Licor do século 17 feito por freiras trigêmeas sustenta convento na Bahia

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Toda primeira sexta-feira do mês as trigêmeas Lourdinha, Gorete e Aparecida saiam de casa às 3h, com o dia ainda escuro, para cumprir uma jornada de 7h. Filhas de um casal de agricultores que vivia com os 17 filhos em uma pequena casa de taipa no interior da Bahia, as irmãs caminhavam cerca de 15 km para assistir à missa na igreja de Nossa Senhora da Conceição, no município de Aporá.

Hoje, irmã Lourdinha, como é conhecida no Convento de Santa Clara do Desterro, em Salvador, lembra dessa época com um olhar emocionado. A mulher de 57 anos, 1,50 metro de altura e voz suave conta que quando criança era a mais levada das trigêmeas — e que por vezes as irmãs recebiam palmadas por conta das travessuras dela.

“Minha mãe dizia que se a gente não admitisse quem tinha aprontado, quem era a responsável pela bagunça, as três iriam apanhar”, conta. “Ninguém admitia a culpa e todas apanhavam.”

Mas a história das freiras trigêmeas é uma das atrações do convento não só por isso: elas são responsáveis pela produção de um dos licores mais famosos da cidade.

Irmã Lourdinha diz que a família sempre foi muito religiosa e que a caminhada nas madrugadas de sexta-feira acontecia em uma longa estrada de barro que serpenteava em meio a vegetação do distrito de Itamira até o centro de Aporá. Durante a infância, elas brincavam de casinha e improvisavam brinquedos com gravetos, conchas e pedaços de cerâmica. Mas era o trabalho na roça, na plantação de feijão, milho e mandioca que ocupava a maior parte do tempo.

Licor das Freiras trigêmeas - Rafael Martins/UOL - Rafael Martins/UOLO convento produz 3 mil garrafas, com 32 sabores: de jenipapo e rosas são os mais procurados Imagem: Rafael Martins/UOL.

Três vocações

O início da vida monástica começou ao chegarem aos 18 anos, em 1984. “Desde pequena eu dizia que queria ser religiosa, porque queria ser santa. Quando tinha 10 anos, conheci duas irmãs italianas que foram desenvolver um trabalho na comunidade em que a gente morava e fiquei impressionada”, lembra Lourdinha. Quando, anos depois ela pediu ao padre para ir ao convento em Salvador, Cida e Gorete queriam segui-la, mas a mãe não deixou.

O receio de dona Josefa era ficar sozinha com todos os filhos pequenos para criar. As trigêmeas ajudavam a mãe com os irmãos menores e os idosos da comunidade — que não tinha água encanada, gás e nem luz elétrica. Assim, pela primeira vez, as trigêmeas se separaram. Lourdinha, que nunca havia saído de Aporá, desembarcou em Salvador.

A grandiosidade do Convento de Santa Clara do Desterro foi a primeira coisa que atraiu a atenção da menina. A segunda foi a pequena fábrica de licor que a congregação mantinha dentro do prédio, uma tradição que começou no século 17, trazida de Portugal pelas irmãs Clarissas. O dinheiro arrecadado com a bebida é até hoje usado na manutenção da estrutura e na sobrevivência das freiras. Curiosa, irmã Lourdinha se ofereceu para auxiliar no trabalho.

Licor das freiras trigêmeas - Rafael Martins/UOL - Rafael Martins/UOLNão há livro com saberes e receitas, todo o ensinamento é passado de forma oral
Imagem: Rafael Martins/UOL.

Divino licor

No começo, a jovem noviça ajudava com a limpeza, organizava o ambiente e segurava o funil enquanto as veteranas despejavam o líquido, mas aos poucos ela foi conhecendo as técnicas. Não existe um livro com os saberes e as receitas, todo o ensinamento é passado de forma oral.

Hoje, a produção de licor do convento está sob a responsabilidade de irmã Lourdinha. Um ano depois dela iniciar a vida religiosa, Gorete fez o mesmo. E, no ano seguinte foi a vez de Cida. As trigêmeas entraram na mesma congregação, as Irmãs Franciscanas de Salvador, e atuaram no mesmo convento por anos. A semelhança rendeu boas histórias.

Durante um retiro, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro (RJ), o padre fez uma reclamação depois da missa. Ele disse que uma das freiras entrou três vezes na fila da hóstia e fez por três vezes a comunhão, o que não era correto. A Madre precisou explicar que se tratava de freiras trigêmeas, o que provocou uma gargalhada coletiva.

Irmã Lourdinha conta que até hoje as freiras confundem as três. Muitas vezes, uma recebe uma orientação que deveria ter sido dada a outra. Atualmente, a irmã Gorete serve em um asilo em São José dos Campos (SP). Já Cida voltou para casa há cerca de 2 anos para cuidar da mãe. Dona Josefa está com 86 anos e precisa de ajuda. As irmãs ficam se revezando. Até o final do ano será a vez de Gorete assumir o lugar de Cida, que retornará para o Convento do Desterro para ajudar Lourdinha com a produção dos licores.

Licor das freiras trigêmeas - Rafael Martins/UOL - Rafael Martins/UOL

Bênção: ‘Eu fico muito alegre quando vejo as pessoas felizes e me dizem que gostaram da bebida’
Imagem: Rafael Martins/UOL.

Trabalho artesanal

A fábrica funciona o ano inteiro e produz cerca de 3 mil garrafas. São 32 sabores, e os mais procurados são os de jenipapo e de rosas. A produção é feita em uma sala onde o silêncio é tão profundo que é possível ouvir o som das gotas pingando do funil para dentro do pote de vidro. O processo de decantação é realizado sete vezes e algumas infusões podem levar até seis anos para ficarem prontas.

“É um trabalho artesanal e que adoro fazer. Acredito que seja como um dom, temos que gostar para poder fazer bem-feito. Eu fico muito alegre quando vejo as pessoas felizes, quando elas me dizem que gostaram da bebida”, conta.

Licor das freiras trigêmeas - Rafael Martins/UOL - Rafael Martins/UOL

Em novembro, as irmãs farão 58 anos e planejam um grande reencontro: ‘Estamos rezando por isso’
Imagem: Rafael Martins/UOL.

O vai e vem no convento fica intenso em junho por conta dos festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro. Irmã Lourdinha tem a ajuda de uma auxiliar e conta com apoio das outras freiras quando a demanda aumenta. A última vez em que as trigêmeas encontraram-se presencialmente foi no aniversário de 50 anos. Em novembro, elas farão 58 anos e estão planejando esse reencontro. “Estamos rezando por isso”, conta.

As trigêmeas fizeram votos de pobreza, obediência e castidade. A pequena casa de taipa da infância deu lugar a uma estrutura de alvenaria, a estrada de barro agora tem asfalto e o trajeto é feito de carro, enquanto as mãos que roçavam a terra para o plantio, hoje, produzem o licor que, afirmam os fregueses, “já vem abençoado”.

bol.uol.com.br

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