FRANCISCLAREANDO – Vivos para sempre!

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O insaciável desejo da identificação com Cristo orientou todo o itinerário tanto de Clara como de Francisco. Uma e outro descobriram que o caminho desta identificação passa necessariamente pela aproximação amorosa do pobre, pelo lavar-lhe os pés, curar suas feridas, caminhar com ele na busca de melhor qualidade de vida, de liberdade, saúde, paz, sinais do Reino nesta terra.

Ao longo do tempo, Francisco foi realizando em sua existência, em seu corpo e em sua história, os mistérios de Cristo. A realidade pascal o envolvia e nela ele se movimentava com liberdade e naturalidade e isto o levava a viver sua entrega ao serviço do Pai, realizando a sua vontade e, como Ele, defender e promover a vida vulnerável nos pobres, nos oprimidos, nos doentes, sobretudo os leprosos.

Seria muito longo mencionar todas suas páscoas. Algumas, é imprescindível fazê-lo. Sua páscoa fundamental: “Parecia-me sobremaneira amargo ver leprosos… E o próprio Senhor me conduziu entre eles, e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo se me converteu em doçura de alma e de corpo; e, depois, só um pouco e saí do mundo.” (cf. Test 1-3).

Diante do furioso pai e do discreto e sábio bispo reafirmou sua páscoa primeira: “Entrando na sala do bispo, tirou todas as suas roupas e, colocando o dinheiro em cima delas, diante do bispo, do pai e dos outros presentes, saiu nu e disse: Ouvi todos e entendei: até agora chamei de pai a Pedro de Bernardone, mas, como me propus servir a Deus, devolvo-lhe o dinheiro, pelo qual estava perturbado, e todas as roupas, que dele recebi de suas coisas, pois agora quero dizer: Pai nosso que estás nos céus, e não pai Pedro de Bernardone”. (LTC 20,3).

Em espírito pascal, Francisco reconhece na chegada dos irmãos a maneira de Deus revelar sua vontade: “E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me ensinava o que deveria fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou que deveria viver segundo a forma do santo Evangelho”. “O primeiro que seguiu o santo foi um habitante de Assis… Depois dele, também Frei Bernardo abraçou a missão de paz …” (1Cel 24,1-2).

“E assim chegou a hora. Tendo completado em si todos os mistérios de Cristo, voou feliz para Deus” (2Cel 217,11).

Segundo as Fontes primitivas, Clara realiza com antecipação a páscoa mais difícil de sua vida: “Chegando o Domingo de Ramos … Clara, sobressaindo pelo aspecto festivo, dirigiu-se com os demais para a igreja. … Ali, algo de muito significativo aconteceu. Na altura da distribuição dos ramos, Clara ficou modestamente retraída, no seu lugar. Foi o próprio Bispo que, descendo os degraus, lhe fez a entrega pessoal do ramo.

Na noite seguinte, obedecendo às ordens do santo, empreendeu a saída tão desejada em companhia de pessoas de sua confiança. Não lhe parecendo prudente usar a saída do costume, optou por outra. …

Desta maneira deixou a casa, a cidade e os familiares e apressou-se a ir para Santa Maria da Porciúncula. … Ali se libertou da sujeira da Babilónia e repudiou tudo o que era mundano. Renunciando a todos os adornos, consentiu que os irmãos lhe cortassem os cabelos.” (cf. LSC 7,2-8,2).

Em suas cartas à amiga Inês, pressentimos uma Clara que, apesar de haver-se concentrado mais na contemplação e vivência da Paixão do Senhor, vê a morte-ressurreição como o momento mais íntimo do encontro com o Amado: “Contempla, além disso, as inefáveis delícias, as suas eternas riquezas e honras e exclama suspirando, plena de anseios e com profundo amor. Atrai-me a Ti e correrei ao odor dos teus perfumes, ó celeste Esposo. Correrei sem desfalecer, até que me introduzas na sala do festim, até que a minha cabeça repouse sobre a tua mão esquerda, e a tua direita me abrace com ternura e me beijes com o ósculo suavíssimo da tua boca” (4In 28-32).

As palavras de sua bênção deixam clara sua certeza de que a morte é um novo começo: “E as abençoo em minha vida e depois de minha morte, como posso, com todas as bênçãos com que o Pai das misericórdias (cf. 2Cor 1,3) abençoou e abençoará seus filhos e filhas no céu (cf. Ef 1,3) e na terra, e com os quais um pai e uma mãe espiritual abençoaram e abençoarão seus filhos e filhas espirituais”. (BnC 11).

Vivamos no espírito de Clara e Francisco a preparação e a celebração da Páscoa de Jesus. Eles já ressuscitaram com Ele. Que nossa vida nos conduza à eterna vida-convivência com eles.

Feliz Páscoa.

Por: Irmã Maria Fachini – Catequista Franciscana

Fonte: CICAF

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