Santa Clara em quatro tempos – I

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Conrado Vasselai, franciscano secular de Bragança Paulista, SP, teve o cuidado de nos oferecer a tradução de um encantador texto sobre São Francisco, escrito em alemão por Felix Timmermans e publicado originalmente em 1932. Um belo texto, cheio de lirismo e de poesia. Foi publicado agora pela Editora Vozes sob o título de “A harpa de São Francisco”. Neste mês de agosto, quando ocorre a festa de São Clara (dia 11), vamos transcrever o que autor nos fala sobre esta simples e extraordinária mulher, em quatro vezes: Santa Clara em quatro tempos. O capítulo consagrado a Clara, no livro de Timmermans, tem o belíssimo título: Uma sagrada canção de amor. Nem tudo o que se diz é verdade historicamente comprovado. Deixemos, no entanto, liberdade aos poetas. Eles têm direito. E com isso eles nos encantam. Respeitemos, pois, os arroubos líricos!
Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Primeiro tempo:
O Encontro de Francisco e Clara

A lua brilhava exatamente sobre a cabana de Francisco. Irmão Tiago, o irmão encarregado de acordá-lo, observou este fato. Para o Irmão Tiago, essa meia lua sobre a cabana tinha um grande significado: era como a estrela de Belém. Francisco encontrava-se de joelhos. Irmão Tiago se ajoelhou também e falou: “Pai, eu venho lhe avisar que já são seis horas, como me pediu”. Francisco nada respondeu. Elevou os braços e os cruzou sobre o peito como se tivesse tirando algo do ar para escondê-lo em seu coração. Irmão Tiago o imitou. Francisco levantando-se o saudou. Tiago, da mesma forma, respondeu-lhe a saudação.

Francisco retirou-se apressado, saiu porta afora e distanciou-se sobre as árvores indo até uma pequena fonte. Aí se deteve. Na penumbra tudo estava em silêncio, nada se ouvia, senão o murmúrio da água. As árvores anunciavam a primavera. Francisco olhou ao seu redor e não viu ninguém. Havia emagrecido muito pelos constantes jejuns e penitências. Sua aparência demonstrava que naquele tempo da quaresma havia partilhado das dores de Nosso Senhor. De vez em quando um lampejo de alegria brilhava em seus olhos.

Inclinou-se e, com as mãos em concha, sorveu água da fonte e disse: “Clara irmã Água. Criatura casta e inocente, quão bela e quão boa Deus a fez para o bem-estar dos homens, para seu santo batismo e para matar sua sede. O Senhor conserve igualmente a pureza da jovem Clara para a salvação da humanidade”.

Em pensamento ele a viu diante de si, como a tinha visto diversas vezes na igreja, quando mendigava ou cantava na praça do mercado ou, sobretudo nas pregações quaresmais que ele fez na Igreja de São Rufino. Às vezes pregava como só para ela. De todo o coração he suplicava que buscasse somente a Deus, e pelo brilho de seus olhos reconhecia que ela o escutava solícita, pois lentamente estava se desligando do mundo.

Quantas vezes desejara falar com ela. Delicadamente dominava seu desejo, mas hoje, ao meio-dia, quando voltava da visita a um doente, uma sua tia, falando com ele, perguntou-lhe se a jovem Clara não poderia conversar com ele a sós. Francisco escolheu esta fonte como lugar do encontro…

A água escorria-lhe por entre as mãos. “Irmã Água, Irmã Árvore! Alegrem-se comigo, logo mais virá ao meu encontro um anjo. Enquanto deixava as gotas de água cair por entre os dedos, ouviu o barulho do estalar de galhos, e rapidamente enxugou na túnica as mãos molhadas. Ali estava ela com sua tia. Esta parou e Clara, sozinha, aproximou-se dele. Trazia um longo manto sobre um vestido de seda verde claro. Francisco deu um passo em sua direção e cheio de respeito lhe disse: “A paz do Senhor esteja contigo!”

Viu diante de si uma mocinha franzina de 18 anos qual um sonho; um sonho de juventude e beleza. De rosto pálido, grandes olhos azuis, o nariz afilado, boca pequena e redonda com exuberantes cabelos louros, parecia uma manhã primaveril em forma humana. Olharam-se comovidos. O mundo ao seu redor desvaneceu-se como uma névoa. Viam Deus um no outro; o Deus que os reuniu as mãos de ambos para rezar.

“Irmã”, disse ele, fazendo um sinal para que chegasse mais perto.

Ela se espantou. Aquele que ela tanto admirava chamando-a de irmã. Clara tomou a mão úmida que lhe havia estendido e sussurrou:

“Irmão…”

De mãos dadas permaneceram diante da fonte. O brilho do pôr do sol tingia de ouro a copa das árvores e todo barulho emudeceu. Permaneciam em silêncio. Tinham muita coisa a dizer um ao outro; mas, agora que estavam juntos, sentiam-se tomados de tanta alegria que não encontravam palavras. Ela veio se encontrar com ele para queixar-se de sua tristeza e de seus medos, pois o pai queria casá-la com um cavaleiro enquanto ansiava dedicar sua vida a Deus. Agora, perto dele, toda tristeza e todos os receios desapareceram. Embalados pela cristalina música dos céus sentiam-se transportados acima do mundo e dos homens. Ela havia se esquecido de lhe perguntar o que a havia trazido até ali – ela estava diante dele, isso era mais do que qualquer resposta. Eles irradiavam mutuamente sua beleza e força interior.

“Eu gostaria de partilhar de sua vida de pobreza em Cristo”, sussurrou ela. “Deus seja louvado pela primeira irmã da pobreza!”, exclamou ele com toda calma e reverência. “Abençoa-me, irmão”, pediu ela, e, inclinando a cabeça, ajoelhou-se. Seus cabelos caíram-lhe sobre o rosto e com as mãos postas sobre o peito esperava sua benção. Francisco, igualmente, colocou-se de joelhos. Com mão trêmula traçou o sinal da cruz. Levantando-a, disse: “Volte amanhã, irmã”.

“Eu virei, irmão”, respondeu ela. Lentamente, retirou-se, caminhando sobre musgo macio.

Ele ficou de pé, acompanhando-a com o olhar. Estando sozinho na floresta, cobriu o rosto com as mãos.

Felix Timmermans
A harpa de São Francisco
Vozes, p. 165-168

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil – OFM

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