Reflexão: Cristo é Nossa Paz!

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Venham todos, vocês, venham todos, reunidos num só coração/ De mãos dadas formando a aliança, confirmados na mesma missão./ Em nome de Cristo, que é a nossa paz! Em nome de Cristo, que a vida nos traz: Do que estava dividido, unidade ele faz!

Vivemos num mundo marcado pela divisão, violência, extremismo no pensar e no agir… e a Campanha da Fraternidade Ecumêncica (CFE), neste ano, vem nos convidar a refletir, aprofundar e promover o DIÁLOGO como caminho para a PAZ. DIALOGAR implica abertura, acolhida, escuta, capacidade de interação, discernimento conjunto… É um compromisso de amor com a outra pessoa. Sonhamos com a paz, pedimos paz em nossas orações e sempre desejamos a paz e o bem em nossos encontros. No cartaz da CFE/21, visualizamos que a ciranda está aberta esperando que nos juntemos à essa roda gigante para edificar pontes de paz e fraternidade. “Vem, entra na roda você também”. Somos irmãs(os) e podemos viver a comunhão. Somos capazes de construir pontes de amor e paz em lugar de muros de ódio e de desafetos constantes.

Durante esse período quaresmal, vamos redescobrir Cristo no caminho de Emaús (Lc 24,13-35) e nos caminhos de nossa vida, pois é a Paz do Ressuscitado que nos une. No caminho a Emaús encontramos duas pessoas impactadas com os acontecimentos recentes. Cristo havia sido condenado e morto na cruz e tudo de forma muito violenta. Certamente a conversa no caminho, que as deixavam intrigadas (com a pulga atrás da orelha) era: Mulheres que encontram o túmulo vazio; Maria Madalena, que contou a Pedro que viu Jesus Ressuscitado; todos testemunharam a crucificação e a morte; Seria a ressurreição verdade ou fake news?

As certezas e as dúvidas são inerentes quando o assunto é a realidade em que vivemos, principalmente mediante a crises e sofrimentos. A história de Emaús nos ensina que refletir sobre as experiências vividas e compreender a realidade são importantes para entender a sociedade. Precisamos DIALOGAR sobre os acontecimentos de nosso tempo, acolher diferentes percepções e assim superar o que nos divide. Há uma tentação dentro de nós de construir muros, e hoje vivemos momentos difíceis devido a essas construções. Nos deparamos com o muro do racismo, da desigualdade econômica, da dificuldade de conviver com o diferente de nós e do desrespeito e ataque às instituições. “Ergue-se muros no coração e muros na terra, para impedir o encontro com outras culturas, com outras pessoas. E quem levanta um muro, quem constrói um muro, acabará escravo dentro dos muros que construiu, sem horizontes. ” (FT 27). Nossa fé nos compromete a sempre derrubar muros, ou seja, sempre romper com falsos projetos de paz que não estão voltados para a unidade e para o “Bem Viver”.

Mesmo sendo próximos a Jesus, aqueles discípulos não conseguiram compreender os fatos. Também estamos sujeitos ao mesmo risco, ou seja, diante dos sinais de morte e com tanta informação, ficamos desorientadas(os) e incapazes de interpretar a realidade na qual estamos inseridas(os). Como reflexo dessa situação, vemos personalidades antes inimagináveis chegarem ao poder, aprofundando as separações e as disputas entre as pessoas. Para a saída da crise são apontadas soluções falaciosas/enganosas, como a de armar a sociedade para resolver os problemas de segurança pública e a de privatizar serviços essenciais como o acesso ao saneamento básico e a água potável.

O mundo avançava para uma economia que procurava reduzir os custos humanos e fazer-nos crer que era suficiente a liberdade de mercado para garantir tudo. Então, chegou a pandemia do COVID 19, que por força, obrigou-nos a pensar nos seres humanos, em todos, mais que nos benefícios de alguns. A pandemia hoje, nos leva a repensar nosso estilo de vida, nossas relações, a organização da sociedade e sobretudo, o sentido de nossa existência. Revela nossa fragilidade, nossa vulnerabilidade e nos deixa com uma sensação de medo e impotência. Ela interrompeu centenas de milhares de vidas. Cada uma dessas mortes representa ausência, saudade, suspenção de planos, sonhos e projetos.

Por outro lado, vivenciamos o que chamamos de negacionismo. Um grande grupo que nega a comprovação da ciência e da Organização Mundial de Saúde (OMS), das medidas preventivas como o uso de máscaras, a higienização, e o isolamento social, com um discurso dicotômico entre economia e vida. Presenciamos também alguns abusos como a elevação extraordinária de preços em produtos da cesta básica sem motivos ; vimos recursos públicos para o combate da pandemia, sendo desviados e teorias conspiratórias como: o vírus foi desenvolvido na China, a vacina está sendo fabricada com fetos humanos abortados, etc.

Parte da sociedade continua manifestando seu racismo, seu ódio aos pobres e permanece o sistema de segregação e descarte de pessoas consideradas inúteis. É a NECROPOLÍTICA, ou seja, o Estado se julga soberano para escolher quem morre e quem vive. É a violência legitimada e justificada. Deparamo-nos com essa realidade, quando vemos a segurança pública sendo altamente repressiva e violenta com pessoas negras e pobres; com a não regulação e demarcação dos territórios de indígenas e quilombolas; com os ataques aos direitos conquistados a partir das reformas da lei trabalhista e da previdência social; com a falta de políticas efetivas no combate à COVID-19; com a intolerância e preconceito com a juventude negra, mulheres, população LGBTQIA+, povos tradicionais, imigrantes, etc, que são considerados inimigos do sistema. Papa Francisco assim declara na Carta Fratelli Tutti: “As pessoas já não são vistas como um valor a respeitar e tutelar, especialmente se são pobres ou deficientes ou idosos.” (FT 18)

Agrava-se também a violência contra a CASA COMUM, nossa mãe TERRA. O sistema de acumulação de capital põe em risco o nosso planeta, quando se apropria dos “bens comuns”, a água, a terra, as florestas e os minérios e aí vemos catástrofes ambientais: temperaturas subindo; incêndios florestais; desmatamentos ilegais; derretimento das geleiras … “Tudo está interligado como se fôssemos um”. “…. Não pode ser autêntico um sentimento de união com os seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos… ” (LS 91)

A diversidade não é razão para conflitos. Jesus Cristo é o centro da fé e unifica a comunidade apesar das diferenças, pois convoca à experiência do amor que nos une. A fé em Jesus Cristo não é motivo para divisões e conflitos, mas é a inspiração para a convivência e o diálogo, é a inspiração para derrubar os muros que nos impedem de viver a irmandade e a comunhão fraternal. Também São Francisco de Assis, não fazia guerra apologética, impondo doutrinas, mas comunicava o amor de Deus. Essa também é a preocupação de Papa Francisco quando diz: “Deus criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade e os chamou a conviver entre si como IRMÃOS” (FT 05). E ainda: “…quando o coração está verdadeiramente aberto a uma comunhão universal, nada e ninguém fica excluído desta fraternidade…” (LS 92)

O desafio está posto e exige de nós um esforço grande para fazer acontecer a paz que tanto almejamos, a unidade na diversidade, o diálogo efetivo e afetivo como caminho certo para a paz de Cristo. Aquela paz capaz de derrubar muros e construir pontes de interligação, integração, interação e inclusão. Paz que nos sacode com a urgência do Reino. Paz que derrota as armas, mas também é perdão, retorno, abraço. Sejamos instrumentos de promoção da paz.

Termino trazendo presente parte da oração da Campanha da Fraternidade Ecumênica:

“…Torna-nos pessoas sensíveis e dispostas para servir a toda a humanidade, em especial, aos mais pobres e fragilizados, a fim de que possamos testemunhar o Teu amor e partilhar suas dores e angustias …. Caminhando pelas veredas da amorosidade…”

Ir. Neusa Gripa

Fonte: CICAF

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