Pão em todas as mesas e a multiplicação dos pães em Jo 6,1-15

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O evangelho sobre o qual vamos refletir hoje é Jo 6,1-5. Trata-se da multiplicação dos pães. Essa passagem é mais conhecida por nós pelos relatos dos evangelhos sinóticos de Marcos (Mc 6,32-44; 9,1-17), Mateus (Mt 14, 13-21) e Lucas (Lc 9,10-17). Existem diferenças entre eles? Qual é o papel de Jesus na narrativa joanina?

Vou começar respondendo à primeira pergunta. Existem sim diferenças. Nos sinóticos, a multiplicação dos pães e peixes têm um cunho sociológico, sendo uma demonstração de como deve ser o Reino de Deus entre as comunidades a partir da partilha dos bens, da justiça social.

Dito isso, vamos ao texto de João. Primeiramente, temos que ter consciência de que o evangelho de João foi escrito 30 anos depois do de Marcos. O contexto é outro. O cristianismo já não tem mais ligação com o judaísmo. Igreja e Sinagoga estão separadas. A questão era conhecer Jesus para fortalecer a fé na sua ressurreição, pois testemunhos da primeira hora já estavam mortos.

A imagem de Jesus que é traçada no evangelho de João é a de uma pessoa grandiosa. Ele é soberano no agir e no falar. Ele é o Verbo de Deus encarnado que revela Deus/Pai, conversa com uma samaritana, promete vida eterna para os judeus-cristãos que foram expulsos da sinagoga. Ele é um orador que fala do Pai, falando de si mesmo, o tempo todo. Faz vários discursos teológicos, até difíceis de serem entendidos por quem não frequentava a comunidade. Sete vezes, ele diz “Eu sou”, que se relaciona com o “Eu sou” de Deus, no Êxodo.

Começando pelo sinal nas Bodas de Caná, Ele faz mais outros seis sinais até o definitivo que é a sua ressurreição. João não fala de milagre como nos sinóticos. Qual a diferença? Milagre é o resultado extraordinário de um ato. Sinal é o que ele aponta, conforme tradição do Primeiro Testamento. As pragas do Egito são sinais do que elas representam. Assim como um sinal de trânsito para nós. Ele não deve ser visto na beleza de sua cor, mas no que ele quer dizer: atenção, pare e siga. Assim, o sinal que Jesus faz no evangelho de João é para dizer que o ele quer revelar, o Pai, Deus. O foco do evangelho de João é mais Deus que Jesus. Ele dá sinais de sua presença até chegar a hora definitiva da volta para a casa do Pai, que tem muitas moradas. De lá, ele fica a nossa espera.

A multiplicação dos pães é o quarto sinal que Jesus realizou para dizer que a sua hora ainda não tinha chegado. Estava próxima a Páscoa. Jesus deveria estar em Jerusalém, mas não foi. Ele quer fazer outro tipo de Páscoa com os seus seguidores. Na montanha, isto é, próximo do Pai, ele fala de pão para distribuir. Após constatação de que havia somente cinco pães e dois peixes, Jesus faz o sinal da multiplicação, para, um pouco mais adiante, no versículo 35, afirmar que Ele é o pão da vida, que devia ser comido para não se ter mais fome. Veja outro detalhe: em Marcos são os discípulos que distribuem o pão. Em João, é o próprio Jesus. Jesus não se surpreende com a multidão. Pelo contrário, ele olha para ela com a decisão de ajudá-la. Em relação aos números, o cinco representa a Torá – os cinco primeiros livros da Bíblia -, e o dois, testemunho. O doze, as doze tribos de Israel. Aliás, peixe em grego, Ichthus, forma o acróstico: “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. Os primeiros cristãos utilizavam o peixe como forma de identificação diante das perseguições romanas.

O relato termina dizendo que, quando Jesus viu que o povo queria proclamá-lo rei e Messias, ele fugiu para outra montanha, para junto de Deus.

Como conclusão, eu diria que não podemos afirmar que o Jesus do evangelho de João é espiritual e o dos sinóticos, mais preocupado com as coisas materiais e sociais. Não. Seria reduzi-lo a um espiritualismo. Muito pelo contrário, se Jesus é o pão da vida eterna que nos leva a Deus, isso só será possível no meio de nós quando transformarmos a falta de pão em abundância para todos, por meio da partilha. Como canta Zé Vicente: “Pão em todas as mesas. Da Páscoa a nova certeza. A festa haverá. E o povo a cantar, aleluia!”


[1] Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quatorze. Último livro: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019). Inscreva-se no nosso canal no You Tube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos ou https://www.youtube.com/c/FreiJacirdeFreitasFariaB%C3%ADbliaAp%C3%B3crifos

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

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