A vida de oração, presente de Francisco ao carisma franciscano – Um convite à santidade

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Para falarmos da vida de oração do “servo de Deus”¹, é necessário rememoramos São Francisco que escreve em sua Terceira Admoestação, tratando da obediência perfeita, na qual este conselho evangélico é tido como forma vívida de oração do penitente, “[…]Abandona tudo o que possui e perde seu corpo aquele que se oferece totalmente à obediência nas mãos de seu prelado”².

Francisco, sabiamente expõe em seu escrito aquilo que mais afeta o homem, a perda de sua liberdade, convidando-o a entregar-se inteiramente ao Senhor na pessoa do prelado. Evangelicamente, o ato de convidar, retoma o conceito de livre escolha, porém nessa dimensão só é vista com os olhos da fé. É experiência. Caso contrário, é submissão.

Para Francisco estas palavras podem ser convertidas para o sentido de penitência, resumida em três pontos importantes: deixar-se conduzir pelo Senhor; participação das dores e sofrimentos dos outros; e a fraternidade. É bom lembrar que para o santo, penitência não lembra métodos ascéticos, mas a vida como realidade a ser enfrentada dia após dia, na fé.

Ou seja, para ele, penitência é viver conforme o Santo Evangelho, como orienta a seus frades no capítulo primeiro da Regra: “a Vida e Regra dos frades menores é esta: viver o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo em obediência, sem nada de próprio e em castidade…”

Aqui chegamos na forma primordial de oração do servo de Deus, onde o Evangelho tem seu ponto principal e o maior convite de forma de obediência, na busca sincera pela vida minorítica e penitencial.

Orar o Evangelho é deixar-se conduzir pelo Senhor , sendo obediente a Ele, servindo com alegria e humildade, “Bem-aventurado o servo que não se considera melhor quando é engrandecido e exaltado pelos homens do que quando é considerado insignificante, simples e desprezado, porque, quanto é o homem diante de Deus, tanto é e não mais”. Assim nos fala Francisco em sua décima nona Admoestação.

Deixar-se conduzir é assumir sua totalidade de homem, “remando contra a maré”, abrindo mão de suas vontades para engrandecer ao máximo a fragilidade da criação. É aceitar-se plenamente, nos vícios e pecados, e engrandecer o nome do Criador de todas as coisas, devotando-o todo o louvor com a própria vida.

Tendo se reconhecido como miserável por meio do Evangelho, o servo de Deus, passa a olhar o mundo com os olhos do Senhor, e contempla o suprassumo da criação participando assim das dores e sofrimentos dos outros. Aqui não temos um mero assistencialismo, mas a capacidade de contemplar o outro como obra do criador, de rezar a vida no sofrimento alheio que nos cerca.

O espírito de contemplação, assume o significado de ver, além da aparência externa, o sacramento vivo de Deus, presente no meio de nós, seja na pessoa de Jesus, seja nos sinais eucarísticos do Pão e do Vinho. Logo, a contemplação em francisco é o único modo de ver, com os olhos da fé, Deus em Jesus Cristo e o filho de Deus nos sinais eucarísticos.

O santo nos convida a voltar-nos para as coisas criadas, chamá-las de irmãos, compartilhar das maravilhas e do amor de Deus em todas as coisas, e por fim, chegar a parte externa, aquilo que é captado pelos olhos, pelas simples sensações.

Contemplar, nesta perspectiva franciscana tem o peso de encontrar no desprezível, a expressão de amor único e absoluto de Deus por cada criatura. É olhar com olhos de Deus.

Até então temos a contemplação como ação única e pessoal do servo de Deus, que remete na constituição do todo, do mundo em que habitamos, como fruto de amor de Deus.

Em seguida, Francisco nos dá de presente a fraternidade em que o próprio Cristo está vivo e ressuscitado no irmão, como pilar nessa jornada orante e piedosa do servo de Deus, uma vez que esta é a expressão do amor trinitário presente no santo modo de operar.

Também a vida da fraternidade se orienta para a ação salvífica que Deus iniciou em vista do homem e da criação. Vivendo como morada do espírito, permitindo-lhe agir, o irmão individualmente e a fraternidade torna-se sinal vivo de salvação para o mundo.

Ainda na dimensão fraterna, Francisco nos convida a orar pelo irmão, “Bem-aventurado o homem que, na medida de sua [própria] fragilidade, suporta seu próximo naquilo que gostaria de ser suportado por ele, se estivesse em semelhante circunstância. Bem-aventurado o servo que atribui todos os bens ao Senhor Deus.” (XVII Admoestação).

Portanto, ser orante no carisma francisco é, à luz do Evangelho, amar o outro com os sentimentos de Jesus, chamá-lo de irmão e se compadecer de suas dores e sofrimentos. Convidá-lo a uma vida digna, convocá-lo ao amor maior e suportar juntos as intempérias da vida no santo modo de operar. Todo esse trabalho de servo de Deus é realizado na perspectiva da obediência e no abandono à vontade de Deus na ação de seu filho Jesus Cristo, vivo nos santos sacramentos de Pão e Vinho, como também no olhar de clemência e necessidade do irmão menor e abandonado.

Jesus nos convida a contemplar o mundo, a olhá-lo com seus olhos.

¹ Francisco utiliza o termo servo de Deus quando se trata da pessoa que se disponibiliza a ter uma vida de oração e contemplação. Termo comumente encontrado nas Admoestações escritas pelo próprio santo.

² Na leitura franciscana não se encontra o termo superior. Usa-se mais comumente o termo prelado que etimologicamente significa o que é posto à frente dos demais; na sua literalidade o termo não indica superioridade nem dignidade, mas o serviço de conduzir os demais, à maneira do pastor que conduz as ovelhas. (NT das Fontes Franciscanas, p. 97).

Frei João Paulo Gabriel, OFM

Fonte: Custódia Franciscana do Sagrado Coração de Jesus

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