Frei Marcelo Toyansk concede entrevista sobre a Campanha da Fraternidade 2026 ao UOL

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Campanha da Fraternidade 2026 põe moradia digna no centro do debate social no Brasil

Apesar da redução histórica do déficit habitacional, cerca de 40% das moradias brasileiras ainda são consideradas inadequadas.

Morar e morar dignamente segue sendo um dos grandes problemas estruturais da sociedade brasileira. Embora o país tenha registrado, nos últimos anos, o menor patamar histórico do chamado déficit habitacional, estudos indicam que aproximadamente 40% das residências ainda não oferecem condições adequadas para uma vida digna. Em outras palavras: nunca houve tão poucos brasileiros sem teto, mas uma parcela expressiva da população vive em submoradias, em condições precárias.

Essa contradição está no centro do tema escolhido para a Campanha da Fraternidade 2026, iniciativa anual da Igreja Católica no Brasil voltada à conscientização social, realizada tradicionalmente durante o período da quaresma.

A definição do tema da Campanha da Fraternidade cabe ao colegiado de bispos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entidade responsável pela coordenação do projeto. O processo leva em conta tanto sugestões internas quanto demandas urgentes da sociedade brasileira.

No caso da edição de 2026, a proposta partiu da Pastoral da Moradia e Favela do Brasil, organismo da Igreja que atua diretamente na defesa do direito à moradia. A pastoral apresentou aos bispos a necessidade de recolocar o tema no centro do debate público, diante da persistência de situações habitacionais indignas em todo o país.

Por que discutir moradia
A campanha busca chamar atenção para a realidade de milhões de brasileiros que vivem em habitações improvisadas, inseguras ou sem acesso adequado a serviços básicos. O objetivo é ampliar o debate e estimular ações concretas nas comunidades, indo além dos números oficiais sobre déficit habitacional.

“Moradia é um tema essencial para a população brasileira, assim como a alimentação. É um direito básico”, argumenta o frade franciscano capuchinho Marcelo Toyansk Guimarães, coordenador nacional da Pastoral da Moradia e Favela do Brasil e assessor da Comissão Justiça e Paz da CNBB, que destaca a urgência de políticas públicas e do engajamento social para garantir o direito constitucional à moradia digna.

A Campanha da Fraternidade é um dos projetos sociais mais antigos e capilarizados da Igreja Católica no Brasil. Sua primeira edição ocorreu em 1961, inicialmente de forma localizada. A partir de 1962, passou a ser realizada durante a quaresma, período que vai do Carnaval à Páscoa e, em 1964, ganhou alcance nacional, em um formato semelhante ao atual.

Ao longo de 65 anos, a campanha já abordou temas como discriminação racial, desemprego, fome, população carcerária, povos indígenas, recursos hídricos, Amazônia e segurança pública. Sempre com uma linguagem acessível, voltada ao público leigo, a proposta é fomentar debates locais por meio de encontros em pequenas comunidades.

O tema da moradia, vale lembrar, não é inédito: já havia sido tratado pela Campanha da Fraternidade em 1993, mas retorna agora diante de novos desafios e de um cenário ainda marcado por profundas desigualdades.

Embora tenha nascido como uma iniciativa exclusivamente católica, a Campanha da Fraternidade passou a ter caráter ecumênico a partir do ano 2000. Desde então, aproximadamente a cada cinco anos, o tema é definido pelo Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), que reúne diferentes denominações cristãs, incluindo a Igreja Católica.

A última edição ecumênica da campanha ocorreu em 2021. A participação de outras igrejas reforça o caráter amplo da iniciativa e amplia seu alcance social, especialmente em temas sensíveis e estruturais, como o direito à moradia digna.

Autor: Edison Veiga, correspondente da RFI em Bled, Eslovênia.

Fonte: UOL

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