Santo Antônio à luz do Papa Francisco

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Assim como a mensagem de Francisco de Assis continua atual, certamente é possível revisitar a pessoa de Antônio e conseguir indicações para nossos dias.

Frei Oton da Silva Araújo Júnior, ofm

Santo Antônio é um dos santos mais populares do Brasil. Ao seu redor, dependuramos várias narrativas, milagres, orações e famas que o tornam “um santo lá de casa”. De antemão, dizemos que esta reflexão não quer de forma alguma reduzir ou questionar essa devoção popular; pelo contrário, quer ampliá-la e torná-la ainda mais relevante.

Nessa oportunidade queremos reinterpretar a contribuição desse Santo franciscano, mesmo conscientes de que interpretar é sempre um risco, afinal, nem sempre nossos critérios são os melhores. Dessa vez, vamos tentar dialogar a pessoa de Antônio com as propostas do atual Pontífice.

1. Antes de se tornar frade menor, Antônio pertencera aos Cônegos Regulares de Santo Agostinho. Fernando de Bulhões fora seu nome de batismo. Trata-se então de um jovem de cerca de vinte anos que aceitou rever seus passos e ‘recalcular a rota’, como dizem os aplicativos de navegação: deixar uma Ordem religiosa e aderir a outra.

O Papa Francisco, na exortação sobre a juventude refletiu sobre esse momento na vida dos jovens em ter de considerar os passos futuros. Vamos lê-la, tendo em vista o jovem Fernando: “Quando se trata de discernir a própria vocação, há várias perguntas que é preciso colocar-se. (…) Para não se enganar, é preciso mudar de perspectiva, perguntando: Conheço-me a mim mesmo, para além das aparências ou das minhas sensações? Sei o que alegra ou entristece o meu coração? Quais são os meus pontos fortes e as minhas fragilidades? E, logo a seguir, vêm outras perguntas: Como posso servir melhor e ser mais útil ao mundo e à Igreja? Qual é o meu lugar nesta terra? Que poderia eu oferecer à sociedade? E surgem imediatamente outras muito realistas: tenho as capacidades necessárias para prestar este serviço? Em caso negativo, poderei adquiri-las e desenvolvê-las?” (Christus Vivit, 2019, n. 285).

2. Em segundo lugar, lembremos de Antônio como pregador. Sua formação junto aos frades agostinianos lhe deu a solidez e a clareza necessária, que atraía muitas pessoas e foi reconhecida pelo papa Pio XII que o declarou “Doutor Evangélico” (1943). A coerência entre o que se prega e o que se vive é um dos primeiros critérios de um bom pregador. Somado a isso, uma profunda intimidade com o mistério de Cristo. O Papa Argentino convidava a esse respeito: “Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído” (Evangelii Gaudium, 2013, n.3).

No mesmo documento, o Papa exorta os pregadores, sobretudo ao se referir à homilia: “A homilia não pode ser um espetáculo de divertimento, não corresponde à lógica dos recursos midiáticos, mas deve dar fervor e significado à celebração. É um gênero peculiar, já que se trata de uma pregação no quadro duma celebração litúrgica; deve ser breve e evitar que se pareça com uma conferência ou uma lição. O pregador pode até ser capaz de manter vivo o interesse das pessoas por uma hora, mas assim a sua palavra torna-se mais importante que a celebração da fé” (Evangelii Gaudium, 2013, n.138).

3. Em terceiro, lembremo-nos da tradição do “pão de Santo Antônio”. Pão tem a ver com fome, e fome representa muita coisa. Os Titãs já perguntavam: “você tem fome de quê? (…) A gente quer comida, diversão e arte; a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte” (Comida, 1987).

Para além de uma ação assistencialista, realizada muitas vezes como uma “caridade por receita” (Evangelii Gaudium, n.180), Francisco nos convida a considerar o amplo contexto socioeconômico. Diz assim: “Nalguns círculos, defende-se que a economia atual e a tecnologia resolverão todos os problemas ambientais, do mesmo modo que se afirma, com linguagens não acadêmicas, que os problemas da fome e da miséria no mundo serão resolvidos simplesmente com o crescimento do mercado” (Laudato Si, 2015, n.109).

O agravamento da fome no Brasil, sobretudo em tempos da Pandemia, fez com que milhões de famílias brasileiras e em diversas partes do mundo se vissem em estado de insegurança alimentar, algo que julgávamos superado há décadas! Pensar em pão e em fome na atual situação faz saltar aos nossos olhos o rosto da injustiça e do descaso governamental para com milhões de cidadãos.

4. Outro elemento que nos possibilita unir Antônio e Francisco é a alcunha de “casamenteiro” do santo português. Para além das considerações jocosas de encontrar um bom marido ou esposa, certamente que as questões relacionadas à família são um dos grandes temas da atualidade.

Mais uma vez nos ajuda Bergoglio: “não existem as famílias perfeitas que a publicidade falaciosa e consumista nos propõe. Nelas, não passam os anos, não existe a doença, a tribulação nem a morte. A publicidade consumista mostra uma realidade ilusória que não tem nada a ver com a realidade que devem enfrentar no dia-a-dia os pais e as mães de família É mais saudável aceitar com realismo os limites, os desafios e as imperfeições, e dar ouvidos ao apelo para crescer juntos, fazer amadurecer o amor e cultivar a solidez da união, suceda o que suceder” (Amoris Laetitia, 2016, n.135).

5.Por fim, revisitemos o responso de Santo Antônio, cujo texto apresenta eventos mirabolantes (“no auge do furacão, cede o mar embravecido”). Novamente, queremos superar uma visão mágica ou utilitarista do Santo, invocado para encontrar pequenos objetos, afinal, aqui cabe algo mais profundo. Reflitamos: o que tínhamos na vida, acabamos perdendo e precisaríamos reencontrar? Claro que o passar dos anos vai deixando muita coisa para trás, mas aqui destacamos o que porventura perdemos e não deveríamos ter perdido.

Na atual conjuntura da Pandemia, fomos sim, golpeados pelo ‘auge do furação’. Muitos irmãos e irmãs nossas se foram, outros foram deixados ao luto. Quando olhamos para frente, não são poucas as pessoas que não veem saída para as situações.

Francisco nos convida a não perdermos a esperança: “Convido à esperança que nos fala duma realidade que está enraizada no mais fundo do ser humano, independentemente das circunstâncias concretas e dos condicionamentos históricos em que vive. Fala-nos duma sede, duma aspiração, dum anseio de plenitude, de vida bem-sucedida, de querer agarrar o que é grande, o que enche o coração e eleva o espírito para coisas grandes, como a verdade, a bondade e a beleza, a justiça e o amor. (…) Caminhemos na esperança! (Fratelli Tutti, 2020, n.55). Se por acaso tenhamos perdido a esperança, talvez possamos recorrer a Santo Antônio para que nos ajude a reencontrá-la.

Assim como a mensagem de Francisco de Assis continua atual, certamente é possível revisitar a pessoa de Antônio e conseguir indicações para nossos dias. Como dissemos no início, não queremos descaracterizar a devoção popular a este Santo tão querido pelo povo, mas partindo justamente da devoção popular, vemos como possível e necessário ampliar sua contribuição.

Fonte: Província Santa Cruz

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