Frei Lorrane: “Quando recebo ataque nas redes, lembro de Jesus”

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Não é de hoje que as pessoas que atuam com pautas progressistas têm mobilizado a sociedade em prol de avanço nas liberdades individuais e na promoção de justiça social. Essa mobilização mexe com a sociedade de diversas formas, inclusive convocando a reação de grupos conservadores, contrários a ideias progressistas. Com isso, ameaças e ataques são feitos em nome de Deus, da conservação da família tradicional e dos bons costumes.

Mas e quando uma figura religiosa e cristã resolve denunciar violências contra uma travesti ou prestar apoio ao Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MTST)? O que acontece? “Comunista travestido de religioso” e “ateu, agnóstico, militante homossexual” . Essas são só algumas das acusações que o frei Lorrane Clementino costuma ler em suas redes sociais desde de que passou a se posicionar politicamente.

“Quando eu recebo ataques nas redes, eu lembro de Jesus Cristo que também esteve entre os menores, os pequeninos e os marginalizados para falar de amor. Se eu entrei na vida religiosa, é justamente para me assemelhar a Jesus Cristo. Eu continuo animado a continuar com o trabalho. O que eu falo, digo e escrevo não é nada além do que o próprio evangelho já nos ensinou”, relata ao O POVO.

Natural de Triunfo (PE), Lorrane tem 28 anos e ingressou na Ordem dos Frades Menores em 2014. Há cinco anos, ele professou votos religiosos. Em 2017, mudou-se para Fortaleza, onde se formou com bacharelado em Teologia, no Seminário da Prainha. O POVO conversou com o frei para ouvi-lo sobre sua atuação como religioso nas redes sociais e fora dela.

O POVO: Como religioso, qual sua motivação para apoiar grupos de minorias?

Frei Lorrane: Na época de São Francisco, quem tinha lepra (hanseníase) era excluído da sociedade, expulso de casa e andava com chocalho para que outras pessoas fossem avisadas e não chegassem perto. São Francisco chegou perto de uma pessoa com lepra e a beijou no rosto. Eu não estou dizendo que pobres e minorias são leprosos. A comparação que eu faço é que São Francisco foi ao encontro dos excluídos pela sociedade. Hoje, quem são os excluídos da nossa sociedade? São as minorias! Nós, franciscanos, devemos estar juntos aos excluídos. Temos isso como regra de vida.

OP: Como tem sido lidar com o ódio nas redes sociais, já que algumas ofensas partem diretamente de outros religiosos?

Frei Lorrane: Sempre que a gente se expõe é um desafio. As pessoas enxergam padres, freiras, como alguém intocável, e que somente está na igreja rezando. A intenção com o trabalho nas redes sociais é mostrar que a nossa função é ir além disso. Eu tenho apresentado diversas formas, sobretudo diante de realidades da sociedade e dentro da Igreja.

Isso faz com que católicos, que não aceitam o avanço, ajam como combatentes. O mundo avança, e a igreja precisa avançar também, mas sem perder a essência. Quando eu recebo ataques nas redes, eu lembro de Jesus Cristo que também esteve entre os menores, os pequeninos e os marginalizados para falar de amor. Se eu entrei na vida religiosa, é justamente para me assemelhar a Jesus Cristo. Eu continuo bem e animado a continuar com o trabalho. O que eu falo, digo e escrevo não é nada além do que o próprio Evangelho já nos ensinou.

OP: Eu vi pessoas lhe atacando nas redes por causa do seu nome. Como se ter um nome “feminino” fosse prejudicial para a sua masculinidade. Como o senhor recebe isso?

Frei Lorrane: Sempre que me perguntam meu nome, eu me apresento como Lorrane, esse é meu nome. Uns tempos atrás, eu descobri que se tratava de um nome usado para mulheres. Isso nunca me abalou, eu sempre gostei do meu nome. Em relação aos conservadores, eles associam meu nome como se eu fosse uma travesti. Tudo isso porque eu também trabalho com a comunidade LGBT+. Para eles, o fato de eu trabalhar com a comunidade significa que eu sou gay. Eu sou hétero, mas isso não me impede de trabalhar em prol dessas pessoas.

P: Quais seriam suas referências? Por quê?

Frei Lorrane: Minha primeira referência é Jesus e depois São Francisco. As pessoas conhecem São Francisco de forma romântica. A vida dele foi maior que isso, adaptando para aquela realidade, São Francisco é uma figura muito revolucionária.

Nós, franciscanos, temos o mesmo viés, não político em si, mas religioso, que seria o do Evangelho, ficar na simplicidade, se dedicar às pessoas, falar de justiça, paz e amor. O que me move é me questionar sempre como eu posso ajudar as pessoas. Além disso, eu sou de família pobre. Pude, nesta vida, me reconhecer como pobre. Os que querem justiça são sempre os que estão do lados dos pobres e que se sentem um entre eles, assim como Jesus se sentiu um entre todos.

OP: Como funciona a sua atuação como frei?

Frei Lorrane: No geral, eu e outros frades atuamos ajudando as pessoas e denunciando injustiças. Atualmente, estamos atuando contra a instalação de uma usina nuclear em Pernambuco e atuamos também para salvaguardar os direitos dos povos indígenas. Em alguns casos, o intuito é mobilizar a sociedade civil para determinados problemas sociais, para causar maior mobilização.

Em outros casos, não há necessidade, por exemplo, durante a distribuição de cestas básicas, durante seis meses, para mais de 800 famílias. Tudo o que Deus me deu, eu uso para falar, com esse viés de amor, justiça e paz, com os pobres e pelos pobres. Não basta falar também, é preciso estar junto. Fazer com que a vida tenha sentido e gosto.

OP: Qual o papel das redes sociais nisso tudo?

Frei Lorrane: A gente só pode estar bem no lugar com a harmonia e com a união advinda da comunicação. A internet tem ajudado nesse sentido de reunir pessoas com interesses comuns. O nosso interesse é cuidar da casa comum, uma expressão usada pelo Papa Francisco para designar a habitação dos animais, plantas, homem e a mulher, que é a Terra.

Fonte: Site de Notícias O Povo

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