Os pensamentos generosos do Coração de Jesus

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Não faz muito tempo, celebramos durante cinquenta dias as solenidades pascais. Nesta sexta feira (19.06), na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, é como se entrássemos de novo naquelas solenidades e revivêssemos o imenso mistério do amor de Deus manifestado em Cristo. E o fazemos pela via simbólica do coração. Do coração de Jesus.

A devoção ao Sagrado Coração provém de tempos bastante remotos. Grandes santos medievais, como São Bernardo e São Boaventura, teceram “profundas considerações sobre o amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, sobretudo em sua sagrada Paixão”.

Mas foi o realce dado à humanidade de Jesus Cristo que “fez brotar a devoção ao seu Coração sagrado, símbolo do amor de Deus transformado em amor humano. A devoção como tal tem início nos fins do século 13 e inícios de século 14, sobretudo em regiões da França e Alemanha. Sua festa começou a ser celebrada a partir do século 16, sobretudo na França” (A. Beckhäuser. Viver em Cristo. Espiritualidade do ano litúrgico. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 161).

Vários papas deram sua chancela ao novo culto, desde Pio IX que estendeu a festa a toda a Igreja em 1856, passando por Leão XIII que consagrou o mundo ao Sagrado Coração de Jesus, até Pio XII que mais uma vez recomendou esta devoção mediante uma carta encíclica.

O Evangelho deste (cf. Mt 11,25-30) ilumina esplendidamente o sentido da solenidade de hoje. Após a vivência de uma espécie de – digamos – desencanto (cf. v. 20-24), Jesus se expõe, de repente, num arroubo de profunda gratidão, bem como de consoladora ternura e compaixão. Diante de muita gente, provavelmente, ao seu redor, ele se dirige ao Pai, dizendo: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado” (v. 25-26). Logo a seguir, ele afirma: “Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (v. 27). E completa: “Venham a mim vocês todos que estão cansados e fatigados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês vão encontrar descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (v. 27-30).

Jesus falou isso após uma dura chamada de atenção às cidades “em que se realizou a maioria de seus milagres, por não terem se convertido”. São elas: Corozaim, Betsaida e Cafarnaum (cf. v. 20-24). Em outras palavras, mesmo com a evidência dos milagres de Jesus, as elites – os grandes – dessas cidades não acreditaram ser Jesus o próprio Filho de Deus, a expressão acabada daquilo que Deus mesmo é: Amor. Preferiram permanecer na zona de conforto de suas “verdades”, a se converter à sabedoria de vida que Jesus trazia da parte do Pai. Resultado: A estes – fechados em si mesmos –, os pensamentos generosos do coração de Deus ficaram ocultos. Os “pequeninos”, por sua vez – subjugados pelos poderosos e, por isso, cansados e fatigados, – eles sim, entenderam a proposta de Jesus. Diferentemente das elites subjugantes do povo, os “pequeninos” – eles sim! – ofereciam espaços abertos em seus corpos para assimilar e colocar em prática a íntima e divina conexão de conhecimento existente entre Jesus e o amor do Pai. Daí a alegria do louvor de Jesus ao Pai!

A estes “pequeninos”, Jesus então os encoraja no sentido de seguir sua proposta de uma alternativa de vida muito mais leve, feita de mansidão e humildade: “Venham a mim vocês todos que estão cansados e fatigados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês vão encontrar descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (v. 27-30).

Em outras palavras, no fundo, Jesus como que lhes diz: “Vejo que vocês, sim, são capazes de entender que meu Pai é puro Amor e d’Ele eu vim por amor a vocês. Por isso, permaneçam nesse Amor, amem-se uns aos outros do jeito que eu estou amando vocês. Permaneçam neste Amor, pois é assim que vocês vão permanecer com Deus e Deus vai permanecer com vocês (cf. 1João 4,7-160. Destarte, a vida de vocês vai ficar mais suave e mais leve. Mas são vocês que, junto comigo, vão construir esse mundo melhor. É o que eu desejo de todo o meu coração para todos vocês. Contem com meu apoio, com a graça do meu Espírito de amor”.

O mundo de hoje, dilacerado por muita ignorância geradora de tantas mentiras, hipocrisias, preconceitos, ódios, agressões, brigas, guerras, divisões, jogo de poder, destruição do meio-ambiente, enfermidades de todo tipo, e, ao mesmo tempo – graças a Deus! –, encorajado pela sabedoria de milhares de pessoas em gestos de solidariedade, compaixão, compreensão, serviço generoso em favor dos empobrecidos, adoecidos, sofridos e do meio ambiente depenado, este nosso mundo, nossa sociedade, precisa aprender muito ainda dos pensamentos generosos do coração de Deus, a viver em paz, com a leveza e a suavidade do coração do seu Filho Jesus.

Por isso, especialmente neste dia, oramos com todos os cristãos de boa vontade: “Concedei, ó Deus todo-poderoso, que, alegrando-nos pela solenidade do Coração do vosso filho, meditemos as maravilhas de seu amor e possamos receber desta fonte de vida uma torrente de graças”.

Paz e Bem!

Por Frei José Ariovaldo da Silva, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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