Convento dos Capuchos em Sintra: o refúgio dos frades franciscanos que parece saído de um mundo encantado

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créditos: andarilho.pt

Uma visita ao Convento dos Capuchos em Sintra é uma viagem surpreendente no tempo e na descoberta da tenacidade humana. São cinco séculos que nos transportam para um universo que, praticamente, se encontra nos antípodas dos valores agora dominantes: pobreza, obediência e castidade. “A pobreza franciscana”.

O Convento dos Capuchos é também o testemunho de como os frades franciscanos, que se refugiaram aqui a partir de 1560, seguiam uma filosofia de comunhão com a natureza.

Este é um dos motivos porque no convento encontramos frequentemente o recurso a cortiça. Para efeitos decorativos, para se sentarem ou dormirem.

Carla Ventura, da Parques de Sintra, diz que é um dos vários sinais de como os frades “seguiam o princípio de Francisco de Assis que considerava que todas as criaturas eram obra de Deus. Deviam ser consideradas irmãs e respeitarem-se entre si. Havia uma irmandade universal entre homens, animais e plantas.

Havia um grande respeito pela natureza. É neste sentido que, dentro do voto de pobreza, conviviam com a natureza, utilizavam os seus recursos, sem a delapidar e sem irem contra o princípio da irmandade universal”.

A salvaguarda da natureza permite também que toda a envolvência do convento, um bosque seja ainda de espécies locais.

“Muito graças aos frades, o bosque que nos rodeia mantém muitas espécies autóctones de Sintra. Ao longo de séculos, e isso é confirmado com algumas fotos do século XIX onde se vê a serra despida de árvores, mas aqui não. Não houve cortes de árvores para se fazerem móveis, barcos, casas… Manteve-se intocado este núcleo da floresta relíquia de Sintra.”

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A materialidade que nos é dada pela natureza e pelas construções do convento é também refletida nos valores espirituais que chegam aos dias de hoje numa simbologia interessante. Logo à entrada. A subida tem no alto uma cruz. Ao lado, junto de outras rochas vemos mais duas cruzes e de menor dimensão. São apenas estas que nos dão acesso ao convento.

“Se tivermos em conta o momento de crucificação de Cristo, as duas cruzes laterais, porque simbolizam os dois homens que foram crucificados com Cristo, correspondem ao acesso humano, a via humana. A cruz central neste Terreiro das Cruzes é inacessível. É a via divina.”

A entrada pelo Terreiro das Cruzes é um espaço onde domina o verde e as pedras estão pintadas de musgo. Depois de subirmos o pequeno lance de escadas de pedra temos um pequeno largo e o acesso tem de ser feito pelo intervalo de duas rochas.

É o segundo ritual de passagem. Comporta uma mensagem que nos é salientada por Carla Ventura que conhece bem a história do convento. Na altura da construção do Convento, a Ordem Franciscana passava por um processo de reformulação e passou a valorizar o indivíduo, a vontade de cada pessoa.

No alpendre da entrada do convento, encontramos o terceiro sinal da opção tomada pelos frades. É irreversível. Uma cruz e uma caveira estão colocadas no topo de uma porta.

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Quem entrar passa para um universo onde se abdica dos prazeres da vida terrestre. Para a “pobreza franciscana”. Habitualmente eram oito frades. Depreende-se que seja este o número devido à quantidade de celas onde dormiam. No entanto, “originalmente eles terão dormido em grutas ou algo semelhante. As celas correspondem à parte mais antiga do convento, final do século XVI ou, eventualmente, início do século XVII.

É um lugar surpreendente. O acesso é por um corredor estreito e a entrada para cada cela era por uma porta minúscula em altura e largura. Precisavam de se ajoelhar para entrarem, obrigando-os a um gesto de humildade.

“A primeira reação das pessoas quando passam no corredor das celas é entrar dentro delas e sair o mais depressa possível. Um adulto, de estatura média, tem sempre de se colocar de cócoras e passar de lado. Mesmo um jovem já tem alguma dificuldade. A segunda reação é dizerem que os frades deviam ser muito pequenos e magros. Não era isso. O tamanho das portas tinha a ver com a humildade e à referência bíblica de que só os humildes passarão as portas do céu.”

As celas são muito pequenas. Os frades dormiam no chão ou sobre uma placa de cortiça e cada compartimento tem uma janela. Na parte superior foi construído posteriormente um quarto maior, o que revela uma eventual utilização por visitantes e peregrinos.

Este foi um dos motivos da requalificação de alguns espaços ou de construções novas, como por exemplo a Capela do Horto ou a Capela da Paixão de Cristo que se encontro logo à entrada, no lado direito, decorada com azulejos. É do século XVIII.

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No lado oposto, temos a igreja cuja estrutura remete para a fundação do convento e, de certa forma, para a lenda que está na sua origem. “De acordo com a tradição, o rei D. João III estaria aqui a caçar. Perante o cansaço, decidiu dormir à sombra de uma grande rocha. Sonhou com anjos a ajoelharem-se perante a Santa Cruz de Cristo.

Ele foi um dos reis mais fervorosamente católicos e interpretou o sonho como uma mensagem. Decidiu mandar construir aqui um convento para os frades franciscanos. Pediu a um dos seus nobres de maior confiança, D. João de Castro. Devido ao falecimento do quarto vice-rei da Índia, a promessa passou para o filho, D. Álvaro de Castro que, em 1560, ordenou a construção do convento”.

Talvez esteja aqui a explicação para a pequena igreja se assemelhar a uma gruta e o altar estar colocado debaixo de uma enorme laje. As celebrações religiosas eram partilhadas com peregrinos e visitantes, mas os frades mantinham o seu isolamento e ficavam no Coro Alto a entoar os cânticos religiosos.

No entanto, o recolhimento não era total. Era regular o contacto com locais e peregrinos e este será um dos motivos que explica o tamanho da cozinha, comparando com outras divisões muito mais pequenas.

Os frades permaneciam aqui, em recolhimento e até para tratamento médico, com pequenas enfermarias individuais. São cubículos estreitos que vemos ao longo de uma passagem. Há também um espaço, sem luz, a chamada Sala da Penitência que seria dedicada a tratar do espírito.

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Ao contrário da luz no claustro. Um espaço aberto, com árvores e onde temos uma magnífica imagem de conjunto. Do património construído e do ambiente sereno e despojado que nos envolve. Ao contrário do luxo e da ostentação dos palácios de Sintra.

O Convento dos Capuchos está classificado como Imóvel de Interesse Público. Após a extinção das ordens religiosas, o edifício sofreu uma profunda degradação e passou para as mãos do Estado em meados do século passado.

A gestão passou para a Parques de Sintra em 2000 e, há cerca de uma década, foi iniciado um processo de restauro e requalificação para permitir igualmente a visitação.

Convento dos Capuchos em Sintra: a apologia serena da pobreza, obediência e castidade faz parte do programa da Antena1 Vou Ali e Já Venho e a emissão deste episódio pode ouvir AQUI

Fonte: Portal Sapo Brasil

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