Frei Fidêncio: Santa Clara é exemplo e inspiração para uma nova humanidade

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São Paulo (SP) – Frei Fidêncio Vanboemmel presidiu nesta quarta-feira, 11 de agosto, a sua primeira solenidade franciscana como Ministro Provincial, já que foi eleito na semana passada para este serviço na Província da Imaculada Conceição. “Nós necessitamos, sim, de uma humanidade reconciliada e pacificada. Quantas discórdias, quantas divisões, quantos radicalismos! Necessitamos de uma humanidade transfigurada, mais transparente, mais nítida, mais clara, mais justa, mais fraterna. Necessitamos de uma humanidade compadecida como Santa Clara tantas vezes se compadeceu diante da dor”, disse Frei Fidêncio na Missa solene de Santa Clara de Assis, às 10 horas, no Convento São Francisco, no centro de São Paulo, que teve como concelebrantes o Vigário Provincial Frei Gustavo Medella e o guardião da Fraternidade São Francisco, Frei Mário Tagliari.

Na sua acolhida, Frei Mário falou da eleição de Frei Fidêncio e lembrou que ele e Frei Medella residiram neste tradicional Convento. “É com uma alegria muito grande que nós os acolhemos”, saudou, pedindo uma salva de palmas.

Frei Fidêncio saudou os fiéis paroquianos, de forma presencial ou virtual através das mídias sociais do Convento e também dirigiu sua saudação à Ministra da Fraternidade das Chagas da Ordem Franciscana Secular, Maria Aparecida Crepaldi. Falou especialmente às Irmãs Clarissas, especialmente as que estão no território da Província. “Que Deus as abençoe e as santifique para que possam, a partir de seus respectivos mosteiros, serem luz para a humanidade de hoje”, pediu.

A festa de Santa Clara, no Convento do Largo São Francisco, foi preparada com uma Novena, tendo como tema: “Santa Clara, luz para uma nova humanidade”. “Além das invocações que fazíamos ao longo da novena, a partir da Ladainha dedicada a Santa Clara, procuramos também, inspirados na Palavra de Deus, meditar aspectos da vida de Santa Clara para dizer do quanto o brilho de Santa Clara continua a clarear os nossos dias”, explicou o celebrante.

Para o Ministro Provincial, como no seu tempo, na Idade Média, Clara de Assis continua a ser para nós luz e inspiração, tanto para os homens como para as mulheres, “para juntos construirmos uma nova humanidade”.

“Por que uma nova humanidade?”, perguntou. “Todos nós sabemos do grande estrago causado pela pandemia Covid-19 com suas variantes. Além das perdas humanas, essa pandemia também mexeu com todas as nossas estruturas sociais, econômicas e até religiosas. Doeu muito ver as igrejas vazias e a pouca presença de fiéis, exatamente pelo cuidado, pelo respeito, que nós devemos ter uns aos outros. Então, essa pandemia, além das grandes perdas humanas, mexeu com todos. E muitas das feridas, já presentes na vida da humanidade, agravaram-se, especialmente as feridas das pessoas mais pobres, mais vulneráveis, que perderam o seu trabalho ou faliram nos seus empreendimentos. Basta olhar a Rua São Bento aqui na nossa frente”, avaliou o celebrante.

“Também não podemos negar, justamente nesse tempo da pandemia, o gemido da nossa Mãe Terra, que no mundo inteiro acolheu mais de 4 milhões e 300 mil vidas, sendo só no Brasil mais de 565 mil vidas”, ressaltou, lamentando que mesmo assim essa Mãe Terra continuou sendo agredida, ferida e machucada com as grandes queimadas dos biomas naturais. “Nós vimos muito de perto, através das redes sociais, as grandes queimadas da Amazônia, do Pantanal e de outras regiões. Ninguém pode negar essa realidade”, lamentou.

Segundo Frei Fidêncio, em meio a muita desesperança e tristeza, Santa Clara é fonte de inspiração para uma nova humanidade. Para isso, tomou como referência a carta de Santa Clara para Santa Inês de Praga: “Não se deixe envolver pela amargura e o desânimo, senhora amada em Cristo”. “Essa expressão, ‘amargura e desânimo’, que havia na Idade Média, também existe no nosso tempo. E Clara de Assis vem ao nosso encontro como luz, para dizer aos homens e mulheres de hoje que não nos deixemos envolver por esse discurso, muitas vezes, negacionista, discurso de pessoas derrotadas e desanimadas. Não se deixem envolver pela amargura e desânimo. E ela diz nesta mesma carta: ‘Devemos ser sustentáculos para os membros vacilantes no seu corpo inefável’. Clara se entende assim dentro da Igreja e no mundo, mesmo vivendo recolhida no claustro. Ser sustentáculo dos corpos vacilantes. É a nossa realidade, é o nosso tempo, a nossa história, a nossa vida. É a vida de tantas famílias”, observou Frei Fidêncio.

Na mesma carta de Clara, destacou citações que valem para o nosso tempo e nossa realidade: “Quem não tem horror das insídias do inimigo do homem que, pela tentação de glórias passageiras e falazes, tenta aniquilar o que é maior do que o céu?” Segundo Frei Fidêncio, trata-se da tentação permanente do homem. “É o próprio ser humano, com sua ambição, com sua busca de poder, com a busca da força, no lugar de palavras ou argumentos. Quando não se tem palavras dóceis, quando não se tem palavras de amor, usa-se a força, a ignorância. Não é assim que Clara pensa, não é assim que Clara interpreta a realidade da vida. E na mesma carta, ela continua a nos dizer: ‘Nisso enganam-se certos reis e rainhas deste mundo: sua soberba pode chegar ao céu e sua cabeça pode tocar as nuvens mas, no fim, serão reduzidos ao esterco’. Palavras que saem da boca de Santa Clara e de uma espiritualidade de vida em profundidade”, destacou o Ministro Provincial, lembrando que Clara poderia ser uma rainha ou princesa, pois era prometida em casamento. Mas ela renunciou a esses títulos terrestres para contrair outros esponsais: os de Cristo, Mestre e Senhor”, explicou.

Frei Fidêncio lembrou que o tio Monaldo até a força tentou usar para tirá-la desse caminho. “Clara representa neste momento o grito de todas as mulheres, que também sonham com um mundo novo, com um mundo mais bonito, com mais respeito. Uma nova humanidade é uma humanidade sem feminicídio. Bonito vermos aqui presentes tantas mulheres. Clara representa cada uma de vocês, representa a dignidade, o espírito e a grandeza de vocês”, disse Frei Fidêncio.

Segundo o Ministro Provincial, assim como Moisés conduziu o povo no deserto (conforme narra a primeira leitura), Santa Clara também foi atraída e conduzida para o deserto. “Para o deserto que era o pequeno espaço do Mosteiro de São Damião, para que ali Deus pudesse falar ao seu coração. E Clara, por sua vez, abriu esse coração amoroso para com Deus. Procurou se assemelhar cada vez mais a partir das virtudes do Cristo pobre, humilde e crucificado, para assim contrair esses esponsais místicos com Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, ela lembra continuamente às suas irmãs: ‘Por favor, não percam de vista esse ponto de partida’”, assinalou, enfatizando: “Esta foi a busca constante de Santa Clara”.

Frei Fidêncio descreveu a história de Santa Clara a partir do próprio nome, que é caracterizado pela luz. Citou a bula de canonização que confirma essa luminosidade. “Clara, preclara por seus claros méritos, clareia claramente no céu pela claridade da grande glória, e na terra pelo esplendor dos milagres sublimes”. E na mesma bula se diz: “O mundo recebeu de Clara um claro espelho de exemplo: Brilhou no século, brilhou na vida, irradia depois da morte. Foi clara na terra e reluz no céu!”.

“Nesse sentido, meus irmãos e minhas irmãs, somos provocados hoje pela palavra de Deus da Carta de São Paulo aos Coríntios a também superar todas as tribulações, todas as vicissitudes dessa vida e saber que esta mesma claridade da luz divina que brilhou em Clara também brilha em cada um de nós. Devemos acender cada vez mais a chama do amor de Deus nos nossos corações para sermos como ela lembra: candelabros de santidade para este tempo tão difícil. O mundo necessita de luzeiros, o mundo necessita de luz, o mundo necessita de claridade. Nós, frades, necessitamos dessa luz para podermos discernir sempre o caminho do Senhor, o caminho de Deus. E, neste sentido, o Evangelho de hoje nos ensina um segredo muito bonito: devemos, com Clara, permanecer sempre unidos em Cristo na videira. Permanecer unidos em Cristo, nos seus mandamentos, para podermos produzir bons frutos”, exortou.

Para Frei Fidêncio, uma nova humanidade só é possível de ser construída quando o coração humano se deixa transformar a partir das virtudes que podemos ler em Nosso Senhor Jesus Cristo. “Foi isso que fez Clara de Assis. Nós necessitamos, sim, de uma humanidade reconciliada e pacificada. Quantas discórdias, quantas divisões, quantos radicalismos! Necessitamos de uma humanidade transfigurada, mais transparente, mais nítida, mais clara, mais justa, mais fraterna. Necessitamos de uma humanidade compadecida como Clara tantas vezes se compadeceu diante da dor, seja das irmãs internamente no mosteiro seja dos homens e das mulheres do lado de fora do mosteiro. Basta de violências, de agressividades, de guerras malucas, de interesses. Sim, precisamos de uma humanidade mais compadecida com as dores dos irmãos, das irmãs e de toda a criação”, pediu.

“Meus irmãos e irmãs, que Santa Clara nos ajude, nos inspire e, se pudermos, vamos procurar nos aprofundar um pouco mais na mística de Santa Clara, creio que ela tem palavras, assim como São Francisco, para cada um de nós. Ela é exemplo, ela é inspiração, mesmo vivendo recolhida num mosteiro. Ela resplandeceu para fora. Ela foi aquela árvore frondosa que estendeu seus ramos através de novos mosteiros pelo mundo afora. Ela é essa luz que brilha para nós e ilumina nossas vidas e nossos corações”, completou.

A Celebração Eucarística terminou com a bênção do pão de Santa Clara.

Moacir Beggo

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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