Família Franciscana deseja “Amazonizar-se” – Uma reflexão sobre o Fórum Franciscano para o Sínodo Pan-Amazônico

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Em sintonia com os apelos da Igreja que está realizando o Sínodo para Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral, a Conferência da Família Franciscana do Brasil (CFFB) deseja amazonizar-se: um processo intenso e extenso de (re)conhecer a pertença e o cuidado com a Amazônia urbana e rural. Isto implica em aproximar-se, acolher e respeitar toda a beleza da criação expressa na relação entre os povos originários amazônidas e a natureza. E ainda, observar que esta vida pulsante na Amazônia está interligada com todas as expressões de vida, formando uma fraternidade universal.

Neste espírito, a CFFB realizou o Fórum Franciscano sobre o Sínodo Pan-Amazônico, nos dias 4, 5 e 6 de julho de 2019, na cidade de Manaus, no estado do Amazonas, com o objetivo de contribuir no aprofundamento da temática Sinodal à luz da Espiritualidade Franciscana. E escolheu por tema: Perspectivas e desafios para a Conferência da Família Franciscana do Brasil.

Motivados pelo magistério do Papa Francisco, em especial com a Encíclica Laudato Sí (2015), os Franciscanos e as Franciscanas presentes no mundo todo percebem que muito o Carisma pode contribuir aos novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral. Sistematizando esta contribuição, a primeira atitude é de nos encontrarmos como Família. E assim, presentes no Brasil, e de um modo especial, na Amazônia, as diversas expressões da Família Franciscana terão melhores condições de observar as perspectivas e os desafios que a contemporaneidade exige de nós. Por isso, ministros gerais dos Frades da primeira Ordem Franciscana e Ordem Franciscana Secular enviaram mensagens motivadoras à CFFB saudando a iniciativa do Fórum que tem um caráter evangélico, profético, fraterno e cheio de esperança.

A Conferência da Família Franciscana do Brasil vem se fortalecendo cada vez mais como um organismo de comunhão onde os irmãos e irmãs encontram o aconchego do lar e o apoio para a missão. O ano de 2019 trouxe grandes mudanças, internas e externas para CFFB, que após o Fórum, organiza sua Assembleia Ordinária Eletiva a ser realizada de 22 a 25 de agosto de 2019, e conta com a participação e o sentido de pertença de todos os seus membros, com a presença dos Ministros, Provinciais, Coordenadores Regionais e demais delegados.

Tanto no Fórum Pan-Amazônico, quanto na Assembleia eletiva, nos chamam a atenção para compreender melhor a necessidade de fortalecer nosso apostolado franciscano diante da Justiça, Paz e Integridade da Criação. Este apostolado é organizado e realizado de modo muito especial pelo Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia (SINFRAJUPE) com vários desdobramentos de serviços nas obediências que formam a grande Família, este serviço apostólico – que é um elemento basilar do carisma e por tanto, transversal – é o Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC). Dele se espera as respostas organizadas e precisas aos desafios que ameaçam a vida.

Fórum Franciscano para o Sínodo Pan-Amazônico

Entre os dias 04 a 06 de julho, no Centro Arquidiocesano São José, em Manaus (AM), a CFFB realizou o Fórum Franciscano Para o Sínodo Pan-Amazônico que ajudou os franciscanos e as franciscanas a voltarem o olhar e o coração aos apelos do Papa Francisco através de sua convocação para o Sínodo Pan-Amazônico.

O evento foi promovido pela Conferência da Família Franciscana do Brasil (CFFB) e contou com o apoio de diversos irmãos e amigos, dentre os quais, o Bispo Arquidiocesano de Manaus – Dom Sérgio Castriani-CSSp, Fr. Paulo Xavier-OFM Cap e Fr. Alex Assunção-OFM. Durante a programação, contamos com a assessoria de Fr. Luiz Carlos Susin-OFMCap, Fr. Florêncio Vaz-OFM, Fr. Atílio Battistuz-OFM, Pe. Justino Sarmento Rezende – SDB, indígena Tuyuka e referência da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam – Manaus).

O Fórum reuniu cerca de 160 participantes oriundos de vários estados brasileiros e do exterior: frades da OFM/OFM Cap/ OFM Cov, irmãs religiosas da TOR e irmãos e irmãs da Juventude Franciscana (JUFRA) e Ordem Franciscana Secular (OFS). Esta última garantiu a participação de Francisco José Corrêa de Araújo, que representou a OFS Nacional por meio do serviço JPIC. Os regionais da área norte da CNBB, somaram mais de 30% dos participantes, e isso implica na presença profética dos Franciscanos na Amazônia legal/ região norte do país. Todos os participantes foram envolvidos na temática por meio de uma ambientação com um rosto amazônico e animação musical com um repertório adequado à Ecoteologia com músicas franciscanas da CFFB, Pan-Amazônia ancestral (Antonio Cardoso), Amazonas moreno (Raízes Caboclas), Nossa Vida é Missão (Manoel Nerys), Rios (Roberto Malvezzi/Gogó), Paneiros (Grupo Gaponga), dentre outras. Ao longo do evento foram disponibilizadas transmissões ao vivo pela Rádio Santo Antônio, e ainda registros fotográficos e audiovisuais registrados por Fr. Lorrane Clementino, OFM e publicados na página do Facebook da CFFB. O evento foi enriquecido com debates, estudos e conferências para o aprofundamento na solicitação do Papa Francisco.

1- No primeiro dia do Fórum, os irmãos e irmãs da JUFRA acolheram os participantes com danças típicas da região. Na abertura oficial, Frei Éderson Queiroz – OFMCap, proferiu as boas-vindas e os presentes foram agraciados com a participação do Arcebispo de Manaus, Dom Sérgio Castriani, que contou com o auxílio do secretário da CNBB Norte 1 – Diácono Francisco Andrade de Lima, para apresentar os eixos principais do Instrumentum Laboris (Instrumento de Trabalho para o Sínodo Pan-Amazônico), no qual constam de três partes: a primeira, o ver-escutar, que se intitula A voz da Amazônia, e tem a finalidade de apresentar a realidade do território e de seus povos. Na segunda parte, Ecologia integral: o clamor da terra e dos pobres, aborda-se a problemática ecológica e pastoral; e na terceira parte, Igreja profética na Amazônia: desafios e esperanças, a problemática eclesiológica e pastoral.

Em seguida, o Pe. Justino Sarmento Rezende – SDB, indígena Tuyuka, iniciou a Conferência “Cosmovisão Amazônidas”. Na qual pondera que a conversão ecológica inicia com cada um, para então abrir-se para a conversão comunitária/ familiar. Precisamos aprender um novo modelo de vida com os povos tradicionais, pois o bem viver é uma urgência, e as comunidades indígenas podem nos ajudar nesta prática. E afirmou ainda: “Descolonizar a mente é um processo lento, mas necessário”.

Após o almoço, Dom Edmilson Tadeu Canavarros, SDB – Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Manaus visitou a Família Franciscana e proferiu algumas palavras de incentivo a iniciativa do Fórum. A programação seguiu com a assessoria de Frei Luiz Carlos Susin – OFMCap com a conferência “Francisco e a Fraternidade Universal: Da desapropriação à Aliança”. O professor da Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (ESTEF/RS) contribui que a defesa dos Direitos humanos e dos animais é por causa da condição de vulnerabilidade que precisa se levantar a bandeira dos excluídos. Neste caso, os animais são o fiel da balança e o ponto mais sensível da nossa postura ecológica diante da comunidade da vida destinada ao sábado (dia sagrado, dia do Senhor – que para os Cristãos é o Domingo). O conferencista explanou ainda a respeito de nossa relação com os animais. Percebe-se que eles de estão sendo tratados por nós como: entretenimento, propriedade, experimentação científica, compensação afetiva, matéria prima para indústria, e fonte desequilibrada de alimentação. Tais atitudes exigem uma conversão pastoral, ecológica e eclesial. “Vivemos no moneyteismo (…) movidos pela apropriação e pelo acúmulo financeiro (…) o dinheiro não vale nada, mas compra tudo”. Afirma Susin.

Em seguida, houve um momento de Painel com Fr. João Messias – OFM que testemunhou sua vivência com os Munduruku. Experiência missionária na Prelazia de Itaituba com mais de 58 comunidades indígenas que vivem com relação de pertença com a Floresta, mas ameaçados pela extração de minérios e outros impactos socioambientais. E Ir. Clarice Barri – Catequista Franciscana, falou sobre Mobilidade Humana em Assis Brasil. Área de Fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru. Foram expostas o diagnóstico social, econômico e religioso. Uma experiência de Diálogo, Sincretismos e Intercâmbio.

2- Dia 05 de julho, o Fórum iniciou suas atividades após a oração da manhã “Nós somos parte da terra, a terra é parte de nós. Um é a extensão do outro, nós não vivemos a sós” (música “Cuidar da Terra” – grupo imbaúba). Em seguida, Fr. Atílio Batistuz, OFM/ SINFRAJUPE que proferiu a conferência “Mística e Profecia Franciscana”. Bebendo na fonte de São Francisco de Assis e Santa Clara, Fr. Atílio afirma que a missionariedade faz parte da identidade franciscana e que a Amazônia é “um grande santuário” e chamou a atenção para a extensão do território Pan-Amazônico e para as mais de 300 comunidades indígenas. Em sua apresentação pautada na teoria de Gaia, sugeriu à CFFB algumas ações: Visitas e experiências missionárias/pastorais na Amazônia para criar laços afetivos com a Amazônia; Promover semanas da Amazônia – pôr a Amazônia em debate; Participar da REPAM; Ouvir mais os cientistas; Ouvir os povos da floresta; Limitar o consumo de energia elétrica e incentivar o uso de fontes limpas; Fortalecer o SINFRAJUPE; Fazer um mapeamento da presença franciscana na Amazônia; Trabalhar em rede com outras famílias religiosas (Carmelitas, Jesuítas, Dominicanos…); Participar do IX Fórum Social Pan-Amazônico (FOSPA); que será realizado entre os dias 22 e 25 de março de 2020 em Mocoa, Putumayo, na Colômbia. E ainda, reduzir ou até parar de comer carne. No final de sua explanação, afirmou: “Se a Amazônia perecer, todos nós pereceremos”.

O evento seguiu com a assessoria de Fr. Florêncio Almeida Vaz Filho – OFM que abordou o tema: Ecologia Integral Franciscana. Faz parte da Espiritualidade Franciscana reconhecer que todas as criaturas tem “agência” e que tudo está interligado, partindo da cosmovisão dos povos tradicionais devemos reconhecer que tudo é gente. É preciso reconhecer e respeitar estes saberes, e, por exemplo: pedir licença antes de entrar nos rios ou na floresta. Na ecologia integral de São Francisco, “tudo é meu irmão, tudo é minha irmã”; “Os encantados existem”; “A terra sem males, existe”. Afirma o frei e professor no Programa de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA).

Na tarde dia 05, os participantes visitaram o Bosque da Ciência do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA) e interagiram com a floresta participando de várias oficinas que os grupos de pesquisa do Instituto realizam. Depois desta atividade, seguiram para Ponta Negra para saudar o pôr-do-sol e celebrar a Eucaristia que foi realizada no Santuário Nossa Senhora da Amazônia com a animação musical do grupo Gaponga.

3- O dia 06 iniciou bem cedinho com a celebração da criação realizada no Barco Dona Carlota que nos acolheu e conduziu pelo Rio Negro rumo ao encontro do Rio Solimões. A celebração deste dia foi ministrada pela Irmã Laura Vicunã – Catequista Franciscana. Foi uma manhã orante de convivência fraterna conduzida com muito carinho pela coordenação do evento. Após o almoço, os irmãos e irmãs expressaram seus sonhos e compromissos. Que para sistematizá-los, a CFFB irá elaborar uma Carta-compromisso. O encerramento do Fórum Franciscano para o Sínodo Pan-amazônico ocorreu com a Celebração eucarística na Igreja São Sebastião – Capuchinhos.

Que São Francisco de Assis, patrono da ecologia, “irmão da natureza”, seja nosso exemplo, para que possamos nós, franciscanos e franciscanas, cumprirmos nossa missão profética em defesa da vida e do cuidado da casa comum, com vigor renovado e com a audácia reformadora que o caracterizou.

 

O Sínodo Pan-Amazônico e a Ordem Franciscana Secular (OFS)

Para todos os ramos da Família Franciscana, o comprometimento ecoteológico é um elemento em comum. Pois, nossa vida e regra é viver o Santo Evangelho nos passos de São Francisco de Assis. No qual, o Espírito Santo nos presenteou com um carisma plenamente fraterno, que nós reconhecemos como irmãos e irmãs e conclamamos que tudo está interligado. Daí provém a necessidade do testemunho e da responsabilidade de cuidar da Casa Comum. No entanto, cada ramo da Família expressa sua pertença e vivência do carisma de modo “particular”. Àqueles que vivem o carisma na modalidade secular, cabe a função de administrar os bens temporais pautados nos valores evangélicos, agindo em diversos areópagos da realidade de leigos e leigas, diáconos ou sacerdotes que professam a Regra da OFS.

Na referida Regra, observamos a dimensão profética do carisma, ou em outras palavras, a dimensão socioambiental da caridade cristã. Assim, assumimos o compromisso interdependente na atuação da justiça/paz/ecologia. Com isso, a Justiça (Regra Capítulo 15) é compreendida como: Defesa da Vida em Plenitude para todos, Promoção Integral da Pessoa Humana, Defesa dos Direitos Humanos, Incidência Política e Políticas Públicas; A Paz (Regra Capítulo 17) é compreendida como: Espiritualidade Libertadora, Anúncio, Encontro/Diálogo/Convivência, Ecumenismo, Diálogo Inter-religioso, Superação da Violência; e a Ecologia/ Integridade da Criação (Regra Capítulo 18) é compreendida como: Fraternidade Universal, Ecologia Integral, Conversão Ecológica.

Não se trata somente de uma opção, mais de uma exigência evangélica que devemos observar desde o processo de nossa formação humana e iniciação à vida cristã, mas também na formação franciscana. Nos últimos anos, percebemos um fortalecimento do serviço JPIC na vida dos irmãos e irmãs da OFS, certamente como resposta aos apelos do Papa Francisco, mas sobre tudo como vivência de nossa vida evangélica e franciscana. Assim, o JPIC deve ser a expressão primeira de nosso apostolado, o que vai ao encontro da conversão ecológica e cuidado com a casa comum. Por isso, o JPIC deve ser uma prioridade em todas as nossas fraternidades – seja Internacional, Nacional, Regional ou Local. Não se admite mais que os temas ligados à dimensão socioambiental da fé sejam tratado como secundários em nossos calendários.

Por isso, antes de exigir que os outros vivam uma conversão pastoral e ecológica, nós – franciscanos e franciscanas seculares – devemos testemunhar tal conversão, a começar pelo exemplo particular, depois em nossas fraternidades locais, e assim por diante. Precisamos não somente priorizar as atividades JPIC em nossos calendários, mas sermos capazes de “tirar do papel” este sonho, de dar os passos que nossos limites nos permitem. Podem ser passos lentos, mas que sejam unidos, fortes e perseverantes.
Assim, para além dos estudos da Laudato Sí e de documentos produzidos pelo processo do Sínodo Pan-amazônico, são sugestões de atividades que podem ser assumidas de modo pessoal ou em nossas fraternidades locais:

1) Justiça:

1.1: Reflexões sobre a realidade sócio-cultural-eclesial-política nos encontros de estudo e nos capítulos;
1.2: Nas paróquias, procurem imprimir metodologia de participação, de valorização das pessoas leigas, promovendo seu protagonismo, através do apoio a diversas pastorais e serviços, de acordo com as necessidades do povo;
1.3: Nas redes de comunidades, situadas no contexto urbano, desenvolver forte presença solidária junto à população carente;
1.4: Participação em pastorais e serviços específicos: luta pela terra, organização dos pequenos agricultores, agroecologia, presença e serviço junto às pessoas com deficiência, trabalho de recuperação de dependentes químicos, Promoção da Criança e Adolescente, Organização dos Trabalhadores Desempregados…;
1.5: Integração nos eventos da Igreja: Campanha da Fraternidade, Grito dos Excluídos(as), Romaria da Terra, do Trabalhador, Encontros de CEBs, CPT (Comissão da Pastoral da Terra); PO (Pastoral Operária); PJR (Pastoral da Juventude Rural); Pastorais Sociais; Organizações da Sociedade Civil: MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra); MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores); MTD (Movimento dos Desempregados).
1.6: Incidência Política por meio da participação nos espaços de controle social como: Fóruns e Conselhos Paritários.

2) Paz:

2.1: Retiros anuais em torno da temática de justiça, paz, Integridade da Criação, opção pelos pobres, saúde integral, à luz da espiritualidade e prática de S. Francisco;
2.2: Promover atividades Ecumênicas e diálogo Inter-religioso;
2.3: Combater o armamento da sociedade civil;
2.4: Articular eventos populares como a Romaria/ Caminhada pela Paz.

3) Integridade da Criação:

3.1: Estudar e divulgar a Encíclica Laudato Sí;
3.2: Mobilizar fóruns e comitês sobre o combate ao desmatamento, mineração, poluição dos Rios, e temas afins;
3.3: Promover o cuidado com a Casa Comum;
3.4: Adotar práticas Eco-teológicas como Educação Ambiental como os 5R’s: Reduzir, Repensar, Reaproveitar, Reciclar e Recusar consumir produtos que gerem impactos socioambientais significativo.

Belém/PA, 07 de julho de 2019

Fonte: site da CFFB com adaptação e edição de Francisco Araújo, OFS/ JPIC Norte 2.

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