Meditação da Sagrada Paixão segundo São Pedro de Alcântara

Espiritualidade

Meditação da Sagrada Paixão segundo São Pedro de Alcântara

São Pedro de Alcântara, grande santo franciscano, no capítulo IV de seu Tratado da Oração e da Meditação, dedica a meditação de sexta-feira para a meditação da Cruz de Cristo.

Acompanhe:

Neste dia se há de contemplar o mistério da cruz e as sete palavras que o Senhor falou.

Desperta, pois, agora, minha alma, e começa a pensar o mistério da santa cruz, por cujo fruto se reparou o dano daquele venenoso fruto da árvore proibida. Olha, primeiramente, como, chegado já o Salvador a este lugar, aqueles perversos inimigos (porque mais vergonhosa lhe fosse a morte) despem-no de todas as suas vestiduras até a túnica interior, que era toda tecida de alto a baixo, sem costura alguma. Olha, pois, aqui, com quanta mansidão se deixa esfolar aquele inocentíssimo Cordeiro sem abrir a boca, nem falar palavra contra os que assim o tratavam. Antes, de mui boa vontade consentia em ser despojado de suas vestes, e ficar, com vergonha, nu, para que com elas, melhor do que com as folhas de figueira, se cobrisse a nudez em que pelo pecado caímos.

Dizem alguns doutores que, para despirem o Senhor dessa túnica, tiraram-lhe com grande crueldade a coroa de espinhos que ele tinha na cabeça, e, depois de já despido, tornaram a pô-Ia, e a fincar-lhe outra vez os espinhos pelo crânio, que seria coisa de grandíssima dor. E é de crer, por certo, que usaram desta crueldade os que de outras muitas e muito estranhas usaram com Ele em todo o processo de sua Paixão, mormente dizendo o evangelista que fizeram com Ele tudo o que quiseram. E como a túnica estava pregada às chagas dos açoites e o sangue já estava gelado e colado com a própria veste, ao tempo em que lha despiram (como eram tão alheios de piedade aqueles malvados!) despegaram-lha de chofre e com tanta força, que lhe esfolaram e renovaram todas as chagas dos açoites, de tal maneira que o santo corpo ficou por todas as partes aberto e como que descascado, e feito todo uma grande chaga, que por todas as partes manava sangue.

Considera, pois, aqui, ó minha alma, a alteza da divina bondade e misericórdia, que neste mistério tão claramente resplandece; olha como Aquele que veste os céus de nuvens e os campos de flores e beleza, é aqui despojado de todas as suas vestes. Considera o frio que padeceria aquele santo corpo, estando, como estava, dilacerado e despido, não só de suas vestiduras, como também dos couros da pele e com tantas portas de chagas por todo ele abertas. E, se estando São Pedro vestido e calçado, na noite anterior padecia frio, quanto maior o padeceria aquele delicadíssimo corpo estando tão chagado e desnudo?

Depois disto considera como o Senhor foi cravado na cruz, e a dor que padeceria ao tempo em que aqueles cravos grossos e esquinados entravam pelas mais sensíveis e mais delicadas partes do mais delicado de todos os corpos. E olha também o que a Virgem sentiria quando visse com seus olhos e ouvisse com seus ouvidos os cruéis e duros golpes que sobre aqueles membros divinais tão a miúdo caíram, porque verdadeiramente aquelas marteladas e cravos passavam as mãos ao Filho, porém à Mãe feriam o coração.

Olha como depois levantaram a cruz ao alto e a foram fincar numa cova que para isto tinham feito, e como (segundo eram cruéis os ministros), ao tempo de assentá-la, a deixaram cair de chofre, e assim se estremeceria no ar todo aquele santo corpo e mais se rasgariam os buracos dos cravos, o que seria coisa de intolerável dor.

Ó Salvador e Redentor meu, que coração haverá tão de pedra que se não parta de dor (pois neste dia se partiram as pedras) considerando o que padeces nessa cruz? Cercaram-te, Senhor, dores de morte, e sobre ti investiram todos os ventos e ondas do mar. Atolaste-te no profundo dos abismos e não achas em que te estribares. O Pai desamparou-te; que esperas, Senhor, dos homens? Os inimigos zombam de ti aos gritos, os amigos quebram-te o coração, tua alma está aflita e por meu amor não admites consolo. Duros foram, por certo, os meus pecados, e tua penitência o declara. Vejo-te, meu Rei, cosido com um madeiro; não há quem sustente o teu corpo senão três ganchos de ferro; deles pende tua sagrada carne, sem ter outro refrigério. Quando firmas o corpo nos pés, rasgam-se as feridas dos pés com os cravos que têm atravessados; quando o firmas nas mãos, rasgam-se as feridas das mãos com o peso do corpo. E a santa cabeça atormentada e enfraquecida com a coroa de espinhos, que travesseiro a sustentaria? Oh! Quão bem empregados seriam ali vossos braços, sereníssima Virgem, para este ofício, mas ali não servirão agora os vossos, senão os da cruz! Sobre eles se reclinará a sagrada cabeça quando quiser descansar, e o refrigério que deles receberá será fincarem-se mais os espinhos pelo crânio.

Cresceram as dores do Filho com a presença da Mãe, com as quais não estava o seu coração menos crucificado por dentro do que o estava o sagrado corpo por fora. Duas cruzes há para ti, ó bom Jesus, neste dia: uma para o corpo e outra para a alma; uma é de paixão, a outra de compaixão; uma traspassa o corpo com cravos de ferro, e a outra traspassa tua alma santíssima com cravos de dor. Quem poderia, ó bom Jesus, declarar o que sentias quando considera-vas as angústias daquela alma santíssima, a qual tão de certo sabias estar contigo crucificada na cruz? Quando vias aquele piedoso coração traspassado e atravessado com gládia de dor, quando alongavas os olhos sangrentos e olhavas aquele divino rosto coberto de palidez de morte? E aquelas angústias de seu ânimo sem morte, já mais que morto? E aqueles rios de lágrimas, que de seus puríssimos olhos saíam e ouvias os gemidos que se arrancavam daquele sagrado peito espremidos com peso de tamanha dor?

Depois disto, podes considerar aquelas sete palavras que o Senhor falou na cruz. Das quais a primeira foi: Pai, perdoai-lhes, porque eles não sabem o que fazem [1]. A segunda ao ladrão. Hoje estarás comigo no paraíso [2]. A terceira a sua Mãe Santíssima: Mulher, eis aí teu filho [3]. A quarta: Tenho sede [4]. A quinta: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste [5] A sexta: Tudo está consumado [6] A sétima: Pai, em tuas mãos encomendo meu espírito [7].

Olha, pois, ó minha alma, com quanta caridade nestas palavras Ele encomendou ao Pai seus inimigos; com quanta misericórdia recebeu o ladrão que o confessava, com que entranhas encomendou a piedosa Mãe ao discípulo amado; com quanta sede e ardor mostrou que desejava a salvação dos homens; com quão dolorosa voz exalou sua oração e pronunciou sua tribulação ante o acatamento divino; como levou até a cabo tão perfeitamente a obediência ao Pai e como, finalmente, encomendou-lhe seu espírito e se resignou todo em suas benditíssimas mãos. Por onde aparece como em cada uma destas palavras está encerrado um singular documento de virtude. Na primeira recomenda-se-nos a caridade para com os inimigos. Na segunda, a misericórdia para com os pecadores. Na terceira, a piedade para com os pais. Na quarta, o desejo da salvação do próximo. Na quinta, a oração nas tribulações e desamparos de Deus. Na sexta, a virtude da obediência e perseverança. E, na sétima, a perfeita resignação nas mãos de Deus, que é a súmula da nossa perfeição.

Das outras sete meditações da Sagrada Paixão e da maneira que havemos de ter em meditá-la, Capítulo IV Tratado da Oração e da Meditação de São Pedro de Alcântara.


[1] Lc 23, 34.
[2] Lc 23, 43.
[3] Jo 19, 26.
[4] Jo 19, 28.
[5] Mt 27, 46.
[6] Jo 19, 30.
[7] Lc 23, 46.

 

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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