A Gripe Espanhola de 1918: relatos de um frade

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Nos primeiros meses deste ano de 2020, a eclosão da pandemia de Covid-19 deixou o mundo inteiro perplexo e assustado. De repente, redescobrimos o quanto somos frágeis, limitados, impotentes. A insegurança e o medo diante de um inimigo invisível vieram nos recordar a certeza da finitude humana. A imposição do isolamento social fez passar a segundo plano projetos inadiáveis, sonhos, desejos. Manter-nos vivos e saudáveis passou a ser a prioridade. A dor, o abandono e o sofrimento de tantos irmãos e irmãs, direta ou indiretamente atingidos pela doença, despertaram em muitos o melhor do ser humano: a solidariedade, a compaixão, a partilha, o respeito. Mas também trouxeram à tona comportamentos e atitudes arraigados desde sempre no coração humano, que se revelaram muito mais nocivos e nefastos do que qualquer vírus: prepotência, falta de empatia e de sensibilidade, desrespeito diante das lágrimas e do sofrimento do próximo, além da manipulação da vida e da morte como fonte de benefícios políticos e financeiros.

Há pouco mais de 100 anos, em plena primeira Guerra Mundial, o mundo enfrentava uma situação, em muitos aspectos semelhante à que estamos vivendo hoje. Certamente, precisamos considerar as diferenças em termos demográficos (cerca de 29 milhões de habitantes no Brasil em 1918), e em termos de tecnologia, conhecimentos científicos e sanitários e de meios de comunicação. Mas, como sempre, quem mais sofreu foram as pessoas mais pobres. Para ajudar-nos a refletir sobre a realidade que estamos vivendo, partilhamos com os confrades dois breves textos, escritos por Frei Pedro Sinzig, sobre a pandemia que assolou o mundo entre 1918 e 1919, que se chamou (erroneamente) de “Gripe Espanhola”. O relato encontra-se na “Crônica da Província Franciscana do Sul do Brasil – 4ª. Crônica (1915-1921)”, e foram traduzidos por Frei Lauro Both, a quem agradecemos.

A Gripe Espanhola, síndrome respiratória também conhecida como “influenza”, atingiu o mundo inteiro, entre 1918 e 1919. As estatísticas nos ajudam a entender o tamanho da tragédia. Para uma população mundial de cerca de 2 bilhões de pessoas, 500 milhões foram infectados. Os mortos chegaram a cerca de 50 milhões. A despeito das afirmações das autoridades de que a doença nunca chegaria ao Brasil, em fins de setembro de 1918, o navio Demerara atracava nos principais portos do país, trazendo pessoas infectadas da Europa. Constatados os primeiros casos, as autoridades afirmavam que seria uma “doença passageira”. Acabou saindo do controle e o caos se instaurou, principalmente nas capitais. O número de vítimas fatais ficou em torno de 35-40 mil pessoas (enquanto escrevo este texto, o número de mortos por Covid no Brasil aproxima-se rapidamente dos 80 mil, com quase 2 milhões de casos confirmados). De alta letalidade e contágio, sem vacina nem antibióticos, a “Gripe” causou muito sofrimento. Não havia um “sistema de saúde”, e nem um Ministério da Saúde, que acabou sendo criado após a pandemia. Com as informações desencontradas e a improvisação, o pânico tomou conta da população e o colapso foi total. Proibição de circulação, falência na assistência sanitária, de saúde e higiene, desemprego, fome, colapso no sistema funerário, foram algumas das consequências. Também em 1918 foram os pobres os que mais sofreram. A ponto de a Gripe Espanhola passar a ser conhecida como “doença de pobre”. O preconceito fazia com que os ricos, mesmo que morressem da doença, tivessem o óbito registrado como “doença respiratória”. Isso ajudou a camuflar o real número de mortos.

Como terapia, surgiam receitas mágicas (a Cloroquina da época), como estas, sugeridas pelo Jornal do Commercio, do Rio: “gargarejo com solução de ácido tímido ou suco de limão, óleo gomenolado ou vaselina mentolada, sal de quinino ou pastilhas, lavagem intestinal de malva com macela, emplastos de farinha de linhaça com mostarda, camomila, soluções homeopáticas para dores, chá de sabugueiro com caroba e casca de limão galego, entre muitos outros” (Cfr. http://ihp.org.br/26072015/lib_ihp/docs/ofsf19830814.htm). A indicação de uma mistura terapêutica de cachaça, limão e mel pode estar na origem da caipirinha.

Como podemos constatar, apesar dos imensos avanços tecnológicos, da consciência da dignidade e direitos humanos, entre outros, passados pouco mais de 100 anos, muita coisa ainda não avançou. Os dois relatos de Frei Pedro, além de nos informar sobre o passado, podem nos ajudar a refletir um pouco sobre nosso presente e futuro, sobre nosso lugar no mundo, diante de situações tão dramáticas. O que mudou desde então? Onde erramos? Tornamo-nos mais humanos? Somos capazes de ser agentes de esperança? O que mudará em nós, nas nossas relações com as pessoas, com as coisas, com Deus, no pós-pandemia? Certamente são questões muito pessoais, que atingem a todos, e que esperam de cada um, uma resposta. Seguem os dois textos de frei Pedro.

A epidemia de gripe de 1918 no Rio de Janeiro

“No começo de outubro, apareceu a gripe espanhola com tal intensidade que a metade da população ficou doente e no espaço de tempo de algumas semanas, 27.000 pessoas foram atingidas. No mais das vezes, a doença não era grave, porém, voltando alguma fraqueza, o que pode ser uma pequena coisa, recaída e trazer a morte. Foi tão longe que todo o tráfego tem sido atingido. Farmácias, padarias, açougues, etc., fechavam as portas uma depois da outra, não havendo os conhecidos cuidados de alimentação. Muitíssimos apenas curados tiveram que se expor a grandes esforços e assumir o cuidado dos membros doentes da família, tal que eles mesmos eram novamente vítimas e, desta vez, com a doença que traz a morte. Em alguns casos, toda a família ficava sem o cuidado, sem que fosse concedido aos doentes aliviar os últimos momentos dos parentes mais próximos. O número de falecidos era tão grande, que apesar das prescrições higiênicas, de que o sepultamento fosse feito em 24 horas, muitos corpos ficavam dois ou três, em alguns casos mesmo cinco dias permanecendo abandonados, empesteavam as casas e, às vezes, moradores desesperados os abandonavam na rua. Caminhões levavam corpos amontoados um sobre os outros para os cemitérios, onde tudo parava e mesmo com ajuda dos agentes da penitenciária, não era possível deixar prontos o número suficiente de covas . O maior número de vítimas foi de 12 a 25 de outubro. O número de bondes foi diminuído sensivelmente e mesmo os poucos bondes andavam muitas vezes vazios, como uma cidade sem pessoas vivas. A central telefônica não dispunha mais do pessoal necessário para manter o seu funcionamento em pé, justamente agora quando era duplamente necessária. Correio e telégrafo, tudo sofria com a ‘espanhola’. De todos os lados, e não por último pelo clero, aconteceu o humanamente possível, em alguns casos o sobre humano, em trazer a ajuda e diminuir o sofrimento, o último rasgo de esperança neste tempo muito difícil”.

A Gripe Espanhola em Petrópolis

“No mês de outubro, toda a cidade do Rio de Janeiro ficou atacada pela denominada gripe espanhola, que, numa carta pastoral do Cardeal, foi denominada como ‘peste’. Também em Petrópolis, nestas semanas de sofrimento, houve muitas vítimas, uma estimativa de 900 mortes. Durante todo o dia, um caminhão preto coberto trazia os corpos para o cemitério, onde, durante a noite, eram enterrados. Num dia se contou 60 enterros, sendo necessária a ampliação considerável do cemitério. O serviço público civil cuidou dos pobres, foram organizados vários postos sanitários, onde eram distribuídos alimentos e medicamentos. Várias comissões procuraram os doentes e trouxeram ajuda enquanto era possível. Em vários lugares, foram entregues hospitais militares em ação, assim na grande casa dos padres lazaristas e do Centro Católico. Em hospital de isolamento, as Irmãs de Santa Catarina se encarregaram do tratamento, em que várias delas ficaram doentes e uma delas faleceu. A Ordem Terceira organizou em nosso Convento um posto de atendimento, nossos padres estavam quase dia e noite fora, na ajuda aos doentes a dar os Sacramentos. Alguns frades pegaram a gripe, no entanto, nenhum deles faleceu”.


Frei Sandro Roberto da Costa é professor no Instituto Teológico Franciscano – Petrópolis, RJ, onde leciona as disciplinas História da Igreja Antiga e Medieval. É membro do Conselho Editorial da Revista Eclesiástica Brasileira e atua em cursos sobre história da Igreja e da Ordem Franciscana em geral, história dos franciscanos na América Latina e no Brasil. Presta assessoria e consultoria a instituições religiosas e de ensino. É autor de inúmeros artigos na área de História da Igreja, História do Franciscanismo e da Ordem Franciscana, e História da Vida Religiosa.

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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