Saudação do Ministro Geral, Frei Carlos Trovarelli, pela solenidade de São Francisco de Assis

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Caros irmãos, nesta solenidade quero dirigir a cada um de vocês e a cada pessoa que nos acompanha no nosso caminho de fé, os meus melhores sentimentos.

Memória oportuna

Há pouco mais de três meses, depois de concluir o 202º Capítulo Geral Ordinário, o cardeal Angelo Comastri em sua homilia nos lembrou a experiência de fascínio e profunda emoção experimentada por nosso seráfico pai São Francisco diante da humildade de Deus, fazendo vibrar nossos corações. “Tu és humildade”, ressoou na Basílica Papal de São Pedro, enquanto todos os frades da Ordem acolhiam o convite para serem verdadeiros discípulos de Jesus, procurando viver a mesma humildade de Deus; humildade que se manifestou na encarnação, na pessoa de Maria e na existência de São Francisco.

Na mesma homilia, o cardeal aprofundou a experiência do irmão de Assis, que não só ficou deslumbrado com a encarnação do Senhor, mas também diante da cruz, na qual contempla o amor de Deus. De fato, para Francisco, a crucificação revela a qualidade da onipotência de Deus: onipotência de amor.

O Cardeal Comastri também enriqueceu sua reflexão, dando-nos dois exemplos contemporâneos: o de uma pessoa leiga distante do mundo eclesial, que aconselhou seu amigo Papa Paulo VI a “preparar na Igreja pessoas boas e misericordiosas, humildes e mansos, serenas e capazes de amar a todos e dialogar com todos… porque já existem tantas pessoas inteligentes e cultas no mundo, mas faltam pessoas boas”. Depois, a do cardeal Schuster, que deixou como herança aos seus seminaristas, a certeza de que “hoje, o mundo não é convencido pela nossa pregação, mas pela santidade, diante da qual as pessoas acreditam, inclinam-se e oram”.

Por sua vez, o Papa Francisco, durante a audiência realizada no mesmo dia, compartilhou com os frades capitulares os aspectos do carisma franciscano que ele considera mais importantes:

O Evangelho como um modo de vida (não como algo apenas a ser pregado!);
O ouvir o evangelho como fonte de todas as manifestações da vida franciscana;
A missão como exegese viva da Palavra e assimilação da Palavra como uma via de conformação da nossa vida a Cristo;
O seguimento de Cristo em fraternidade;
A fraternidade como um dom que deve ser acolhido com gratuidade e como uma realidade acolhedora, onde os frades se encontram e compartilham a vida, e também como um espaço e pausa cotidiana para cultivar o silêncio e a contemplação; fraternidade onde todos são igualmente irmãos; escola de comunhão que se alimenta de oração e devoção;
A minoridade, vivida conforme o exemplo do Senhor, ou seja, à maneira de servo, escravo de todos, sem ambição, longe da tentação do poder; minoridade que é uma denúncia profética da lógica do mundo;
A paz, entendida como reconciliação e harmonia conosco, com os outros e com Deus; reconciliação que gera misericórdia e misericórdia que regenera a vida.

Algumas imagens

Queria recordar as duas intervenções “eclesiais” que acompanharam a conclusão do nosso último capítulo, para que todos possamos voltar a ele e, com a ajuda de Deus, meditá-los e vivê-los. Não quis recordar a reflexão que nos acompanhou no início do capítulo, aquela do cardeal Luis Antonio Tagle. No entanto, tentarei imitar um pouco o método que ele usou: servir-se de algumas imagens (certamente mais simbólicas que analíticas) para expressar algumas convicções sobre nosso carisma.

Primeira imagem: “protegidos pela Santa Madre Igreja” (ou “o dom do carisma”)

Lembrando que no dia 17 de junho, me passou pela cabeça a cena em que o bispo de Assis cobriu a nudez de São Francisco com sua capa, para protegê-lo e, ao mesmo tempo, confirmá-lo em seu propósito, que não era outro que chamar Deus de “Pai” e viver o Evangelho. A interpretação é clara: deixamos tudo para seguir o Senhor, devolvendo tudo ao mundo; nos despojamos do “velho homem” para colocar o hábito do Evangelho vivido em fraternidade. Nisto, a Igreja nos confirmou nesses santos propósitos. No entanto, com certa facilidade, frequentemente mudamos o sentido da nossa nudez e, consequentemente, tentamos nos cobrir com “roupas” que – talvez – consideremos mais atraentes.

Nesta festa de São Francisco, convido cada frade e cada fraternidade a se alegrar na beleza de nosso carisma, a sentir o coração transbordar com tanta graça e a descobrir – com uma autocrítica saudável – se nossa “nudez original” não foi substituída por outra nudez; nudez pedindo para ser coberta por roupas que não nos pertencem ou que não significam o que prometemos viver. Uma e outra vez nos despojamos de tudo o que nos afasta da beleza do nosso carisma. Não desprezemos o dom de Deus. Não tenhamos medo de voltar sempre à originalidade do carisma.

Confirmados pela Igreja, revestidos de carisma, constituídos em fraternidade, protegidos por Deus Pai, mais uma vez pronunciamos nosso propósito: viver o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Segunda imagem: “os olhos e seu mistério” (ou “a simplicidade que fascina”)

Nos primeiros dias do meu ministério, tive a oportunidade de visitar vários conventos. Em um desses, em algum lugar do mundo, algo simples – e ainda especial – me comoveu. Um frade em idade avançada, um frade que podemos considerar “desconhecido e oculto”, mostrou-me muito orgulhoso o seu convento e me contou a história do lugar, daquela comunidade e, em particular, de seu trabalho. De fato, enquanto tantas coisas aconteciam no mundo, com o passar dos anos e tantos paradigmas sociais, ele trabalhou na gráfica do convento e evangelizou a partir daí. Foi uma experiência forte, como se eu “visse” em seus olhos claros e em seu olhar transparente o reflexo dessa história. Então, aos olhos dele, eu também descobri um mistério: por muito trabalho, pelo esforço naquela gráfica, seus olhos foram quase completamente consumidos. Esse confrade – na verdade também um missionário – passou a vida e os olhos vivendo com simplicidade, em fraternidade e em frutuoso trabalho.

Nossa diligência, o tipo de trabalho que nós frades realizamos amplamente na Ordem, é – graças a Deus – muito variado: todo tipo de trabalho pastoral, trabalho social, trabalho acadêmico, trabalho manual, serviços em várias estruturas eclesiásticas, outros serviços, empregos remunerados, empregos produtivos para o sustentamento econômico, etc. Vivemos do nosso trabalho e, com o nosso trabalho, evangelizamos. Lidamos com muitas coisas, sempre como verdadeiros irmãos menores: com simplicidade, a partir da fraternidade, para servir a fraternidade e – através dela – a Igreja e o mundo.

Francisco sentia grande emoção diante da humildade de Deus. Mas, não apenas isso! Sua experiência evangélica começou como um simples construtor, construindo algumas igrejas com o trabalho de suas mãos. Também sinto grande emoção sempre que descubro – como neste confrade – que vale a pena nos consumir para gerar vida, para anunciar ao mundo o kerigma da salvação.

Terceira imagem: “convidados” (ou “desapropriação como estilo”)

Somos peregrinos no mundo, nossa obediência nos coloca à disposição para as mudanças. Além disso, alguns de nós foram encarregados da tarefa de visitar a Ordem e diferentes partes do mundo. Como ministro, tenho a responsabilidade de visitar tantos lugares e me enche de alegria quando encontro e conheço cada frade, cada cultura, cada nação, cada costume. O mundo não passa simplesmente na minha frente, mas passa pelo meu coração. A diversidade me emociona e – ainda mais – por estar ciente do fato de que, sendo tão diferentes, formamos e somos uma grande família. Vivemos no claustro que é o mundo e em todos os lugares nos sentimos em casa.

Uma das características do nosso carisma é justamente a desapropriação: nisso somos menores. Temos consciência de sermos hospedes: nada nos pertence, apenas andamos e servimos a todos “porque é belo”, na gratuidade. Nós não dominamos o mundo, mas o habitamos. Caminhamos “pedindo permissão” para “pisar” as terras sagradas, a dos irmãos, do Povo de Deus, a das pessoas, a das culturas. Nada e ninguém nos pertence. E somos livres para amar com o amor de Deus. Em nosso caminho, porém, todos corremos o risco de perder essa característica do nosso carisma. A apropriação joga contra nós, e isso se manifesta não apenas em “ter”, mas também em todo tipo de poder.

Em nossa Ordem, pode acontecer de vender nossa rica herança, que é a liberdade evangélica, a preço baixo do poder. O poder distorce seriamente a fraternidade, o poder distorce nossa disponibilidade, o poder desfigura a face do irmão, o poder distorce a paisagem do mundo em que habitamos.

Queridos irmãos, voltemos sempre a sermos hospedes, como o irmão de Assis que estamos celebrando. Nós não somos donos da vida, nós a vivemos; não somos donos da fraternidade, compartilhamos a vida com os irmãos; não somos donos das tarefas que nos foram confiadas, mas somos responsáveis ​​e servos; não somos senhores da liturgia, simplesmente habitamos o seu mistério (não nas vestes!); não somos donos da comunidade eclesial, somos parte dela (se presidimos a comunidade, fazemos na caridade, não como donos!); não somos donos do ministério, somos simplesmente ministros; não somos donos do “sagrado”, entramos nele; não somos patrões da história, a assumimos.

Quarta imagem: “a criança e a terra” (ou “harmonia com o mundo”)

Há algum tempo, enquanto visitava uma área missionária, eu estava andando em uma rua muito simples, em um país igualmente simples, e vi uma pequena menina descalça, com as mãos e os pés empoeirados e com um pedaço de tijolo que trazia a boca. Havia uma interação completa entre a terra e a criança. Com esta imagem, não pretendo fazer moral com uma análise social, cultural ou sanitára. Gostaria apenas de apresentar uma imagem que, de maneira semelhante, nos acompanha em todo o mundo. É a imagem da pobreza? É a imagem de todos os pobres do mundo? É a imagem da inocência? É a imagem de uma vida simples, do simples ser humano, do “homem comum”? É a imagem da natureza? Acredito que é tudo isso, mas gostaria de me concentrar, em particular, no significante “pobreza”, que nos aproxima de outro significante “minoridade”, próprio do nosso carisma. “Os pobres sempre terão convosco” (Mt 26,11). Em todos os lugares, os pobres, as pessoas comuns, a vida “terra-terra”, a vida cotidiana, fazem parte de nossas fraternidades. E isso é um dom. São Francisco se casou com a Senhora Pobreza e escolheu caminhar e terminar seus dias em contato com a terra.

Em todo o mundo, tive a oportunidade de ver cenas semelhantes: sempre há uma “criança” em contato com “a terra”, às vezes por opção, outras pelas injustiças do mundo, outras pela cultura e outras por desígnios misteriosos de Deus. “A criança e a terra” talvez nos pode fazer lembrar o estado original de criação e do mistério da história, dos povos, da natureza, da sociedade. Somos chamados a interpretar esses mistérios com a Palavra e em fraternidade, a nos envolver com o mundo, com a criação, com os pobres, com os jovens, com a vida. Como disse o Papa Francisco, somos chamados a ser “exegese vivente da Palavra”. A Palavra ilumina e interpreta nosso compromisso com a vida. Palavra e minoridade nos tornam amigos com a terra e com todas as suas eventualidades.

Quinta imagem: “a mesa” (ou “a originalidade do Filho”)

Poucas coisas nos reúne mais do que a mesa. Quando chego a um lugar, a “mesa” é sempre o ponto de referência em torno do qual é criada uma relação fraterna. Muitas vezes tenho que presidir as refeições, mas – em qualquer caso – a mesa permanece sempre o “mistério central” em torno da qual gravita a vida de uma fraternidade. Se trata daquela mesa cotidiana, na qual “comer” torna uma oportunidade para fortalecer a vida fraterna. A mesa acolhe não apenas os momentos de almoço e jantar, mas também os Capítulos Conventuais, o diálogo entre os frades, os momentos de planejamento e trabalho, os grupos e os convidados. Porém, somente a mesa Eucarística contém todas as mesas e todos os elementos, todas as pessoas e todas as suas expectativas e esperanças. A mesa eucarística – disse o cardeal Tagle – contém “pão e história”, e nela toda a fraternidade tem sua origem; nesta mesa nos vem dado o significado de tudo e de todos.

A mesa Eucarística é conteúdo, força e critério. Lamento ver que muitas fraternidades se privam da Concelebração Eucarística! Na mesa eucarística somos todos equidistantes do amor do crucificado; equidistantes da festa que nos nutre e ao mesmo tempo nos constrói. Todas as mesas possuem aquele mistério “central”, que acrescenta um “mais” que nenhuma forma de individualismo pode jamais gerar. Talvez esse “mais” da mesa não seja aprendido, mas certamente é sabedoria; sua sabedoria é a dos povos humildes que talvez não consigam correr rápido, mas sabem caminhar juntos.

A mesa é o lugar onde todos podem entrar, “especialmente os pobres”, disse o cardeal Tagle; porque à mesa dos pobres, a dignidade nunca é dada pela qualidade do que está, mas pela humildade de todos os que dela fazem parte, para que haja sempre espaço para mais um hóspede. Era isso que quis o Filho de Deus incluindo a todos.

Sonho com uma Ordem que esteja sempre em torno de uma mesa; sonhe grandes mesas onde todos têm algo a dizer e algo a aprender; sonho com uma mesa aberta para os pobres; sonho com uma mesa em que todos possamos reconhecer o pão partido, enquanto na fraternidade, fazemos uma só história.

Queridos irmãos, ajudemo-nos mutuamente no cuidado constante do carisma ao qual fomos chamados. Não vamos largar os braços! Ao celebrar essa solenidade, celebramos a graça de ser Frades Menores Conventuais neste momento, nesta história, neste mundo!

Feliz Festa do Seráfico Pai São Francisco!

Roma, 04 de outubro de 2019

Frei Carlos A. Trovarelli, OFMConv. (Ministro Geral)

Tradução Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.

Fonte: Província São Maximiliano Kolbe

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