Fé e compromisso: atuação dos freis Capuchinhos em prol dos mais necessitados completa 125 anos no Estado

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Exposição “Capuchinhos 125 Anos: Presença, missão e carisma” pode ser conferida no Museu dos capuchinhos, em Caxias

Bruno Todeschini / Agencia RBS
Quando frei Celso Bordignon fala que os Capuchinhos aceitam qualquer trabalho que seja voltado para ajudar os pobres e necessitados, pode até soar exagerado. Mas basta olhar um pouco mais atento à atuação da ordem religiosa, cuja chegada ao Rio Grande do Sul completa 125 anos, para ver que a importância dos franciscanos se estende por quase todos os ramos da sociedade, e vai muito além da espiritualidade.

É essa abrangência que pretende mostrar a exposição “Capuchinhos 125 Anos: Presença, missão e carisma”, que inaugurou na última quinta-feira e poderá ser conferida até o final de março no Museu dos Capuchinhos, em Caxias do Sul. São fotos, documentos, objetos, obras de arte e itens pessoais que pertenceram a freis históricos, que mostram como a presença dos religiosos sempre abarcou áreas como saúde, educação, cultura, agricultura, imprensa e, sobretudo, a assistência social.

Em Caxias do Sul, basta citar a Legião Franciscana de Assistência aos Necessitados (Lefan), e a Associação Mão Amiga, idealizada pelo frei Jaime Bettega, para ter a dimensão da atuação firme em parceria com o poder público e com a sociedade civil, viabilizando serviços como o Lar da Velhice São Francisco de Assis e o Centro de Convivência Santo Antônio, para pessoas em situação de vulnerabilidade.

Bruno Todeschini / Agencia RBS
Frei Celso Bordignon, diretor do MusCap, ressalta a dimensão social da atuação dos capuchinhos durante mais de um séculoBruno Todeschini / Agencia RBS

– Os primeiros frades vieram para atender inicialmente os imigrantes e também as populações nativas, mas viram que havia muita coisa a ser feita, e foram assumindo trabalhos. Vieram na sequência as irmãs de São José, seguidas dos maristas e dos lassalistas, todos da França. E nunca se resumiram ao trabalho espiritual e pastoral. Sempre houve uma dimensão social – aponta o artista plástico e diretor do Museu dos Capuchinhos, frei Celso Bordignon.

Desde a chegada de frei Leão, frei Bruno e frei Rafael, primeiro trio de Capuchinhos franceses à Colônia Conde D’Eu (que só quatro anos depois se tornaria o município de Garibaldi), em 1896, para instalar a missão no Estado, a Ordem leva o carisma franciscano a diversas cidades gaúchas, muitas delas na Serra. Além da diferença que a missão faz na vida dos desassistidos, sua presença também pode ser sentida na arquitetura, especialmente nas imponentes igrejas construídas em Flores da Cunha, Vacaria, Veranópolis e na própria Garibaldi, trazendo para a paisagem da Serra uma adaptação do gótico francês.

–  Os Capuchinhos contribuíram muito para a cultura do Rio Grande do Sul, e essa exposição também quer mostrar isso. Nosso trabalho é o de preservar essa história em nosso acervo _ acrescenta frei Celso, destacando que a comemoração dos 125 anos da chegada dos primeiros freis não deve ser confundida com outra importante data celebrada este ano, que são os 80 anos desde que a missão se tornou independente da França, o que ocorreu em 1942 e permitiu o surgimento oficial da província dos Frades Menores Capuchinhos do Rio Grande do Sul – a primeira província na América Latina e em todo o Hemisfério Sul.

Bordignon ainda ressalta que a preservação do legado material é uma forma de manter viva a memória de personagens que marcaram a trajetória dos frades no Estado, fazendo questão de mencionar alguns nomes de reconhecida atuação junto às comunidades:

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Frei Ambrósio Tondello, falecido em 1990, ficou conhecido pelas palavras de conforto que dirigia aos fiéisVer Descrição / Ver Descrição

_ Quando vamos falar da importância dos Capuchinhos não podemos deixar de citar frei Exupério de La Compôte, que foi um grande músico e organizou bandas que tocavam em procissões nas comunidades; frei Antônio de Caxias, um grande pregador, que tinha sermões escritos a mão, grande personagem, que morreu em Porto Alegre; frei Fabiano Cavalca, precursor da produção de vinhos e espumantes em Vila Flores. frei Salvador, de Flores da Cunha, que está em processo de beatificação; frei Ambrósio Tondello, em Caxias do Sul, que ficou quase 40 anos sentado ouvindo as pessoas e as abençoando. Morreu velhinho, mas marcou a história de Caxias do Sul, celebrando muitos casamentos e batizados.

História e afeto

Composta por itens pinçados da reserva técnica do MusCap, a miscelânea é dividida por eixos temáticos que enfatizam diferentes áreas de atuação. Numa delas, por exemplo, estão antigos objetos que eram utilizados nas redações de jornal e de televisão e nas rádios (essas ainda em atividade). Dentro desse tema, vale lembrar que a primeira transmissão a cores no Brasil foi feita em Caxias do Sul em 1972, durante a Festa da Uva daquele ano, pela TV Difusora de Porto Alegre, administrada pela Ordem dos Frades Menores Capuchinhos.

Passeando pela exposição também chamam a atenção livros antigos e raros, que chegam a datar do século 17, e que pertenceram a antigas bibliotecas coletivas dos religiosos; um ervanário de um frei que tinha conhecimentos da medicina natural; antigas malas de viagem; e diversas imagens de São Francisco de Assis, algumas delas centenárias, esculpidas ou pintadas.

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Uma das obras raras em exposição é um livro de coro (antifonário) manuscrito, do século 17Bruno Todeschini / Agencia RBS

_ Uma exposição como essa a gente pensa em critérios de raridade e de preciosidade. Temos objetos de muito valor histórico e outros que são raros pela questão documental da província, por ajudarem a preservar todo um legado que poderia se perder se não fosse um trabalho muito cuidadoso de resgate _ comenta o coordenador do MusCap, o historiador Christian de Lima.

Entre os livros pinçados da biblioteca do MusCap, que conta com mais de 25 mil exemplares, está uma obra de grande valor para os Capuchinhos, que ajuda a ilustrar a diferença mencionada por Christian de Lima entre valor histórico (pela raridade e importância) e preciosidade (mais ligada ao afeto). Trata-se de uma edição original do livro que reúne as aventuras do personagem Nanetto Pipetta, personagem fictício criado pelo frei Aquiles Bernardi, publicada originalmente em folhetim pelo jornal Staffetta Riograndense, entre 1924 e 1925. A obra conta com ilustrações de outro frei, Gentil de Caravaggio, que dá rosto ao anti-herói da imigração italiana na Serra.

AGENDE-SE
O quê:
 exposição “Capuchinhos 125 Anos: Presença, missão e carisma”
Quando: 
até o final de março. Visitação de segunda a sexta-feira, das 8h às 11h30min, e das 13h às 17h; e aos sábados ou à noite, mediante agendamento prévio.
Onde: 
Museu dos Capuchinhos, em Caxias do Sul ( Rua General Mallet, 33, Rio Branco)
Quanto:
 visitação gratuita

Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br

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