A Cruz na mística Franciscana – Parte 02

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Os Franciscanos e a Via-sacra

Frei Celso Márcio Teixeira
Revista Franciscana

A devoção da Via-sacra ou Via crucis tem suas origens bem dentro da espiritualidade franciscana. É de todos conhecida a intensidade com que Francisco meditava sobre a humanidade de Cristo: encarnação, natal, paixão e, dentro do mistério kenótico do Filho de Deus, a Eucaristia, intimamente ligada à encarnação. Tudo isto, evidentemente, sem anular a divindade de Cristo.

Tomás de Celano, ao narrar o encontro de Francisco com o crucifixo de São Damião, exprime-se com uma frase de intenso significado: “Desde então, grava-se na sua santa alma a compaixão do Crucificado … , e no coração dele são impressos mais profundamente os estigmas da venerável paixão, embora ainda não na carne”.

É esta compaixão que leva Francisco a chorar constantemente a paixão do Senhor. “A partir daquela hora – continua o biógrafo – a alma dele se derreteu. Desde então, não consegue conter o pranto, chora também em alta voz a paixão de Cristo … Enche de gemidos os caminhos, não admite qualquer consolação, ao recordar-se das chagas de Cristo” .

Digno de menção é o episódio narrado pela Legenda dos Três Companheiros: “Uma vez, caminhava solitário perto de Santa Maria da Porciúncula, chorando e lamentando em alta voz. Um homem espiritual, ouvindo-o, julgava que ele sofresse alguma enfermidade ou dor e, movido de compaixão para com ele, interrogou-o por que chorava. E ele disse: ‘Choro a paixão de meu Senhor, pelo qual eu não deveria envergonhar-me de ir chorando em alta voz por todo o mundo’. O outro também começou a chorar com ele em alta voz” .

Neste contexto de intensa compaixão se compreende a redação do Oficio da Paixão, meditação que Francisco fazia dos salmos que ele rezava na ótica da Paixão do Senhor. Em outras palavras: Francisco lia certos versículos do saltério sempre ligados ao mistério da paixão de Cristo. E deste conjunto de versículos de diferentes salmos ele compôs o Oficio da Paixão, que ele rezava sempre como oficio votivo. E esta compaixão vai conduzir Francisco a sofrer com o Cristo sofredor, pois que o identificará com Ele na cruz, imprimindo nele os estigmas no Monte Alverne.

O amor de Francisco pela humanidade de Cristo leva-o consequentemente ao amor pela Terra Santa. Os historiadores discutem se Francisco realmente foi ou não à Terra Santa. Mas a presença franciscana na Terra Santa é de antiga data. Quando em 1217 a Ordem foi estruturada em províncias, Francisco mandou frades para a Província da Síria, isto é, com acesso à Terra Santa. Frei Elias foi o primeiro Provincial da Síria.

Depois da morte de Francisco, a presença dos frades menores na Terra Santa foi constante. E a alma dos frades menores ficou marcada também pela compaixão para com os sofrimentos do Senhor, pois esta faz parte de sua espiritualidade.

Deste modo, a difusão da devoção da Via-sacra só podia ter tido a colaboração dos franciscanos. Isto se deu a partir dos séculos XIV e XV. Os frades menores, que desde 1342 tinham a guarda ou custódia da Terra Santa, começaram a percorrer com os peregrinos a via dolorosa de Cristo, que começava diante da casa de Pilatos até à sepultura de Jesus. Os lugares de parada (estações) para meditação sobre um determinado sofrimento de Cristo eram marcados com uma pedra, depois com pequenas cruzes” [4]. Estas estações foram desde cedo visitadas pelos peregrinos [5] Inicialmente, as meditações eram baseadas nos textos do Evangelho. Posteriormente, foram-se acrescentando alguns elementos colhidos da tradição, como, por exemplo, a cena da presença consoladora de Verônica.

Mais tarde, esta devoção foi transplantada pelos franciscanos para a Europa. Assim, os peregrinos que voltavam da Palestina, desejando recordar os lugares santos visitados em Jerusalém, começaram a recorrer a esta devoção. E a devoção foi-se espalhando sempre mais, mesmo para aqueles que nunca tinham visitado a Terra Santa. São Leonardo de Porto Maurício (1676-1751) foi um grande propagador da Via-sacra, difundindo numerosos quadros. Preparou o jubileu de 1750, quando erigiu a Via-sacra do Coliseu, declarando sagrado aquele lugar santificado pelo sangue dos mártires. Mas já a partir de Leão X, com a concessão de indulgências, a Via-sacra encontrou expansão geral.

A Via-sacra convida-nos a percorrer o mesmo caminho de Cristo (seguimento de Cristo mesmo na cruz), mostrando-nos nossa fundamental condição de pessoas ‘in via’. Isto nos convoca a meditar sobre a nossa condição de peregrinos e forasteiros neste mundo.

Encontros significativos com a cruz

São Francisco, já antes da conversão, quando se preparava para a viagem à Apúlia e desejava ser armado cavaleiro, teve um sonho. O Senhor lhe fez ver um palácio cheio de armas. Segundo São Boaventura (LM 1,3) “estavam assinaladas com a cruz de Cristo”, embora tal detalhe não tenha sido mencionado nem por Celano nem pelos Três companheiros. Certo é que, nos primórdios de sua conversão, Francisco teve um dos mais significativos encontros com a cruz, descrito com precisão tanto por São Boaventura (LM 2,1), quanto por Celano (2Cel 10-11) como também pelos Três Companheiros.

São Francisco certa vez, “passando perto de São Damião, o Senhor o Inspirou que visitasse aquela Igreja e orasse. Entrando, pôs-se em fervorosa oração diante da Imagem de um Crucifixo o qual piedosa e benignamente lhe falou: ‘Francisco. não vês que minha casa está em ruínas? Vai e restaura-a para mim’… Desde aquela hora seu coração tornou-se tão vulnerado e comovido, ao recordar a paixão do Senhor, que sempre enquanto viveu trouxe os estigmas do Senhor Jesus em seu coração como depois claramente se patenteou pela renovação dos mesmos estigmas maravilhosamente realizada em seu corpo… ” (cf. também 3Cel 2).

Santa Clara em seu Testamento (3-4) colocou também em grande evidência a importância decisiva do encontro de Francisco com a cruz. De fato, foi na Igreja de São Damião que o santo “foi movido pela graça divina de tal forma que se viu Impelido a abandonar totalmente o mundo”.

Um outro encontro, também dos mais significativos, foi aquele que se deu quando abriu o livro dos Evangelhos para conhecer a vontade de Deus a respeito do modo de vida que devia seguir com seus primeiros companheiros (LTC 27-29; cf. 2Cel 15; LM 3,3).

“Transcorridos dois anos de sua conversão, certos homens começaram a se animar por seu exemplo e penitência e, rejeitando todas as coisas. uniram-se a ele. O primeiro foi Bernardo… “ . “Amanhã, bem cedinho, iremos à Igreja, e pelos Evangelhos saberemos o que o Senhor determinou a seus discípulos”. E assim, “no dia seguinte, muito cedo, levantaram-se, e juntos com outro que se chamava Pedro que também desejava ser seu irmão, foram à Igreja de São Nicolau, na praça da cidade de Assis… Terminada a oração, o bem-aventurado Francisco, tomando o livro fechado, e de joelhos diante do altar, ao abrir a primeira vez, encontrou este conselho do Senhor: ‘Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres. (Mt 19, 21).’O bem-aventurado Francisco ficou multo contente e deu graças a Deus. Mas como era verdadeiro adorador da Santíssima Trindade, quis que isso fosse confirmado com um tríplice testemunho. E abriu o livro pela segunda e pela terceira vez. Ao abri-lo a segunda vez encontrou o seguinte: ‘Não leveis nada no caminho…’ (Lc 9, 2); e na terceira , por fim, ‘Quem quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me’ (Mt 12, 24).

Francisco “…depois de ver manifestada a vontade divina, confirmando seu propósito e desejo anteriormente concebidos, disse aos já mencionados Irmãos Bernardo e Pedro: ‘Irmãos, esta é a nossa vida e a nossa regra e de todos os que quiserem unir-se a nós .. .”

Finalmente encontramos um encontro altamente significativo com a cruz: o Alverne, precedido também por uma tríplice abertura dos Evangelhos. O bem-aventurado Francisco, conforme a narrativa de Celano (1 Cel 91-93), “afastou-se das multidões … e procurou um lugar calmo, secreto, solitário (o Alverne) … Passado algum tempo neste lugar … repleto do Espírito de Deus estava pronto para enfrentar qualquer angústia do espírito, qualquer tormento do corpo, desde que lhe fosse concedido o seu ardente desejo: que se cumprisse nele a misericordiosa vontade do Pai celeste. Dirigiu-se um dia ao altar da entrada e tomando um volume em que estavam escritos os Evangelhos, colocou-o sobre o altar com toda reverência. Depois, prostrou-se em oração a Deus, não menos de coração do que de corpo, e pediu humildemente que o Deus de toda consolação se dignasse mostrar-lhe sua vontade… Levantando-se, depois da oração, com espírito humilde e ânimo contrito, fez o sinal da santa cruz, tomou o livro do altar e o abriu com reverência e temor. A primeira coisa que deparou ao abrir o livro foi a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, no ponto que anunciava as tribulações por que deveria passar. Mas para que ninguém pudesse suspeitar que Isso tivesse acontecido por acaso, abriu o livro mais duas vezes, e o resultado foi o mesmo … São Boaventura precisa (LM 13,2): “Com fervorosa oração, pois, se preveniu e depois mandou um de seus companheiros, homem devoto e de grande santidade (Frei Leão) tomar o livro dos Evangelhos e abri-lo três vezes em honra da Santíssima Trindade. E como todas as vezes que se abriu o livro ocorreram as páginas em que se fala da paixão de Cristo, logo compreendeu Francisco que, da mesma forma como havia Imitado a Cristo nos principais atos de sua vida, assim também devia conformar-se com ele nos seus sofrimentos e dores da paixão” (Cf. também Considerações sobre os estigmas, 3).

Fonte de verdadeira e perfeita alegria

A cruz é ainda para Francisco a fonte mais genuína da verdadeira e perfeita alegria. Na cruz ele encontra, de maneira ao mesmo tempo paradoxal e evidente, a expressão da maior das dores e do mais eloquente e sublime. A verdadeira e perfeita alegria brota tão-somente do verdadeiro e perfeito Amor.

Francisco é o santo da alegria na cruz. Basta prestar atenção na conclusão do diálogo com Frei Leão, ovelhinha de Deus, segundo a redação do belíssimo capítulo 8 dos Fioretti, que desenvolve, no estilo próprio deste livro imortal, um texto anterior, mais breve (cf. Ad 5): “…se suportamos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo bendito, pelo que devemos suportá-las por seu amor, ó Frei Leão, escreve que aqui e nisto está a perfeita alegria. Ouve, pois, a conclusão, Frei Leão: acima de todas as graças e dons do Espírito Santo, que Cristo concede aos seus amigos. está o vencer-se a si mesmo e de bom grado suportar sofrimentos, injúrias e dificuldades, pois de todos os outros dons de Deus não nos podemos gloriar … Mas na cruz da tribulação e da aflição, nessa sim podemos gloriar-nos; pelo que diz o Apóstolo: “Não quero gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’…”

A cruz como símbolo da evangelização do mundo

A cruz que Frei Silvestre viu sair da boca de Francisco “abraçava admiravelmente com seus braços todo o universo”. Realmente o santo meditava constantemente no fato de Jesus ter sido crucificado por todos os homens e muito lamentava ver que o amor não era conhecido por todos e por todos amado. E com o sinal-da-cruz enviou os seus frades por todas as partes a pregar o Evangelho a todas as nações, nas quatro direções dos braços da cruz!

O mistério da cruz, vivido intensamente por Francisco, se tomou a força da pregação de seus filhos e fonte de renovação para a Igreja. Merece menção o capítulo 16 dos Fioretti que não é apenas uma bela página literária, mas encerra em suas linhas um profundo mistério. Eis a conclusão do texto: “Finalmente, terminada a pregação (aos passarinhos), São Francisco fez sobre eles o sinal-da-cruz e deu-lhes licença de partir; e então todas aquelas aves em bando se levantaram no ar com maravilhosos cantos; e depois, seguindo a cruz que São Francisco fizera, dividiram-se em quatro grupos: um voou para o oriente e outro para o ocidente, o terceiro para o meio-dia, o quarto para o aquilão, e cada bando cantava maravilhosamente; significando que como por São Francisco, arauto da cruz de Cristo, lhes fora pregado e sobre eles feito o sinal-da- cruz, segundo o qual se dividiram, cantando pelas quatro partes do mundo; assim a pregação da cruz de Cristo, renovada por São Francisco, devia ser levada por ele e por seus irmãos a todo o mundo: os frades, como os pássaros, nada de próprio possuindo neste mundo, confiam a vida unicamente à providência de Deus”.

Dicionário Franciscano: Ignacio Omaechevarría

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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