A economia do Evangelho na Querida Amazônia

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Foto: Maribeth Joerigth

Aspectos econômicos em Querida Amazônia

Em Querida Amazônia, no Sonho Social, se faz ecoar as ameaças de agentes econômicos que implementam modelos alheios aos territórios (QA, 11). Exploração e impactos negativos são resultados dessa velha e desalmada economia. Injustiça é o nome devido a essas ações econômicas que desrespeitam a Amazônia e desrespeitam os direitos dos povos nativos (QA 14). Uma economia que se mostra injusta e colonialista movida apenas pela sede do lucro fácil. Nesse quadro as relações econômicas se tornam instrumento de diversos males ao ambiente e às populações. As ajudas econômicas nessa lógica perversa muitas vezes seduzem e silenciam lideranças, inclusive no meio eclesial (QA 25).

Um outro ponto que se revela desafiador onde a economia globalizada atualmente se impõe é na homogeneização das culturas e na criação de consumidores sem tanta consciência (QA 33). E infelizmente se pode constatar que “A economia globalizada danifica despudoradamente a riqueza humana, social e cultural (QA 39)”.  A relação entre economia e cultura é um aspecto que clama uma urgente conversão.

Os projetos políticos muitas vezes servem mais aos interesses econômicos do que ao bem viver dos povos da Amazônia. Dessa forma o poder político serve ao poder do lucro, e os “sem poder” são sumariamente descartados. A forte cobiça sobre o potencial econômico dos recursos da Amazônia mostra uma compreensão apenas utilitarista e predatória. Tudo que vive no chão amazônico não deve ser caracterizado como mercadoria, mas visto como dom. Diante disso tudo, sente-se que é preciso gerar uma nova economia. Uma economia do Evangelho, inspirada em Jesus e Francisco de Assis.

A proposta da Economia de Francisco 

O encontro intitulado “Economia de Francisco” convocado no ano de 2019, devido a pandemia, realizou-se somente em setembro de 2022. Foram três anos de expectativas para um encontro que reuniu jovens de diversas partes do mundo para pensar uma nova economia que tivesse como raiz o humanismo do evangelho. Essa reunião de jovens formou uma comunidade mundial de pessoas comprometidas com um projeto econômico de solidariedade e respeito pela casa comum.

Foto: Maribeth Joerigth

No discurso aos participantes o Papa Francisco assim se expressou: “Uma nova economia, inspirada em Francisco de Assis, pode e deve ser hoje uma economia amiga da terra, uma economia de paz”. Podemos afirmar que tratar-se então do passar de uma economia do “viver bem” para o “bem viver”, passar de um sistema econômico de exploração para o primado do cuidado.

Nesse caminho de conversão econômica é importante recordar a vida de Francisco de Assis, que “após a sua conversão, foi uma profecia, que continua até no nosso tempo”. Para empreender essas mudanças na forma de viver e lidar com a economia é preciso coragem e ousadia, semelhantes àquelas vistas na história do Pobre de Assis. Efetivar uma economia de Francisco significa, segundo Papa, “assumir o compromisso de colocar os pobres no centro”. Um olhar econômico que se forma a partir do amor aos pobres e a vida simples. E assim abrir caminhos para que os pobres possam se tornar os protagonistas da mudança.

O Pacto das catacumbas pela Casa Comum e o pacto de Assis 2022

A palavra pacto, significa fazer um trato, firmar, unir e nos remete a uma causa assumida pelos signatários. Ao terminar o Sínodo Pan-amazônico de 2019, nas Catacumbas de Santa Domitila em Roma, alguns participantes celebraram juntos e assinaram o pacto das catacumbas pela Casa Comum. Esse pacto marca e reafirma uma opção “por uma Igreja com rosto amazônico, pobre, servidora e samaritana”. O gesto de redigir princípios para uma Igreja pobre e para os pobres remonta ao ano de 1965, quando um grupo de bispos participantes do Concílio Ecumênico Vaticano II, firmou o pacto das catacumbas.

O Pacto das Catacumbas marcou decisivamente a opção por uma Igreja pobre e servidora. Esse “compromisso de vida, trabalho e missão” assinado no dia 16 de novembro de 1965, foi sinal de uma “primeira recepção coletiva do Concílio Vaticano II” (BEOZZO, 2015). Ao celebrar a eucaristia e pactuar juntos os bispos deram testemunho de acolhida de um caminho de conversão e comprometimento.

O Pacto pela Casa Comum trata de alguns aspectos relativos à economia. Reconhece “um sentimento de urgência que se impõe antes as agressões que hoje devastam o território amazônico, ameaçado pela violência de um sistema econômico predatório e consumista”. Desse modo, percebem-se implicações econômicas no compromisso por uma ecologia integral. É preciso uma economia nova que escute o grito da terra e dos pobres da Amazônia.

Os jovens reunidos em Assis, também reconhecem sua responsabilidade e firmaram um compromisso pela Economia do Evangelho. Entre os traços dessa economia estão a promoção da paz, cuidado da criação, serviço e defesa da vida, sobretudo dos frágeis e vulneráveis, respeito pelas culturas, geração de riqueza para todos e todas. Essa economia, que não é utopia, é um sonho para os novos caminhos da Amazônia. Unindo as perspectivas desses dois pactos unimos ideais para a vivência do Amor que brota do coração do Evangelho. Em um mundo onde muitos tratados e pactos econômicos são acordados para exclusivamente gerar lucro econômico e desprezo da casa comum, esses dois pactos se mostram como sinal de esperança por uma nova economia.

Foto: Maribeth Joerigth

Uma economia como boa nova para a Amazônia

Gostaria de concluir com o que me disse Felipe Bandeira, um amazônida doutor em desenvolvimento econômico, em uma conversa informal sobre o tema aqui abordado. Nos evangelhos temos definidas as bases de um programa econômico novo. As diretrizes ali postas são sobretudo a compaixão com os sofredores. Pois, conforme a narrativa de Mateus, o Senhor nos dirá, em verdade: “O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”.  (cf. Mt 25, 40). Assim, o verdadeiro desenvolvimento da Amazônia, se dará quando os pobres tiverem o que comer, quando os desabrigados tiverem onde morar, os estrangeiros, tiverem onde ficar, e os doentes, tiverem acesso a tratamento com dignidade.

Frei Fábio Vasconcelos, OFM

Referências

BEOZZO, José Oscar. Pacto das catacumbas: por uma igreja servidora e pobre. São Paulo: Paulinas, 2015.

FRANCISCO. Querida Amazônia: ao povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade. Brasília: Edições CNBB, 2020.

MODINO, L. Pacto das Catacumbas pela Casa Comum. Por uma Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana.  Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/190-sinodo/593633-pacto-das-catacumbas-pela-casa-comum-por-uma-igreja-com-rosto-amazonico-pobre-e-servidora-profetica-e-samaritana. Acesso em: 12 out. 2022.

PACTO DE ASSIS. Disponível em: https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2022-09/por-039/documento-final.html. Acesso em: 12 out 2022.

Fonte: franciscanosamazonia.org.br

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