Frei Sandro: “A ‘crise de vocações’ pode nos ajudar a avaliar toda nossa forma de evangelizar”

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Um dia, o ajustador mecânico de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, percebeu que não estava feliz trabalhando numa metalúrgica que fabricava armas. Vidas importavam mais e foi em busca desse sonho no Seminário dos Redentoristas. Ali se sentia bem, mas o contato com os Frades Menores em Guaratinguetá sedimentou sua busca.

O jovem paulista Sandro Roberto da Costa vestiu o hábito franciscano no dia 18 de janeiro de 1985 e fez a profissão solene da Ordem dos Frades Menores no dia 2 de agosto de 1990.

Depois de ordenado presbítero, em 19 de dezembro de 1992, encarou a missão de “formar homens”: “Percebi que não pretendia ser apenas um sacerdote, mas alguém que pudesse servir de um modo mais ‘alternativo’ às pessoas”, conta.

Doutorado em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália (2000), foi diretor do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis por dois mandatos (2007-2009/2010-2012). Atualmente é professor no Instituto Teológico Franciscano – Petrópolis, RJ, onde leciona as disciplinas História da Igreja Antiga e História da Igreja na idade Média.

Nesta entrevista, que de antemão registramos nosso agradecimento pela generosidade e boa vontade de Frei Sandro, procuramos ‘explorar’ todo o seu conhecimento em temas como clericalismo, grupos tradicionalistas na Igreja, abusos, Pontificado de Francisco, sinodalidade, Concílio Vaticano II, mulheres na Igreja, crise de vocações, sinais dos tempos, educação no Brasil, além de falar um pouco de sua vida, sua família e vocação.

Frei Sandro é membro do Conselho Editorial da Revista Eclesiástica Brasileira e redator da “Revista Grande Sinal”. Atua em cursos sobre história da Igreja e da Ordem Franciscana em geral, história dos franciscanos na América Latina e no Brasil. É autor de inúmeros artigos na área de História da Igreja, História do Franciscanismo e História da Vida Religiosa. Organizou o livro “Imaculada: Maria do povo, Maria de Deus”, além de outras publicações. Presta assessoria e consultoria a instituições religiosas e de ensino.

Boa leitura a todos!

Moacir Beggo


 

Site Franciscanos – Fale um pouco de sua vida e sua família?

Frei Sandro – Tive a sorte de nascer numa família relativamente numerosa: somos três homens e três mulheres (uma quarta irmã faleceu no parto). Sou o filho mais velho. Minha mãe faleceu há pouco mais de 4 anos. Meu pai está com 83 anos. Viveram juntos por 55 anos. São pessoas simples, que lutaram muito para dar uma vida digna aos filhos, com uma grande sabedoria de vida e uma profunda religiosidade. Meu pai é Congregado Mariano desde os 14 anos. Desde muito pequeno eu o acompanhava para a reza do terço numa capelinha do bairro, participava das reuniões da Congregação. Minha família é muito unida, gosta de fazer festa e de falar muito. Quando nos reunimos, brincamos que temos que “pegar uma senha” para esperar a vez de falar.

Site Franciscanos – Como se deu seu discernimento vocacional? Por que a escolha pela Ordem Seráfica?

Frei Sandro – Desde muito criança, com meus 7 ou 8 anos eu já queria “ser padre”. Lembro-me que esta vontade se manifestou uma primeira vez quando da instalação da Paróquia onde morávamos, Paróquia São Sebastião, em São José dos Campos, SP. Guardo boas lembranças do primeiro pároco, padre Padoan, um verdadeiro pastoralista, muito próximo do povo simples. Em março deste ano, a paróquia completa 50 anos de existência. Segui a trajetória paroquial, como coroinha, cruzada eucarística, crisma, etc. Fiz alguns encontros vocacionais, até visitei o Seminário Diocesano de Taubaté, que era a casa de formação da Diocese. Poderia ter entrado com 12-13 anos. Mas não me animei muito a me tornar padre diocesano.

Na adolescência adquiri um livro intitulado Francisco, Cantor da Paz e da Alegria (Deodato Ferreira leite, Paulinas), que foi fundamental no meu processo de discernimento. Fiquei empolgado com o estilo de vida de São Francisco, com sua simplicidade de vida, com sua proposta de vida evangélica em fraternidade. Me marcou muito seu amor às criaturas. Certamente, esses elementos foram se “purificando” ao longo do tempo, mas esse primeiro impacto foi fundamental para as decisões que viriam depois. Naquele momento, nem imaginava que poderia um dia me tornar franciscano. Nem imaginava que existia uma Ordem Franciscana. Não conhecia nenhum frade, não sabia que em Guaratinguetá tinha uma casa de formação. Acabei meio que “deixando de lado” a ideia de “ser padre”, e segui minha formação humana. Fiz um curso profissionalizante no Senai (sou Ajustador Mecânico). Trabalhei numa metalúrgica que fabricava armas, e que vendeu muitos armamentos durante as guerras no Oriente, e também para Angola (Guerra Civil entre 1975 e 2002). Continuei participando da vida paroquial, com grupo de jovens, e seguia uma vida normal, de trabalho e estudos.

Mas a vontade de experimentar uma outra possibilidade de vida persistia, e algumas coisas aos poucos ficavam mais claras. Percebi que não pretendia ser apenas um sacerdote, mas alguém que pudesse servir de um modo mais “alternativo” às pessoas. Simpatizei com o estilo dos padres de Aparecida, onde íamos todos os anos em romaria. Acabei ingressando no Seminário, seguindo o conselho de um amigo que também ingressara lá, Padre Milton Faria (hoje padre diocesano). Passei dois anos muito bons no Seminário Santo Afonso, entre 1982 e 1983. Tenho gratas lembranças da equipe de formação, dos colegas de turma, e, principalmente, da formação recebida. A equipe de formação era muito antenada com os acontecimentos naqueles inícios dos anos 80, muito críticos da ditadura militar, ligados à Teologia da Libertação. Nos fins de semana, além das pastorais, ajudávamos na Basílica de Aparecida. Como Ministro da Eucaristia, ajudava na distribuição das comunhões.

Foi em Aparecida que tive meu primeiro encontro com os franciscanos de Guaratinguetá, no Convento das Graças. Foi no Trânsito de São Francisco. Embora me sentisse muito bem entre os Redentoristas, já no primeiro contato percebi que ali era o meu lugar. O processo de transferência foi relativamente simples: de comum acordo com meu formador redentorista (Padre Carlos Artur, que faleceu em Aparecida em novembro, vítima de Covid), participei de um encontro vocacional no Postulantado. Os formadores eram Frei Ulrich Steiner, Frei Régis Daher e Frei Alcides Cella. Fui aprovado e ingressei em 1984. Como já tinha dois anos de seminário, durante o ano sugeriram que eu poderia ir para o noviciado no ano seguinte. Ingressei no noviciado em 1985.

Site Franciscanos – Como Frei Sandro se autodefine?

Frei Sandro – A coisa mais difícil é falar sobre você mesmo. De qualquer modo, defino-me como uma pessoa simples, sem maiores pretensões do que aquilo que Deus me permite viver. Apesar dos percalços e desafios comuns à vida de todas as pessoas, posso dizer que sou uma pessoa realizada, feliz com o que faço. Por isso também sou imensamente agradecido a Deus por tudo: pela minha família, pela Província que me acolheu, pelos formadores, pela formação recebida. Não tive um processo fulminante de conversão, e nem tive uma inspiração franciscana desde a mais tenra infância. Mas percebo hoje, olhando para trás, que Deus foi me conduzindo pela mão desde muito cedo. Gosto de estar com as pessoas, me realizo no trabalho de evangelização, principalmente entre as pessoas simples de nossas comunidades. Apesar de todas as limitações, procuro ser fiel à vocação franciscana à qual fui chamado. Acredito no carisma franciscano como uma possibilidade de vida pessoal e eclesial, de acordo com os princípios pregados por Jesus, de simplicidade, desapego, fraternidade. Sinto-me bem no contato com a natureza, lidando com a terra, com trabalhos manuais. Sempre gostei muito de ler. A vida acadêmica me realiza. Dou muito valor à vida fraterna. Lembro com carinho das palavras de meu mestre de noviciado, Frei Carlos Pierezan, que sempre recordava que, nos momentos mais difíceis, foi a vida fraterna que o manteve firme na vocação franciscana.

Site Franciscanos – Como professor Sandro avalia a educação no Brasil de um modo geral?

Frei Sandro – Da educação depende o futuro de um país. No Brasil de um modo geral, como nos países com grande desigualdade social, a educação não é valorizada. Temos o orgulho de dizer que o criador de um dos mais importantes métodos de educação do mundo é brasileiro, Paulo Freire. Mas a questão é que uma educação pública de qualidade é fruto de planejamento, de políticas públicas. No sistema liberal, onde cada um tem que “se arranjar” por conta própria, onde se fala tanto de empreendedorismo, de meritocracia, a educação, que é direito básico da pessoa, é transformada em produto. Só quem tem dinheiro consegue garantir estudo de qualidade para seus filhos. De um modo geral a educação pública no Brasil é simplesmente uma tragédia. Algumas conquistas dos últimos anos, como o Enem, estão sendo desmontadas e desacreditadas cada vez mais. E a pandemia escancarou ainda mais a realidade dessa imensa desigualdade e injustiça. Não existe futuro para um país sem educação. No Brasil, este futuro está garantido apenas para quem pode pagar, e muito bem. E isso só perpetua a desigualdade.

Site Franciscanos – Frei, a Igreja Católica sabe ler os sinais dos tempos?

Frei Sandro – Aqui é bom lembrar que a Igreja é constituída de todos os batizados. Não apenas o papa, os bispos, a Cúria (hierarquia), os religiosos, etc. Da parte do povo de Deus, há sim pessoas na Igreja que conseguem ler os sinais dos tempos. Mas para interpretá-los é preciso paciência, tempo, amadurecimento, para que os sinais sejam perceptíveis por um grupo cada vez maior de pessoas. Alguns membros da Igreja, iluminados pelo Espírito, atentos ao Evangelho e aos sinais que Deus nos envia cotidianamente, conseguem ver além de seu tempo. Geralmente são aqueles que estão diretamente envolvidos na luta do povo, na pastoral, na linha de frente dos desafios sociais, geralmente desligados ou distantes das estruturas, necessárias, mas muitas vezes alienantes e acomodatícias. Certamente, a teologia, a reflexão aprofundada e séria, também é um meio para se perceber os sinais dos tempos. Mas tem que ser uma teologia que esteja conectada à realidade, com a pastoral, com o pé no chão. Me lembro bem de uma máxima, que era repetida pelo meu professor Frei Clodovis Boff: “A cabeça pensa a partir de onde pisam os pés”. Precisamos de reflexão, de maturidade e senso crítico para interpretar e entender os sinais dos tempos. Aqueles que conseguem percebê-los nem sempre são compreendidos. São considerados visionários, loucos ou hereges. Foi o caso de São Francisco. Sua Ordem teve sucesso porque respondeu aos sinais dos tempos em seu tempo. Ele também foi incompreendido, chamado de louco, herege, alternativo… Muitas das “novidades” trazidas por Francisco não foram assimiladas, outras foram esquecidas, até hoje.

Site Franciscanos – Explique, por favor, o que é clericalismo?

Frei Sandro – O clericalismo é um dos grandes males da Igreja. Historicamente, o padre sempre ocupou um lugar de destaque na sociedade. Falando especificamente do Brasil, desde os inícios, ao mesmo tempo em que a Igreja funcionava alicerçada no catolicismo leigo, de “muita reza e pouca missa, muito santo e pouco padre”, a figura do sacerdote era respeitada, por ser ele o mediador do sagrado. Mas este ministro era alguém muito próximo do cotidiano das pessoas, muitas vezes tendo que trabalhar duro, ao lado do povo, para se sustentar. Com a romanização, a partir da metade do século XIX, foi sendo tirado o protagonismo do leigo nas comunidades, e o papel do clero foi sendo colocado cada vez mais em evidência, fortalecendo a ideia de um ser destacado do comum das pessoas, com uma aura de sacralidade. A formação nos seminários, dirigidos por religiosos de congregações trazidas especialmente da Europa, ajudou a completar esse quadro. O celibato, o clergimam, a batina, o distanciamento do povo, da família, no período de formação, o monopólio dos Sacramentos, especialmente da Eucaristia, serviram para consolidar essa imagem. O padre ficou “trancado na sacristia”, ocupando-se apenas das coisas espirituais. As questões sociais, as injustiças, a política, não lhe diziam respeito. A formação na vida religiosa também seguiu esta orientação. Até meados do século XX essa foi, no geral, a mentalidade que vigorou. Não queremos aqui negar a santidade, o testemunho e a seriedade de muitos padres formados neste estilo de Igreja. Mas, em meados do século XX estava claro que este modelo estava ultrapassado. O advento do Vaticano II e as reuniões do Episcopado Latino Americano (Celam) trouxeram a esperança do surgimento de um novo modelo de Igreja e um novo tipo de ministro, menos centralizador, mais próximo das pessoas e de suas labutas cotidianas. E isso gerou muita crise. Avançou-se em alguns aspectos, mas em outros nem tanto. A grande questão é, sobretudo, a formação para os ministérios ordenados, seculares ou religiosos. O candidato ainda é formado dentro de determinados parâmetros que o colocam quase como um “semideus”. Recebem na ordenação um poder para o qual muitos não estão preparados para lidar. Esquecem que este poder só será eficaz se for vivido a partir da autoridade que brota do amor, autoridade que vem da misericórdia, do testemunho do serviço desinteressado. Sem essa verdadeira autoridade, o poder clerical desbanca para o clericalismo. Ao invés de servirem ao Reino através do serviço aos irmãos, servem a si mesmos. Ao invés de colocarem Jesus no centro de sua missão, colocam-se a si mesmos, o próprio eu. Ao invés da corresponsabilidade na missão, cedem à tentação da autossuficiência, do triunfalismo. Inflexíveis, respaldados pelo Direito Canônico (interpretado segundo a conveniência), sem misericórdia, abusam do poder que têm. Alguns, despreparados até intelectualmente, confrontam-se com leigos e leigas muito melhor preparados do que eles na paróquia e na pastoral em geral. Isso gera medo, insegurança, desconforto. E aí, muitas vezes, o jovem padre se assegura através da ordenação recebida, se esconde atrás do microfone, do púlpito e do altar, do poder que lhe foi confiado pela Igreja. Outra questão a destacar é que o clericalismo não é só do padre: também os leigos são clericais, quando alimentam este tipo de comportamento. Não ajudam o padre a crescer, a amadurecer. Ao contrário, bajulam, colocam-no num pedestal. O clericalismo do leigo cria uma dependência infantil, uma obediência escrupulosa ao sacerdote, (além de alimentar a infantilidade do ministro). Tal comportamento pode ser consequência da formação recebida no seminário, mas também da formação familiar, religiosa, cultural, além do caráter e da incapacidade de refletir, de ter um pensamento crítico. É também fruto de muita ignorância. Infelizmente muitos seminários e casas de formação religiosa alimentam e perpetuam este tipo de comportamento, colocando a ordenação como se fosse um mérito (a meritocracia está na moda hoje), como um prêmio, pela bondade, pela santidade, pelo esforço pessoal. Sem contar que, em alguns casos, é uma busca de meio de vida. Acho que não existe um antídoto ao clericalismo, mas alguns elementos podem ajudar a combater esse “vírus”: uma formação atenta e personalizada, estudo sério, crítico e sempre atualizado da teologia, da exegese, leitura atenta aos sinais dos tempos, o serviço dedicado e amoroso aos pobres, uma vida ancorada na simplicidade, na vivência profunda do Evangelho e na oração. E, principalmente, ouvir o Papa Francisco, que nos convida a sermos uma Igreja em saída, indo às periferias, sociais e existenciais, e que coloquemos em prática a sinodalidade. O papa chegou a afirmar que o clericalismo é uma perversão. Esse comportamento, como já acenei, está presente também entre os religiosos e entre os franciscanos. E o clericalismo na vida religiosa franciscana, dos irmãos vocacionados a serem “menores”, não tenho nenhum receio de afirmar, é uma traição aos ideais de São Francisco. Sobre isso poderíamos escrever um livro inteiro. Como afirma São Francisco, na Admoestação 19: “Bem-aventurado o servo que não se considera melhor quando é engrandecido e exaltado pelos homens do que quando é considerado insignificante, simples e desprezado, porque, quanto é o homem diante de Deus, tanto é e não mais”.

Site Franciscanos – Por que esse apego de certos grupos a ritos tradicionais, insistindo num catolicismo sem grande incidência na vida pessoal e social?

Frei Sandro – O apego aos ritos tradicionais se dá como consequência da compreensão que estes grupos têm de Cristo e da Igreja. Sua visão de Igreja, de liturgia, de teologia, é anacrônica, de séculos atrás, em alguns casos até anterior a Trento. Uma Igreja triunfante, imaterial, típica do regime de cristandade, desvinculada da história, alheia às grandes questões que tocam a todos os homens e mulheres. Isso decorre da imagem que cultivam de Cristo, desencarnado da realidade, indiferente ao destino do mundo. Sob a capa de piedade e devoção, revela-se um cristianismo amorfo, irrelevante, intimista, sem nenhuma relação com as sérias e urgentes demandas da humanidade. Acabam caindo na heresia docetista e nas várias heresias dualistas, que subestimavam a realidade histórica de Jesus, chegando alguns até a negá-la. A base de fundo destes movimentos é a rejeição em bloco do Vaticano II e as declarações das Conferências da América Latina. Ignoram a caminhada da Igreja, a história dos dogmas. São capazes de repetir todos os cânones do Direito Canônico, repetem de memória certas máximas da Suma Teológica, de Santo Agostinho (de preferência em latim), mas não passam disso. São fundamentalistas inflexíveis. Não aceitam o ecumenismo, muito menos o diálogo inter-religioso, que consideram uma relativização das verdades da fé. Extremamente fechados à discussão em relação a questões morais e de comportamento, não consideram os avanços das ciências humanas, da psicologia, da sociologia, da antropologia. Simpatizantes dos movimentos políticos de extrema-direita, são fautores de um cristianismo sem alma, sem caridade, sem misericórdia. Falam mais do demônio e do inferno do que de Jesus, falam mais do pecado do que da misericórdia, conhecem mais as normas do que o Evangelho. Ignoram totalmente a fala do Papa Francisco, que quer uma Igreja como um hospital de campanha, que cuida dos feridos, dos enfermos, dos doentes, ao invés de lhes apontar o dedo para as feridas, os pecados e fragilidades. Muitos destes membros de grupos tradicionalistas falam sem saber, criticam documentos, pronunciamentos do magistério, sem nunca os terem lido. São formados no que chamamos de “magistério paralelo”, seguindo líderes carismáticos, youtubers de batina, que só confirmam suas ideias e crenças. Forma-se assim um gueto na Igreja, de pessoas formadas (ou des-informadas ou de-formadas), a partir de um pensamento só. As mídias sociais são o grande meio de difusão destas ideias conservadoras. Um dos motivos do crescimento destes grupos é que eles dão respostas prontas e definitivas a questões que, nesta sociedade “líquida”, nem sempre têm respostas prontas e imediatas. As questões colocadas à Igreja hoje, nos mais variados campos da moral, dos costumes, da teologia, das relações humanas em geral, são questões e situações extremamente complexas, que precisam ser analisadas sob os mais diversos aspectos, exigem reflexão, análise acurada e amadurecida, dentro do contexto geral do século XXI, mas também do contexto pessoal de homens e mulheres concretos, na sua individualidade. E isso dá trabalho, leva tempo. Em momentos de crise, é melhor agarrar-se ao passado, àquilo que “sempre funcionou e deu certo”. Na verdade, trata-se de uma busca de segurança imediata, num mundo extremamente inseguro. Infelizmente, apoiados por bispos que pensam como eles, sentem-se autorizados a criticar os demais bispos, a CNBB, até o Papa Francisco. Para alguns grupos, Bento XVI ainda é o “papa legítimo” (o próprio Bento XVI desautorizou publicamente isso num recente pronunciamento). Fala-se muito dos problemas dos “católicos progressistas”, mas quem dá mais dor de cabeça aos bispos e ao papa são os católicos tradicionalistas. Um outro elemento neste rol de características que identificam estes movimentos é o ritualismo estético, marcado por vestes litúrgicas pomposas e extravagantes, insistência em gestos rituais acessórios, como a comunhão na boca, de joelhos, o uso do véu para as mulheres, típicos de uma Igreja dos tempos de cristandade. Muitos dos candidatos à vida religiosa ou ao clero secular vêm deste ambiente: coroinhas, que conhecem todos os detalhes do missal e do lecionário, dominam todos os gestos e as mínimas rubricas litúrgicas; ou de “comunidades de vida”, onde em geral o tradicionalismo impera, e que, em alguns casos, é um refúgio para pessoas desequilibradas, que precisam de ajuda psiquiátrica. É o ambiente eclesial que forma muitos de nossos jovens hoje. E os que vem a nós, temos que reconhecer, vem com espírito sincero. São piedosos, devotos. A ascensão do tradicionalismo, principalmente entre os jovens, também é consequência do fato de que a Igreja não soube e não sabe lidar com os jovens. A catequese em nossas paróquias é extremamente falha, nossas igrejas são frequentadas, em sua imensa maioria (salvo exceções), por idosos e pessoas de meia idade e mulheres. Não conseguimos atrair a juventude com nosso discurso, com nossa práxis. Nesse sentido, precisamos fazer uma séria autocrítica e interpretar os “sinais” que os tempos estão nos transmitindo.

Site Franciscanos – Como o sr. avalia essa onda de revelações de abusos clericais? Quando começam aparecer casos na história da Igreja?

Frei Sandro – Os abusos vieram à tona de modo explícito nas últimas décadas. Embora já há algum tempo se falasse e se comentasse muito discretamente. João XXIII tratou do assunto com alguns bispos. Nas últimas décadas, especialmente durante o pontificado de João Paulo II, começaram a surgir cada vez mais denúncias, que a princípio foram vistas com suspeita pela Igreja, e foram colocadas “sob o tapete”. Embora o tema não seja circunscrito ao ambiente clerical, mas esteja presente em todos os ambientes humanos, as denúncias na Igreja estouravam por todo lado, sendo muito fortemente exploradas pela mídia. Bento XVI herdou um imenso problema, e embora tenha tomado algumas medidas, estas não foram fortes o suficiente para responder principalmente às vítimas, mas também aos cristãos e à opinião pública. Há a suspeita de que a renúncia do papa tenha muito a ver com a constatação de sua inabilidade para lidar com o assunto. Papa Francisco enfrentou o problema de frente, não sem críticas e sérios dissabores e contragolpes. E a luta continua. Os casos vieram à tona favorecidos por alguns fatores, como a maior facilidade de acesso aos meios de comunicação, uma maior consciência dos direitos e da dignidade da pessoa, a secularização e a “dessacralização” da pessoa do sacerdote, que deixou de ser visto como uma pessoa acima da lei. Certamente houve e há muita calúnia, injustiça e aproveitadores, e é um assunto extremamente delicado: um falso testemunho destrói para sempre a vida de uma pessoa. Por isso, o Papa Francisco empenhou-se pessoalmente em dar balizas claras e coerentes para enfrentar o problema de frente, ao invés de usar medidas paliativas, como transferir o suspeito, e com ele o problema. A Igreja saiu com a imagem arranhada no mundo inteiro, mas principalmente nos países onde os casos mais graves vieram a público. Nos Estados Unidos, as Dioceses tiveram que pagar indenizações milionárias às vítimas. É uma oportunidade para a Igreja fazer um mea culpa, e se perguntar: o que deu errado? Porque tantos casos de pedofilia e abusos de crianças, da parte daqueles que deveriam ser os primeiros a protegê-las, a ser testemunho e exemplo de vida ética, de moral e de respeito? O tema coloca à Igreja questões muito sérias sobre sua presença e atuação no mundo. Alguns de imediato alardeiam o fim do celibato, outros sugerem uma mudança na seleção e formação dos candidatos aos ministérios. De qualquer modo é uma oportunidade de purificação da Igreja, que deve, em alguns lugares, deixar de lado o triunfalismo, o clericalismo, a aliança com os poderes espúrios, e se engajar de fato no anúncio do Reino. O mal causado às vítimas é irreparável. Além de ser um pecado, é crime, e é uma tragédia para a Igreja. Dessa tragédia pode sair uma Igreja mais pura, mais simples, mais pobre e mais Evangélica.

Site Franciscanos – Percebe-se na história eclesial resistências às mudanças e isso fica claro no Pontificado de Francisco. Por que essa transformação eclesial é, muitas vezes, mais lenta que o processo social e cultural?

Frei Sandro – Resistências a mudanças sempre existiram na Igreja. Por ser uma instituição de dois mil anos, com uma estrutura pesada, envolvendo bilhões de pessoas do mundo inteiro, provenientes das mais diversas culturas, qualquer mudança gera uma insegurança, um receio muito grande. Isso é natural nas grandes instituições, e quanto mais antigas mais difíceis de digerir as mudanças. Mas, como diz Elis Regina, “o novo sempre vem” (na canção Como nossos pais). No século passado, nos últimos 50 anos, aconteceram mais mudanças na sociedade, em todos os níveis, do que nos 500 anos anteriores. E essas transformações incidiram profundamente sobre o humano. Fala-se hoje de pós-modernidade, globalização, mundo líquido, modernidade líquida, etc. Seja qual for a denominação, estamos numa profunda “mudança de época”. Isso tem que ser levado em consideração quando se trata do eclesial. As rápidas mudanças geram incertezas, insegurança. É natural uma reserva e um agarrar-se na segurança do que “sempre deu certo”. O problema é que não está mais dando certo. Temos respostas a perguntas que as pessoas não fazem mais. Com o advento de Francisco percebeu-se que a reforma pode ser um caminho compartilhado, um processo fruto da já citada sinodalidade. Alguma coisa já se fez. Mas ainda muito falta a fazer. Por outro lado, as reformas geralmente não acontecem de cima para baixo. Elas são suscitadas a partir da base, que insiste e urge a necessidade de mudança. Nesse sentido é também um caminho a ser percorrido por todo o Povo de Deus.

Site Franciscanos – Como o sr. vê os pontificados depois do Concílio Vaticano II até o Papa Francisco?

Frei Sandro – Quando fazemos um balanço dos pontificados a partir da segunda metade do século XX, o Vaticano II sempre é a referência. O Concílio foi uma grata surpresa para a Igreja, “a flor de uma inesperada primavera” (João XXIII), que realizou-se graças ao espírito aberto e lúcido do “Papa Bom”. Este espírito continuou com força e coragem com Paulo VI, com o engajamento do episcopado Latino Americano num esforço em colocar em prática as diretrizes do Concílio. Mas já no fim da Assembleia começaram a surgir dissidências que prenunciavam tempestades futuras. A grande questão é que a Cúria Romana, envelhecida, tradicionalista, com uma organização que vinha de séculos atrás, não foi reformada. Acabado o Concílio, Paulo VI ficou sozinho, com uma Cúria disposta a tudo para impedir as reformas. Por isso muitas propostas inovadoras não avançaram (ainda hoje). A eleição de João Paulo I foi um sopro de esperança. Com o advento de João Paulo II, parecia que algo novo iria acontecer. O primeiro papa não italiano em séculos, que havia conhecido o terror nazista e a ditadura comunista, revelou-se um papa midiático, carismático, que suscitou esperanças e um novo ânimo na Igreja. Mas era mais um pastoralista do que um teólogo. Seu “golpe de mestre” foi nomear o Cardeal alemão Joseph Ratzinger como Prefeito da Congregação de Doutrina da Fé. As propostas reformadoras do Vaticano II foram sendo deixadas de lado. Na sua primeira viagem internacional, ao México, em 1979, o papa fez uma dura intervenção, em sentido conservador, nos resultados finais da Conferência de Puebla. Também interveio muito fortemente nas Igrejas locais, principalmente no Brasil, nomeando bispos de tendência conservadora. Agiu do mesmo modo na Cúria, preparando seu sucessor. Assombrado pelo fantasma do comunismo, perseguiu duramente os teólogos latino americanos da Teologia da Libertação. Seu fechamento ao diálogo, a oposição, aberta ou velada, em alguns casos, aos avanços propostos pelo Vaticano II, fizeram com que se cunhasse a expressão “volta à grande disciplina”, para se referir ao seu pontificado. Embora tenha sido o papa das multidões, das viagens que reuniram milhões de católicos mundo afora, dos gestos marcantes, sua teologia tradicional não tocava a fundo nos problemas do mundo moderno, já às vésperas do século XXI. Quase poderíamos afirmar que o Papa que ficou “santo súbito”, teve muitos admiradores, mas não tantos seguidores. Joseph Ratzinger foi eleito para dar continuidade ao programa conservador de João Paulo II. Sem o carisma e a espontaneidade de seu antecessor, teve que enfrentar inúmeros escândalos, desde o vazamento de documentos da Cúria (caso Vatileaks), ou o escândalo com o fundador dos Legionários de Cristo, e, principalmente, os abusos de menores. Bento era considerado por alguns o melhor teólogo da Cúria. Porém, tímido, reservado, com pouca habilidade diplomática, vivendo ainda num espírito de cristandade, foi incapaz de perceber os reais desafios contemporâneos, as reais urgências da Igreja e dos cristãos de todo o mundo. Sabemos hoje que ele se opôs abertamente a João Paulo II quando da realização do encontro interreligioso de Assis. Sua renúncia, além de inusitada, foi um gesto de grandeza. A eleição do “Papa do fim do mundo” foi uma surpresa para o mundo inteiro, mas representou também uma mensagem: a Cúria estava percebendo a necessidade de mudança. O Papa Argentino sabe o significado de sua eleição. E está se esforçando por corresponder às expectativas. A criação da Comissão de Cardeais dos cinco continentes para ajudá-lo num plano de reforma suscitaram esperanças. Concretamente parece que pouca coisa foi feita até agora. No entanto, através de seus gestos eloquentes, desde o nome assumido e o local que escolheu para morar, através de seus documentos, e do seu esforço por propor uma Igreja aberta e atenta às grandes feridas que atingem a humanidade inteira, independente de credo, Francisco indica o caminho e incentiva os que acreditam numa Igreja mais evangélica. O Papa sabe que uma reforma das estruturas e das instituições, embora seja importante, só será eficiente se houver uma conversão que vá à raiz dos problemas, se houver uma verdadeira metanóia. E é isso que ele espera de seus colaboradores mais próximos, como deixou claro em vários pronunciamentos. Francisco está combatendo este bom combate, opondo-se ao carreirismo, aos escândalos, ao mundanismo e ao clericalismo. Propondo uma Igreja misericordiosa, dialogal, pobre, sinodal, samaritana. O caminho é longo, as resistências são enormes, mas ele não está sozinho. A grande esperança que seu pontificado está suscitando certamente dará frutos. Talvez isso demore, mas é um caminho sem volta. Seu sucessor terá muito trabalho para fazer jus ao seu legado, mas as portas estão abertas, e dificilmente serão fechadas de novo.

Site Franciscanos – Os grandes pensadores franciscanos procuraram trazer à luz os valores afetivos em geral: o valor do amor, do sentimento, do desejo, da diversidade, da intuição, da arte e da poesia. Essa linha franciscana é bem visível no Pontificado do Papa Francisco, não?

Frei Sandro – Francisco de Assis não era um teólogo. Era um artista, um poeta, mas era, sobretudo, um apaixonado por Deus. Em tudo ele via a presença de Deus misericordioso, amoroso, cordial e cortês. Celano afirma que Francisco “Reconhece nas coisas belas aquele que é o mais belo” (2Cel 165, 5). E isso ele expressava não através de reflexões escritas, mas de gestos, símbolos, sinais, que tocavam (e continuam tocando) profundamente o ser humano. Francisco, embora tenha deixado alguns escritos, não exercia uma razão analítica ou especulativa, mas uma razão intuitiva, mística, através da qual conseguia expressar toda a gratuidade e beleza de Deus. Estamos falando aqui de sentimentos, afetos, sensibilidade. Nos Louvores ao Deus Altíssimo Francisco dirige-se ao Pai duas vezes como beleza: “Vós sois a Beleza…”. Os grandes mestres franciscanos, cada um a seu modo, continuaram fieis às inspirações do “Poverello”. As ciências humanas, especialmente a antropologia, a psicologia, cada vez mais evidenciam que o ser humano não é só matéria, corporeidade, razão. Mas o corpo é um meio de expressão de algo muito mais profundo, divino. Isso foi negligenciado na Igreja: “Logos” e Pathos” sempre seguiram por vias separadas. “Salva a tua alma” não incluía a afetividade, a corporeidade, os sentimentos. Na Igreja, o corpo sempre foi visto com suspeita. Sentimentos e afetos tinham que ser “sublinhados”, disciplinados. Quem entrava para a Vida Consagrada entrava para fazer penitência, para se mortificar. O belo e o estético também eram vistos com suspeita. Mas é através do corpo e dos sentidos que a beleza encontra sua expressão. Papa Francisco, ao evidenciar em vários pronunciamentos de seu pontificado a importância da via afetiva, sensível, perceptiva, está reafirmando esta verdade, meio esquecida na Igreja, de que Deus se revela através da experiência estética, da beleza, dos afetos, da arte. Vivemos no mundo da percepção, da imagem, do visual. Isso não pode ser ignorado pela teologia. Esse é, sem dúvida, um dos sinais dos tempos. Isso tem a ver não só com a arte, especificamente com a arte sacra, mas é uma forma de impostar o pensamento teológico, é uma forma de evangelizar, que considere não apenas a argumentação lógica, iluminista, cartesiana, mas também a afetiva.

Site Franciscanos – Como o sr. vê o fato de o Papa Francisco indicar que a sinodalidade deve ser implementada em todos os níveis da vida da Igreja?

Frei Sandro – A Igreja foi, desde as suas origens, uma Igreja Sinodal. A reunião dos apóstolos, no ano 49, em Jerusalém, para discutir sobre a “crise judeu-cristã”, inaugurou este costume, seguido, ao longo dos séculos pelas Igrejas que se expandiam por todo o império romano. Ao longo da história este modo de ser Igreja foi sendo deixado de lado, por várias razões. Uma delas, evidentemente, foi o surgimento do modelo de cristandade, instaurando o modelo hierárquico-monárquico, que vigorou até bem pouco tempo (mas que ainda está presente em muitas mentalidades católicas). Quando de sua eleição, Papa Francisco afirmou que a sinodalidade deveria ser vivida em vários níveis na Igreja. Na verdade, Francisco está apenas retomando e atualizando um mecanismo importante de comunhão e administração eclesial, o Sínodo dos Bispos, que foi “reinstaurado” por Paulo VI, no fim do Vaticano II, e que foi incentivado pelas Conferências Episcopais da América Latina. Em março de 2015, por ocasião dos 50 anos da instituição do Sínodo dos Bispos, o Papa afirmava: “Aquilo que o Senhor nos pede, de certo modo está já tudo contido na palavra ‘Sínodo’. Caminhar juntos – leigos, pastores, Bispo de Roma – é um conceito fácil de exprimir em palavras, mas não é assim fácil pô-lo em prática”. A novidade de Francisco é o modo como esta sinodalidade está sendo colocada em prática. Não se trata de belas e bem elaboradas afirmações formais nos documentos pontifícios, destinadas a serem logo esquecidas, como estamos acostumados a ver em alguns momentos da história. Francisco está agindo dentro de uma “práxis” sinodal. Haja vista os vários sínodos realizados até agora, que envolveram um bom número de cristãos que foram chamados a dar seu parecer, a participar ativamente, e cujos documentos finais foram fruto de muita discussão e debate, como o Sínodo para Juventude, o Sínodo para a Família, e, principalmente, o Sínodo para a Amazônia. O modelo sinodal de Igreja colocado em prática por Francisco dá muito mais influência às Igrejas locais, descentralizando o governo da Igreja, dá voz aos “católicos comuns”, aos bispos locais e conferências episcopais. O próprio Papa referiu-se à essa descentralização na Evangelii Gaudium: “Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar ‘descentralização’ (EG, 16)”. Isso não é visto com bons olhos pela Cúria (que precisa ser reformada). A práxis sinodal afirma-se na certeza de que todos somos Igreja. O que nos une é o batismo. Todos somos assistidos pelo Espírito Santo. Uma Igreja sinodal é uma Igreja onde todos os batizados têm vez e voz. A sinodalidade supõe um processo participativo, de colaboração, corresponsabilidade. Não se pretende acabar com a hierarquia. Mas também não é possível continuar agindo na Igreja como se fosse uma monarquia. Deve ser colocado em prática em nível de paróquias, de dioceses, de conferências. Porém, será preciso superar a mentalidade clericalista, que supervaloriza a figura do padre. Em algumas paróquias não existe nem o Conselho Paroquial. O pároco tem a primeira e a última palavra. Os leigos não participam de nada. O mínimo ainda não se fez. Há muito que caminharmos para começarmos a discutir a verdadeira sinodalidade na Igreja. Mas, sem dúvida, é um caminho sem volta. O Papa Francisco já anunciou que o tema do próximo sínodo, a realizar-se em outubro de 2022, será a sinodalidade, com o tema: “Para uma Igreja Sinodal: Comunhão, Participação e Missão”.

Site Franciscanos – Há espaços para uma incorporação muito maior de mulheres na governança da Igreja?

Frei Sandro – Certamente temos ainda muito em que avançar na Igreja em relação ao protagonismo das mulheres. Papa Francisco também está dando passos importantes nesta direção, com a nomeação de mulheres para órgãos importantes na Cúria, convocando-as a participarem ativamente de Sínodos, e também incentivando o debate sobre o diaconato feminino. Em outubro de 2020, Mês das Missões, o papa colocou, como intenção, rezar por uma maior integração dos fiéis leigos, especialmente as mulheres, nos órgãos de governo da Igreja: “Devemos promover a integração das mulheres em lugares onde são tomadas decisões importantes”. Mas ainda há um longo e árduo caminho a ser percorrido. Nas últimas décadas as mulheres alcançaram uma grande emancipação na sociedade civil, em relação à igualdade de sexos, direitos em geral, acesso à formação intelectual, a áreas de atuação profissional. Na Igreja, ao contrário, o estatuto da mulher não avançou muito. Se por um lado é positivo o fato de uma inclusão cada vez maior em órgãos de governo na Cúria, por outro lado, na “outra ponta da corda”, muita coisa ainda precisa avançar. Nas dioceses e nas paróquias, onde as mulheres são a imensa maioria entre fiéis e colaboradoras, estas ocupam muito pouco espaço de decisão e liderança. O Papa não pode interferir diretamente nestas instâncias, e aqui esbarramos, de novo, na “praga” do clericalismo. Esta é uma luta que está apenas começando, mas as indicações do Papa são claras, também para as paróquias. É um caminho de conversão, que deverá ser percorrido em conjunto, por homens e mulheres: “As reivindicações dos legítimos direitos das mulheres, a partir da firme convicção de que homens e mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente” (EG 104).

Site Franciscanos – Há uma crise de vocações na Igreja?

Frei Sandro – Quando falamos de “crise de vocações” temos que começar distinguindo entre vocação para o clero secular e para o clero regular (religiosos). Na Europa, as vocações estão diminuindo há muito tempo. No Brasil, embora em algumas dioceses haja um grande número de seminaristas, é grande a falta de clero em lugares mais pobres, mais distantes, como ficou evidente no Sínodo para a Amazônia, onde muitos cristãos são privados da Eucaristia. Essa diminuição deve-se a vários fatores: as rápidas mudanças na sociedade, nas estruturas familiares, com poucos filhos, a secularização, a diminuição do número de católicos, a dificuldade da transmissão da fé às novas gerações, entre outros. Certamente, um elemento de não pouca importância é a dificuldade das novas gerações em assumir compromissos estáveis para toda a vida. Acredito que a situação não vai mudar. Os tempos são outros. Por mais que demos testemunho de vida, que rezemos pelas vocações sacerdotais e religiosas, o fato é que o mundo segue seu ritmo e o problema da falta de clero só vai se agravar. Desde o Vaticano II tentou-se colocar a questão sobre a mesa, discutindo-se sobre o celibato sacerdotal, sobre a ordenação dos viri probati, sem nenhum resultado prático. Papa Francisco incentivou a discussão, suscitou esperanças durante o Sínodo para a Amazônia, mas pouco se avançou. A diminuição de vocações ao sacerdócio e, consequentemente, a diminuição de padres, vai obrigar a Igreja a rever muitos aspectos de sua teologia, de sua disciplina eclesiástica, de sua pastoral e evangelização. As vocações à vida consagrada, masculina e, principalmente feminina, também estão diminuindo. Os motivos são os mesmos antes elencados. Some-se a esses o surgimento das muitas Comunidades de Vida, com seus vários estilos, muito mais atraentes aos jovens. De qualquer modo, nesta “mudança de época”, a diminuição numérica nos leva a fazer uma autocrítica, não apenas em relação aos religiosos ordenados, mas à vida consagrada como tal. Para nós, franciscanos, a diminuição de candidatos aos ministérios ordenados pode ser um momento privilegiado para nos ajudar a refletir sobre nossa própria identidade. Se tivermos candidatos à vida laical, mas não tivermos mais “padres” franciscanos, a Ordem deixará de existir? Francisco não foi padre. E não há certeza de que tenha sido diácono. Mas, no momento, praticamente toda nossa evangelização franciscana está orientada a partir dos ministérios ordenados. A “crise de vocações” pode nos ajudar a avaliar toda nossa forma de evangelizar, mas também a nos questionarmos sobre aquilo que de fato nos identifica como seguidores de São Francisco de Assis: “Somos irmãos menores”.

Site Franciscanos – Por último, comente uma frase que muito tem a ver com sua missão de ensinar: “O futuro está nas mãos daqueles que souberem transmitir para as gerações de amanhã razões de viver e de esperar” (Gaudium et Spes , 31).

Frei Sandro – Ensinar não é apenas transmitir conhecimento, do mesmo modo como não são apenas os professores “formais” que ensinam. Todo aquele que, de alguma forma, conduz alguém, sejam os mestres, os pais, as pessoas sábias que a vida coloca em nosso caminho, são educadores. Quando se educa por vocação, com gosto e prazer, transmite-se também valores, educa-se para a vida, para a autonomia e a liberdade, permite-se à pessoa tornar-se sujeito de sua própria história. Educar para a esperança é indicar caminho, é acender “luzes”, despertar para o interesse e a curiosidade pela busca do conhecimento. É oferecer razões de viver num mundo que muitas vezes se revela hostil, adverso. Mas ao mesmo tempo é instruir para uma esperança baseada em possibilidades concretas de realização. É ser otimistas e realistas. O sonho e a esperança se realizam a partir do engajamento, da luta, do empenho concreto por mudanças. Francisco de Assis era um homem cheio de esperança, mas não foi ingênuo nem um sonhador. Seu projeto de vida atraiu pessoas que buscavam uma resposta e um sentido para a existência. E era uma proposta extremamente desafiadora. Francisco despertou arquétipos adormecidos no mais profundo de cada ser humano, em todas as épocas da história: o desejo de fraternidade, de diálogo, de respeito, de cortesia, de comunhão entre todos os seres criados, de paz e de ternura. No rico patrimônio franciscano encontramos uma verdadeira pedagogia, um verdadeiro método, que colocado em prática pode conduzir à construção de uma nova humanidade. Como diz o Papa Francisco na Fratelli Tutti, “Juntos se constroem os sonhos”.

Entrevista Frei Sandro Roberto da Costa

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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