Espiritualidade Clariana: “Clara e Maria”

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1. O cristão tem consciência de que sua vida se desenrola sob o olhar atencioso e vigilante da Providência. Examinando os acontecimentos que tecem seu cotidiano não os vê como fatos fortuitos, frutos de um destino cego. Ao contrário, procura ver em todos os fatos que vão tecendo a história e sua trajetória pessoal explicitações da vontade de Deus. As circunstâncias da vida “falam”. Os cristãos tentam, pois, ouvir aí a voz do Senhor. Este fala, não poucas vezes, no silêncio. Destarte aquele que cultiva a dimensão do silêncio consegue, com certa facilidade, captar a voz do Senhor nos acontecimentos. A fé torna o cristão disposto para deixar-se guiar por Deus.

2. Os medievais tinham profunda visão de fé a respeito do tema. Descobriam símbolos e sinais ricos de significado. Não estamos nos referindo a um encadeamento de fatos mais ou menos ruidosos e extraordinários, frutos de imaginações doentias e exaltadas, viciadas em ver símbolo em tudo, mas de uma autêntica atitude cristã diante dos acontecimentos. Assim, podemos “ver” alguns traços da Providência na trajetória de Clara.

3. Na noite decisiva para sua nova vida Clara, por ordem de Francisco, se dirigiu à capela da Porciúncula. Nesta igreja da Virgem Maria, de Nossa Senhora dos Anjos, igreja mãe da Ordem Franciscana, Clara recebe das mãos de Francisco o hábito da Ordem, depois de ter seus cabelos cortados. Segundo seu biógrafo, este acontecimento tem grande importância para a santa: “Não convinha que, à véspera dos tempos novos, florescesse em outro lugar, a Ordem da virgindade senão no palácio daquela que primeira de todas e digníssima foi a única mãe e virgem” (LSC 8).

4. A vestição de Clara no Santuário da Mãe de Deus, mostra o que a santa deveria significar para o mundo: “que as mulheres imitem Clara, vestígio da Mãe de Deus, nova guia das mulheres” (Intr. LSC). Magnifica síntese da vida de Clara!

5. Francisco, o “discípulo do Verbo encarnado”, foi designado de “outro Cristo” (Pio XII, 2 de fevereiro de 1926). Clara foi designada como “vestígio da Mãe de Deus”. A presença do binômio homem-mulher é lei de todos os grandes começos: Adão e Eva; Cristo-Maria; Francisco-Clara.

6. Celano não foi o único a chamar atenção para as influências marianas na trajetória de Clara. O Cardeal Protetor faz eco, quando falando de Clara e de suas irmãs diz que “seguiam as pegadas de Cristo e de sua santíssima Mãe” (Bula de Canonização de Santa Clara). O próprio Francisco já havia contemplado a trajetória de Clara e de suas irmãs a partir desta ótica. Clara inseriu em sua Regra o teor do bilhete que Francisco lhe enviara antes de morrer: “Eu, Frei Francisco pequenino, quero seguir a vida e pobreza de nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe santíssima e perseverar nela até o fim”. O que vale para Francisco ele quer que valha para as damianitas. Que sigam Maria como mulheres!

7. Clara corresponde completamente ao pedido-desejo de Francisco. Queremos chamar atenção para alguns aspectos da devoção de Clara por Maria: coloca a festa da Assunção de Maria entre os sete dias do ano em que as irmãs devem receber a comunhão, considerando esta festa como das maiores solenidades (Regra III, 14). Clara invoca a Virgem como protetora das irmãs de maneira toda particular, não simplesmente como era o costume cristão da época. Assim, um sinal desse amor preferencial de Clara por Maria é a suspensão do jejum em suas festas, segundo o desejo de Francisco (3 Carta Inês, 36).

8. Venerava a Virgem porque tinha plena confiança em seu socorro. A Mãe de Deus cuida efetivamente dos homens. É verdadeira mãe para os homens: ensina-lhes a se aproximarem de Cristo e torna-se exemplo luminoso do seguimento de Cristo. Imitar a Maria é o caminho mais seguro para unir-se a Cristo. Por isso não se pode deixar de manifestar-lhe afeto.

9. Que atitude de Maria mais chamou a atenção de Clara? Quais os traços da Senhora que ela quer imitar? Castidade e virgindade ocupam o primeiro lugar. Tal transparece no Testamento, 75 e de modo particular na 3ª. Carta a Inês: “Apega-te à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal grande Filho que o próprio céu não pode compreender e, no entanto, ela o carregou no pequeno recinto de seu sagrado ventre o gestou no seio de uma jovem mulher” (18-19). O voto de castidade permite que Clara imite a Virgem.

10. Clara contempla também em Maria a pobreza e nela encontra uma razão a mais para o seguimento da via evangélica: “… observemos para sempre a pobreza e a humildade de nosso Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe …” (RSC XII, 13). Clara, no Testamento, fala do surgimento do grupo de irmãs “que o Senhor Pai gerou em sua santa Igreja, pela palavra e pelo exemplo de nosso beatíssimo Pai Francisco, para seguir a pobreza e a humildade de seu dileto Filho e de sua gloriosa Mãe” (n. 46).

11. Maria se declara “serva” do Senhor. Por isso a imitação da Mãe de Deus conduz necessariamente à humildade. Belíssima a passagem da 3ª. Carta a Inês: “Assim tu também, seguindo-lhe os passos, sobretudo os passos da humildade e pobreza, podes carregar sempre espiritualmente no teu corpo casto e virginal, sem nenhuma dúvida contendo aquele que te contém a ti e a tudo o mais, possuindo Aquele que em comparação com os bens passageiros deste mundo, possuirás com mais valor” (25-27).

12. Vale a pena refletir em toda a exortação que Clara faz nesta terceira carta à Clarissa de Praga: “Eis que, pela graça digníssima de Deus dada às criaturas, consta que a alma do homem fiel é maior do que o céu, visto que o céu e todas as demais criaturas não podem compreender o Criador e somente a alma fiel lhe serve de mansão e morada, e isto só ocorre pela caridade e que os ímpios carecem: no testemunho da própria verdade, que diz, quem me ama será amado por meu Pai e eu o amarei e viremos a ele e faremos nele a nossa morada. Assim, portanto, como a Virgem gloriosa das virgens o fez materialmente, assim também tu, seguindo-lhes os passos, e sobretudo os passos da humildade e pobreza, podes carregar no teu corpo casto….Aquele que te contém a ti e a tudo” (21-26).

13. Discípula de Francisco, Clara tem amor íntimo pela Senhora. Nesse particular parece ir mais longe do que Francisco: “Essa é aquela excelência da altíssima Pobreza que vos constituiu, caríssimas irmãs minhas, herdeiras e rainhas do Reino dos céus e vos fez pobres em coisas e vos sublimou em virtudes. Seja esta a vossa porção que conduz à terra dos viventes. A ela aderindo inteiramente, diletíssimas irmãs, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe santíssima não queirais jamais outra coisa debaixo do céu” (RSC VIII,4-6).

14. Clara se esforçava em ser imagem de Maria. Maria ilumina também sua morte. A Mãe de Jesus acompanha o cortejo da santas virgens que lhe aparecem no leito de morte. “…eis que, em brancas vestes, entra uma multidão de virgens, todas com grinalda de ouro na cabeça. Entre elas uma caminhava mais luminosa que as demais, de cuja coroa – que em seu cimo apresentava uma espécie de turíbulo com orifícios – irradiava tanto esplendor dentro da casa que convertia a própria noite em luz do dia. Aproximou-se do pequeno leito em que jazia a Esposa do Filho e inclinando-se sobre ela, dá-lhe um abraço cheio de ternura. É trazido pelas virgens um pálio de maravilhosa beleza e estendendo-o, todos à porfia, o corpo de Clara é coberto e o tálamo adornado” (LSC 46).

15. “Em seguida, a Virgem das virgens, que era maior, inclinou seu rosto sobre o rosto da mencionada virgem Santa Clara, ou então, sobre o seu peito, pois a testemunha não pode distinguir bem uma coisa da outra…e a santíssima senhora Clara morreu na segunda-feira seguinte” (Processo de Canonização, 10,4).

Frei Almir Ribeiro Guimarães

Inspiramo-nos em texto do erudito franciscano alemão Lothar Hardick. Pudemos dispor de uma tradução italiana do autor, cujo original é alemão (La Spiritualità di S. Chiara, Ed. Biblioteca Francescana, Milano 1986).

Fonte: Província Franciscana

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