Francisco de Assis: sobre a minoridade do menor dos servos de Deus

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São Francisco de Assis pretendeu que a ordem dos penitentes fosse conhecida como Ordem dos Frades Menores. Implicitamente, compreende-se a relação entre a palavra “menor” e a famosa pobreza assumida por ele e seus companheiros. Mas qual é, de fato, o significado mais profundo e essencial da minoridade franciscana?

O substantivo “minoridade” não aparece nos escritos de Francisco, enquanto o adjetivo “menor” aparece quatorze vezes. Isso pode dizer da realidade concreta e existencial da dimensão assumida por Francisco, mais do que uma conceituação abstrata. A vida de Francisco nos ajuda a diferenciar minoridade da humildade, porque é, não uma virtude ou caminho de santidadepessoal, mas condição relacional daquele que se faz menor que algo ou alguém (GOMES, 2022. p.115-116), porque ela foi marcada por relações profundas.

Toda a espiritualidade franciscana é cristológica. E é em Cristo, que se encontram os dois fundamentos principais da minoridade (CARGNONI, 1983. p.310). O primeiro é relativo às advertências do próprio Cristo aos seus discípulos: “todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão” (Mt 20, 26b-28). Francisco obedece a esta advertência e é fascinado pela humildade de Jesus. O segundo fundamento está justamente no abaixamento do Cristo (kénosis) na Encarnação: “Ele, sendo rico acima de todas as coisas, quis neste mundo, com a beatíssima Virgem, sua Mãe, escolher a pobreza” (2Fi 4-5). A minoridade do Senhor alcançou o ápice na Paixão e se perpetua na Eucaristia: “Ó humilde sublimidade: o Senhor do Universo, Deus e Filho de Deus, tanto se humilha a ponto de esconder-se, pela nossa salvação, sob a forma módica de pão. Vede, irmãos, a humildade de Deus e derramai diante dele os vossos corações” (Ord 27-29).

Francisco, adentrando no mistério mais profundo do Cristo, derrama o seu coração nesse propósito e convida seus irmãos ao mesmo. A minoridade precisa tocar todas as dimensões da vida. A grandeza de um Deus que serve e lava os pés de nossa humanidade pequena e corrompida é um caminho de gratidão ao “Altíssimo e Onipotente”, pela qual Francisco exorta para que “restituamos todos os bens ao Senhor Deus altíssimo” (RnB 17, 17), e testemunha na sua doação completa de tudo o que era e tinha ao Senhor e aos irmãos. O reconhecimento do Senhor ilumina também a nossa condição pessoal de pecado e miséria, consternação muito presente na biografia de Francisco (Fior 9). Porém, essa não é uma humilhação autodestrutiva, mas constitui o senso de realidade que o fez admoestar que “quanto é o homem diante de Deus, tanto é e não mais” (Adm 19,2). Compreende a condição maravilhosa de sermos criados à imagem e semelhança de Deus e a projeta sobre um projeto de conversão e seguimento do Cristo, verdadeiro modelo dos menores. Por fim, o ser menor permite que o frade – e a todos os que aderem a tal propósito, consiga servir, amar e obedecer ao mistério e ao dom que Deus manifesta no irmão (Adm 17), no inimigo (RnB 22, 1-4) e na Criação (Cnt 1-3).

Para além da humildade do Cristo e a virtude evangélica, a minoridade franciscana, portanto, é uma proposta de fraternidade que constrói o Reino de Deus, reino das bem-aventuranças dos que se fazem menores por amor e não por autocomiseração. “E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que eu devia fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do Santo Evangelho” (Test 14). Esse só pode ser o pensamento de alguém que descobriu que o Evangelho, o discipulado do Cristo humilde, só pode ser vivido na relação em que eu me coloco como menor, como servo de toda criatura, fonte de amor, arauto da Paz e do Bem.

Felipe Gonzaga de Oliveira e Silveira, postulante franciscano conventual. Petrópolis, Maio de 2022.

Siglas das Fontes Franciscanas:

2Fi – Segunda Carta a todos os fiéis

Adm – Admoestações

Cnt – Cântico às Criaturas

Fior – Fioretti

Ord – Carta a toda a Ordem

RnB – Regra Não-Bulada

Test – Testamento de São Francisco

REFERÊNCIAS

GOMES, Fábio Cesar. Introdução à Espiritualidade Franciscana: textos e contextos, atualidade, testemunhos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.

FONTES FRANCISCANAS. Coord.: Dorvalino Francisco Fassini (2ed.). Santo André, SP: Editora O Mensageiro de Santo Antônio, 2020.

HUMILDADE, humilhação (por ConstanzoCargnoni). In: Dicionário Franciscano. Traduzido por Família Franciscana Brasileira. Petrópolis, RJ: Editora Vozes e CEFEPAL, 1983.

Despertar Franciscano

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