políticas ambientais e sociais, além de possibilitar o fortalecimento de grupos de agroecologia e de reflorestamento.

Participar nas pastorais sociais, como a Comissão Pastoral da Terra, nas articulações pela Amazônia, pela bacia do São Francisco, dentre outras, pode até parecer pouco, mas é sempre uma possibilidade porque, conforme nos diz o Papa Francisco, “há sempre uma saída”, “sempre podemos mudar de rumo”.

No mundo somos 1 bilhão de católicos, se todos avançarmos na mesma direção e lutarmos pelo mesmo ideal que é o cuidado com nossa Casa Comum, reduzirão as guerras e as destruições. Podemos, sim, já nessa Terra, viver a “justiça”, a “paz” e “integridade da criação”.

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