Entrevista: Uma franciscana em missão permanente na Amazônia, com Irmã Carmem Almeida, ISFPD

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IRMÃ CARMEM LÚCIA DE ALMEIDA, ISFPD

Religiosa da Congregação das Irmãs de São Francisco da Providência de Deus, atualmente em missão na diocese de Óbidos – Pará. Integra a fraternidade religiosa Comunidade Nossa Senhora Aparecida. Teóloga (Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora), pós-graduada em Teologia Pastoral e Formação Humana, e especialista em Bíblia.
Atualmente está responsável pela Equipe de coordenação Diocesana de Pastoral e assessora diocesana de Catequese e da Pastoral da Criança, além de ser membro da Equipe de coordenação das Áreas: Comunidades Ribeirinhas e Quilombolas,
Paróquia Sant´Ana, Óbidos – Pará, e está como Coordenadora Núcleo Óbidos
do regional CFFB PA AP, além ser animadora Laudato Si’.
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1. A Vida Religiosa Consagrada feminina na Amazônia é expressiva. Há muitas casas, muitas irmãs, é uma realidade desafiadora diante de longas viagens de barco devido sua extensão. Como a senhora e sua congregação presenteiam a Amazônia?

A Igreja presente na diocese de Óbidos tem como lema: “Uma Igreja Missionária no Coração da Amazônia”. Partilhar a vida missionária é causa de alegria, traz ânimo e renova o encontro e o chamado de Deus à vocação. Nesse caminho missionário de “coração a coração”, guiadas pelo Espírito Santo, vivenciamos a missão como um grande Dom de Deus, cultivamos a espiritualidade que brota do seguimento a Jesus Cristo e comporta o desafio da Kenosis, que exige, necessariamente, despojar-se, desapegar-se e estar livre diante dos poderes deste mundo.

Assim, inspiradas em nosso Carisma Congregacional, somos testemunhas da Providência de Deus, vivendo na simplicidade, alegria e na escuta fraterna. Respondendo ao chamado de ser presença franciscana aqui, no coração da Amazônia, estamos presentes na área da saúde: na Santa Casa de Misericórdia e no Barco Hospital Papa Francisco, levando o cuidado com a saúde para as comunidades ribeirinhas; e, na pastoral, nas periferias da cidade, nas comunidades Ribeirinhas e Quilombola. Contribuímos na formação às comunidades, movimentos populares e organizações sociais. Buscamos ser uma vida religiosa consagrada, que luta pelos direitos dos mais pobres, dos últimos, de modo que a voz do pobre seja ouvida e sua dignidade promovida. É o Coração Comum que alimenta nossa vida e missão, expressa nossa maneira de ser, servir e trabalhar o cuidado entre nós. (Capítulo Geral 2021).

2. Inspirada em Francisco e Clara, como a missão de sua fraternidade é contemplada diariamente junto às mulheres, crianças, comunidade, movimentos e expressões de cuidado com nossa Casa Comum?

Nossa fraternidade, atenta ao Espírito Santo e às realidades onde estamos inseridas, dirige o olhar para a criação que clama ao Senhor, Pai e Criador, pelas dores que sofre. Nossa Mãe Terra, a nossa casa comum que nos acolhe, nem sempre recebe de nós o mesmo carinho e atenção. A voz profética da terra clama pela paz, que é fruto da justiça e que não se fecha apenas nas relações humanas, mas também entre os seres humanos e as demais criaturas.

Como São Francisco de Assis, deveríamos cantar a alegria de sermos irmãos e irmãs de todas as obras que nasceram da mão de Deus. Para ouvir ao clamor da terra e da vida humana fragilizada, atuamos na catequese e animando crianças, adolescentes e jovens para o reencantarem-se com a criação e, também, reencontrarem-se como irmãos e irmãs. Acreditamos ser este o caminho para testemunharmos o amor de Deus, não somente com palavras e cantos, mas nas atitudes cotidianas. Como gesto concreto, criamos nas comunidades os Círculos Laudato Si’ e incentivamos a participação nos cursos de Animadores Laudato Si‘ e guardiões e guardiãs da casa comum. Nos Círios dos padroeiros de algumas comunidades temos a distribuição de sementes, para serem plantadas pelas crianças da catequese. Essas sementes inspiram-nos a sermos semeadores do mundo novo, desejado e iniciado por Jesus. E, também, o uso sustentável de todo material que é usado nos encontros de catequese e formação na diocese.

3. Qual a importância do Círio de Nazaré na vida do Povo Paraense?

O Círio de Nazaré é a celebração da acolhida da Boa Nova de Cristo, da conversão ao Projeto de Jesus, da vivência dos valores do Reino, pelo testemunho de Maria peregrina, mãe de Jesus, discípula fiel, realizadora da palavra, imagem da Igreja; o desejo, a vivência e o anúncio da comunhão-solidária no círio, como festa da fé cristã-católica, realiza e atualiza, na Igreja particular de Belém do Pará, o mistério da salvação, como Boa Nova do Reino, sob o signo da opção preferencial pelos pobres e da libertação integral.

O Círio de Nazaré, sob a perspectiva da comunhão-solidária, expressa a realidade de uma Igreja como comunhão e participação de todo o povo de Deus, alicerçada nos sacramentos da iniciação cristã (batismo-confirmação-eucaristia) e, como tal, é uma afirmação da pertença e identidade eclesial.

O Círio de Nazaré, com sua estrutura e seus símbolos, expressa, dessa forma paradoxal, toda a vitalidade presente no interior da cidade de Belém do Pará, tornando-se um símbolo privilegiado de seu povo, para expressar seus sofrimentos e mazelas, mas também e, principalmente, seus desejos e vivências de solidariedade e suas esperanças de comunhão plena.

Círio significa, assim, um momento kairológico da práxis histórica dos povos e das comunidades amazônicas, que se expressa em forma de solidariedade e comunhão de indivíduos iguais, capaz de proporcionar aos devotos, romeiros e cirianos, em geral, um entusiasmo resistente, uma esperança perseverante, um dinamismo libertador na existência, que “enche os olhos” e “aquece o coração”, tal como acontecido com os discípulos na companhia do Ressuscitado em Emaús (Lc 24,31-32).

4. A Família Franciscana é composta por diferentes ramos, imbuídas de um mesmo carisma. Quais as articulações que a Família realiza em seu Regional?

A Família Franciscana nos seus diferentes ramos visa testemunhar, através de seu carisma, uma santidade própria da realidade amazônica, dedicando-se a uma mística do encontro, visando a aproximação; desenvolvendo uma contemplação da beleza natural, através do serviço a Deus, por meio da Palavra, da presença e da vida sacramental com os amazônidas.

Portanto, como família, buscamos atuar com o senso de solidariedade, estimulando a cultura do encontro, incentivando e reconhecendo, não uma hegemonia cultural, mas dentro da matriz franciscana, as variedades culturais e religiosas e, respondendo aos novos desafios, como a imagem do rio na perspectiva amazônica que nunca separa, mas une as culturas e línguas diferentes. Buscamos viver a unidade para celebrar, com alegria, nosso carisma comum.

5. Poderia compartilhar conosco uma frase, uma reflexão própria da cultura
amazônica que alimente e revigore o espírito natalino?

Pedi para um jovem que é liderança em uma de nossas comunidades para falar
sobre o Natal. Ele fez uma poesia, isto é muito próprio do povo daqui.

Eis que o Natal se aproxima,
Tempo de esperar o Senhor.
A manjedoura está na Amazônia,
Cercada de mata verde lá no interior.

Vamos, juntos, meu povo querido,
É tempo de celebrar.
O menino que vai nascer é Jesus,
E nas folhas das castanheiras
Vamos enrolar.
Na Amazônia brasileira,
Vamos alegres cantar.

O verbo se fez carne e arma
tenda na Amazônia.
Os indígenas vieram adorar,
Os ribeirinhos em suas canoas,
Vieram presentear.

Venham todos adorar,
O Rei acabou de nascer.
Vamos seguir a estrela
Antes do amanhecer.

A Amazônia também é Belém,
Os campos têm muitos pastores.
Já é Natal nesta terra querida,
Sejam todos anunciadores:

É Jesus, o Salvador,
Que acabou de nascer.

Autor: Ronielson Nunes

 

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